ID Talk | Com Bruno Grossi e Murillo Alves, heads de ativos digitais e cripto do Banco Inter, a Crypto ID discute como Bitcoin enfrenta desafios técnicos, geopolíticos e as ameaças futuras da computação quântica sem perder sua característica mais essencial: a resiliência
No dia 22 de maio, o Banco Inter escolheu o Pizza Day para anunciar uma parceria estratégica com a Tether, maior emissora de stablecoins do mundo, e para reduzir taxas de negociação de ativos digitais na plataforma. A data celebra a primeira compra comercial registrada com Bitcoin, realizada em 2010, quando Laszlo Hanyecz pagou dez mil bitcoins por duas pizzas. Dezesseis anos depois, o simbolismo da escolha não foi acidental.
O Inter é hoje um dos maiores bancos digitais do Brasil, com mais de 35 milhões de clientes. Durante anos, instituições financeiras tradicionais trataram Bitcoin com desconfiança, quando não com hostilidade declarada. O Inter fez um caminho diferente: em vez de ignorar a demanda dos clientes por ativos digitais, construiu infraestrutura própria, com área dedicada, heads especializados e pesquisa interna em criptografia e computação quântica conduzida pelo Inter Science.
O evento também contou com as participações de Felipe Sant’Ana, que explorou a evolução narrativa do Bitcoin ao longo dos anos, e de Bernardo Pascowitch, que trouxe dados sobre a distribuição do ativo entre investidores de varejo. Mas foi na conversa com os executivos do banco que os temas mais técnicos e estratégicos ganharam profundidade.
Foi nesse contexto que a Crypto ID conversou com Bruno Grossi, Head de Ativos Digitais do Inter, e Murillo Alves, Head de Cripto do Inter. A conversa foi além do preço e da volatilidade. Os temas foram ECDSA, computação quântica, o conceito de “Harvest Now, Decrypt Later”, guarda de chaves privadas, Lightning Network e o papel das criptomoedas no sistema financeiro dos próximos dez anos.
A Crypto ID agradece ao Banco Inter pela abertura para este ID Talk e aos executivos Bruno Grossi e Murillo Alves pela disponibilidade e pela profundidade das respostas.
Leia a entrevista na íntegra:
Computação quântica e segurança futura do Bitcoin

Crypto ID: Bruno, o mercado costuma tratar a computação quântica como uma ameaça distante, mas o ecossistema Bitcoin já discute migração para algoritmos resistentes a quântico. Como o Inter acompanha esse cenário e qual é a visão do banco sobre a maturidade real desse risco para a custódia e proteção de ativos digitais?
Bruno Grossi: A computação quântica representa um tema relevante para toda a indústria criptográfica, não apenas para Bitcoin. Hoje, boa parte da infraestrutura digital global depende de algoritmos assimétricos que, no longo prazo, podem se tornar vulneráveis a computadores quânticos suficientemente avançados.
No caso do Bitcoin, a principal discussão envolve algoritmos como ECDSA, utilizados na assinatura de transações. Porém, é importante separar risco teórico de risco operacional imediato. Atualmente não existem computadores quânticos capazes de comprometer a segurança prática da rede Bitcoin.
Ainda assim, o ecossistema já começou a discutir estratégias de transição para algoritmos pós-quânticos. No Inter, acompanhamos esse tema de forma estruturada, com o Inter Science à frente das pesquisas em computação quântica e criptografia resistente a ataques quânticos, em paralelo à avaliação contínua da segurança da infraestrutura e da evolução dos padrões globais.
Acreditamos que o setor financeiro precisa se preparar com antecedência para cenários de longo prazo, sem cair em alarmismo. Segurança criptográfica é um processo contínuo de evolução.
Democratização cripto versus segurança operacional
Crypto ID: O Inter vem apostando em acessibilidade, simplicidade e segurança para ampliar o acesso aos ativos digitais, inclusive permitindo operações a partir de R$ 5. Como equilibrar democratização financeira com exigências robustas de compliance, proteção de custódia e mitigação de riscos cibernéticos?
Bruno Grossi: Democratizar acesso a ativos digitais não significa reduzir padrões de segurança. Pelo contrário. Quanto maior a escala de adoção, mais importante se torna a robustez operacional da plataforma.
Nosso objetivo é simplificar a experiência para o cliente sem expor o usuário à complexidade técnica que normalmente acompanha o universo cripto. Isso envolve investimentos contínuos em custódia, monitoramento transacional, prevenção a fraudes, compliance regulatório e segurança cibernética.
Permitir operações a partir de valores baixos ajuda a ampliar acesso a novos produtos e possibilidades e traz a necessidade de mais educação financeira, mas toda a infraestrutura por trás continua seguindo padrões rigorosos de governança e gestão de risco.
Acreditamos que a próxima fase da adoção de ativos digitais dependerá muito mais de uma melhoria na experiência do usuário, integração com serviços financeiros tradicionais e confiança operacional do que apenas da tecnologia em si. O cliente que já confia em seu banco pode agora aproveitar novas oportunidades sem ter que entender os pormenores da tecnologia.
