Usuários pedem ao ChatGPT que crie uma caricatura a partir do contexto e das informações já trocadas entre o usuário e a ferramenta
Por Rafael Reis

A nova trend que tomou conta das redes sociais parece, à primeira vista, apenas um uso divertido e cotidiano da inteligência artificial.
Usuários pedem ao ChatGPT que crie uma caricatura a partir do contexto e das informações já trocadas entre o usuário e a ferramenta. O resultado costuma ser surpreendentemente preciso.
Mas a relevância desse fenômeno viral não está nas caricaturas que tomaram conta das redes sociais nos últimos dias, está no processo.
Mais especificamente no modo como sistemas de IA generativa, como exemplo o ChatGPT, constroem representações cada vez mais precisas de nós a partir de contexto, histórico de interação e inferência.
A própria lógica da trend deixa isso claro: “Crie uma caricatura de mim no meu ambiente de trabalho, levando em conta tudo o que você sabe sobre mim.” Usuários que já utilizam essas ferramentas com frequência relatam resultados mais precisos, mais “coerentes” com sua identidade profissional e pessoal.
Esse efeito é produzido porque sistemas de IA não trabalham apenas com dados isolados, mas com inferências. Ao manter conversas com a IA, fornecemos continuidade narrativa e detalhes preciosos da nossa vida.
Se nosso perfil é mais sério ou brincalhão, se somos confiantes ou inseguros, se detalhistas ou mais intuitivos. A IA não cria do nada; ela reorganiza fragmentos de identidade em uma representação coerente. E o fato dela ser tão precisa deve ser motivo para debates e, em alguma medida, preocupação.
Antes de tudo, é preciso lembrar que ferramentas de IA generativa são operadas por empresas privadas. Isso não é um detalhe irrelevante. São essas empresas, em sua massiva maioria norte-americanas e chinesas, que controlam a infraestrutura, os modelos, os fluxos de dados e, sobretudo, que definem os limites e as condições de uso dos sistemas.
Não há neutralidade nesse arranjo. Toda organização privada possui preferências, incentivos econômicos e, especialmente, interesses estratégicos — e esses elementos podem ser incorporados ao modo como essas ferramentas operam, seja de forma intencional ou não.
Esse cenário produz uma assimetria difícil de ignorar. Enquanto o usuário enxerga apenas respostas cada vez mais fluentes, contextualizadas e aparentemente precisas, os controladores dos sistemas enxergam padrões.
Padrões de uso, de linguagem, de temas recorrentes, de comportamentos e de interação, processados em escala e com alto grau de detalhamento. Não se trata apenas de metadados amplos ou estatísticas genéricas, mas da possibilidade de associar conversas a perfis específicos, inclusive no plano individual.
É importante ser claro: não há, do ponto de vista técnico ou jurídico, nada que impeça que as mensagens trocadas em chats de sistemas de IA sejam acessadas internamente. Ainda que existam políticas de privacidade e promessas de uso responsável, o fato central permanece: ao interagir com uma IA generativa, o usuário conversa dentro de uma infraestrutura que não controla, operada por terceiros, em um ambiente marcado por uma profunda assimetria informacional.
Essa realidade não invalida o uso da tecnologia, mas impõe um dever mínimo de consciência. Quanto mais contexto entregamos, mais valor informacional geramos — e mais assimétrica se torna a relação entre quem usa o sistema e quem o controla.
Se, no passado, a preocupação com privacidade se concentrava no acesso de empresas a dados pessoais, hoje o debate deslocou-se para um nível mais profundo: a captura de padrões cognitivos, preferências, rotinas, inclinações emocionais e formas de pensamento.
Estamos falando do controle e da batalha pelo nosso cérebro, dos nossos segredos mais íntimos, daquilo que talvez nem nós saibamos sobre nós mesmos. É uma fronteira inédita, ainda pouco compreendida, e que está sendo explorada em larga escala. O mais paradoxal é que participamos ativamente desse processo — e, muitas vezes, ainda pagamos por ele.
É evidente que esse tipo de informação possui alto valor econômico. Mas o risco central não está apenas na sua mercantilização. Ele reside na opacidade. O usuário médio do ChatGPT não tem condições reais de entender quais inferências estão sendo produzidas a partir de suas interações, tampouco de prever como essas inferências podem ser combinadas, reutilizadas ou reaproveitadas no futuro, em contextos completamente distintos daquele em que foram geradas.
Talvez o aspecto mais preocupante dessa trend não seja técnico, mas cultural. Ela ajuda a consolidar a ideia de que quanto mais contexto fornecemos, melhor o serviço funciona — e que esse é sempre um bom negócio.
O uso das ferramentas de IA já deixa de ser exceção e se transforma em padrão de mercado. Colocar toda nossa vida pessoal e profissional para ser processado por IA já é percebido como parte natural, quase inevitável, da interação com tecnologia. Não há fricção, apenas conveniência.
Nada disso implica que a IA generativa deva ser rejeitada ou demonizada. Trata-se de uma tecnologia poderosa e útil. O ponto central é outro: compreender o que está sendo trocado em cada interação, e em que termos essa troca ocorre.
A nova trend do ChatGPT é particularmente reveladora porque torna visível aquilo que normalmente permanece oculto: o grau de conhecimento que essas ferramentas e empresas conseguem acumular sobre nós — e o quanto colaboramos ativamente para isso, muitas vezes sem perceber.
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