A economia de dados depende de violações sistemáticas da privacidade, ao transformar informações pessoais em commodities negociáveis
Por Leonardo Lemes

A economia de dados consolidou-se como um dos principais motores do capitalismo digital. Empresas de tecnologia e de diversos outros setores utilizam informações coletadas a partir de redes sociais, dispositivos de Internet das Coisas (IoT), sistemas corporativos e transações online para gerar insights estratégicos, personalizar serviços e otimizar operações.
Nesse contexto, dados deixaram de ser apenas um subproduto da atividade digital para se tornarem ativos centrais de valor econômico.
Na prática, a monetização ocorre de diferentes formas. Organizações comercializam bases de dados brutas ou processadas, relatórios analíticos e perfis comportamentais para terceiros, como plataformas de marketing, pesquisa de mercado e desenvolvimento de produtos. Esse modelo sustenta receitas recorrentes e influencia decisões estratégicas em áreas como publicidade, crédito, seguros e recrutamento.
Ao mesmo tempo, o avanço desse mercado intensificou o debate sobre privacidade e governança da informação. A professora Shoshana Zuboff, da Harvard Business School, popularizou o termo “capitalismo de vigilância” ao descrever um modelo econômico baseado na coleta massiva de dados comportamentais para prever e influenciar ações humanas.
Segundo a autora, plataformas digitais utilizam esse “excedente comportamental” para alimentar sistemas de previsão altamente lucrativos, muitas vezes sem transparência ou consentimento efetivo dos usuários.
Outros especialistas ampliam as críticas. A filósofa Carissa Véliz argumenta que a economia de dados depende de violações sistemáticas da privacidade, ao transformar informações pessoais em commodities negociáveis.
Já Jaron Lanier, referência no desenvolvimento da realidade virtual, defende modelos alternativos em que indivíduos sejam remunerados pelo uso de seus dados, em vez de cedê-los gratuitamente a grandes plataformas.
Entre os principais riscos associados ao modelo atual, especialistas destacam três pontos centrais. O primeiro é a fragilização da privacidade, já que a coleta e o tratamento extensivo de dados pessoais frequentemente extrapolam a finalidade original do uso.
O segundo é a discriminação algorítmica, com impactos em processos automatizados de contratação, concessão de crédito e definição de preços, que podem reproduzir ou ampliar desigualdades existentes. O terceiro é o impacto sobre a democracia, uma vez que a personalização extrema de conteúdos favorece a desinformação segmentada e a polarização social.
Casos emblemáticos reforçam essas preocupações. O escândalo da Cambridge Analytica, revelado em 2018, mostrou como dados de milhões de usuários do Facebook foram utilizados indevidamente para influenciar processos eleitorais.
Mais recentemente, decisões estratégicas de grandes plataformas, como o recuo em políticas de moderação de conteúdo, reacenderam o debate sobre responsabilidade das empresas de tecnologia frente à desinformação e ao cumprimento de legislações de proteção de dados.
À medida que regulações como a LGPD avançam e a pressão por conformidade aumenta, empresas são desafiadas a equilibrar inovação, monetização de dados e respeito aos direitos fundamentais. O futuro da economia digital dependerá de como esse equilíbrio será construído, e de até onde o mercado estará disposto a ir sem comprometer a confiança de usuários, clientes e da própria sociedade.
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