“Harvest Now, Decrypt Later” e riscos pós-quânticos
Crypto ID: Existe hoje uma preocupação crescente no mercado com o conceito de “Harvest Now, Decrypt Later”, em que dados criptografados são coletados agora para serem quebrados futuramente por computadores quânticos. Como o Inter avalia esse risco dentro do universo de custódia de ativos digitais e quais estratégias já começam a ser consideradas para proteção de longo prazo das chaves criptográficas e informações sensíveis dos clientes?
Bruno Grossi: O conceito de “Harvest Now, Decrypt Later” é legítimo e já faz parte das discussões estratégicas sobre segurança de longo prazo em diversos setores, especialmente no financeiro. A preocupação central é que dados criptografados capturados hoje possam eventualmente ser descriptografados no futuro caso existam avanços relevantes em computação quântica. Isso reforça a importância de pensar segurança não apenas para o presente, mas também considerando horizontes de muitos anos.
No contexto de ativos digitais, isso envolve avaliar continuamente algoritmos criptográficos, arquitetura de custódia, gestão de chaves e políticas de atualização tecnológica. No Inter, acompanhamos a evolução dos padrões quantum resistant e entendemos que a transição para modelos criptográficos mais resilientes acontecerá gradualmente ao longo da próxima década. Esse é um movimento que provavelmente envolverá toda a indústria financeira, a infraestrutura de internet e os sistemas globais de segurança digital.
O mais importante neste momento é construir capacidade técnica, entendimento prático e preparo institucional para futuras migrações, evitando tanto complacência quanto exageros sobre o estágio atual da tecnologia quântica.
A verdadeira vulnerabilidade do Bitcoin

Crypto ID: Vocês destacaram que hoje a maior vulnerabilidade do Bitcoin não está necessariamente na criptografia, mas na experiência do usuário e na gestão segura das chaves privadas. Na prática, quais são os maiores desafios de segurança operacional quando se busca oferecer criptoativos para um público amplo e menos técnico?
Murillo Alves: O maior desafio hoje está muito menos na camada técnica e muito mais na camada humana: PLD, experiência do usuário e segurança de custódia. O usuário amplo não quer, e muitas vezes nem consegue, lidar sozinho com cold wallets, seed phrases e os riscos de transação na blockchain. Na prática, nosso maior desafio é abstrair a complexidade técnica e fornecer soluções que sejam, ao mesmo tempo, tecnicamente robustas, simples e eficientes para o usuário final.
Lightning Network e os limites da adoção
Crypto ID: Lightning Network nasceu como uma solução elegante para escalabilidade do Bitcoin, mas ainda enfrenta barreiras importantes de adoção por causa da complexidade operacional. Na sua visão, o futuro das criptomoedas passa necessariamente por simplificar a experiência do usuário ou o mercado tende a aceitar que soberania financeira exige algum nível inevitável de complexidade técnica?
Murillo Alves: Historicamente, tecnologias que exigem complexidade operacional excessiva acabam limitadas a nichos técnicos. Por isso, acredito que a evolução natural do mercado será reduzir drasticamente a complexidade ao longo do tempo. O usuário mais técnico sempre poderá optar por soluções mais robustas, como autocustódia e máxima descentralização, mas queremos criar uma solução híbrida na qual a complexidade da infraestrutura e das operações fica do nosso lado e o usuário final tem uma experiência simples. O futuro tende a ser semelhante ao da internet ou do Pix: protocolos extremamente sofisticados operando por trás das cortinas, enquanto na superfície a experiência é fácil, rápida e intuitiva.
O futuro das criptomoedas dentro do sistema financeiro
Crypto ID: Durante muitos anos o mercado tratou Bitcoin quase exclusivamente como ativo especulativo. Hoje já vemos bancos tradicionais, ETFs, stablecoins e integração com serviços financeiros do dia a dia. Na sua visão, qual será o verdadeiro papel das criptomoedas dentro do sistema financeiro nos próximos cinco a dez anos: investimento, infraestrutura financeira ou uma nova camada global de transferência de valor?
Murillo Alves: Nos próximos cinco ou dez anos, acredito que o mercado deixará de enxergar cripto apenas como uma classe de ativos e passará a tratá-lo como infraestrutura financeira global. O Bitcoin tende a continuar consolidando seu papel como reserva digital de valor à medida que a volatilidade diminua. Já as stablecoins continuarão a ganhar espaço como os trilhos financeiros para pagamentos, remessas, tokenização e liquidação de ativos, por suas características de disponibilidade, eficiência e transparência. Acredito que o movimento visto hoje com ETFs, bancos tradicionais e integração com serviços financeiros seja apenas o começo de uma convergência maior entre finanças tradicionais e a blockchain. A tecnologia tende a se tornar invisível, porém fundamental, na infraestrutura financeira. No fim, as pessoas vão utilizar blockchain sem saber que estão utilizando blockchain.
Bruno Grossi: Acredito que o futuro das criptomoedas será muito menos sobre especulação e muito mais sobre infraestrutura financeira.
Nos próximos anos, veremos uma convergência crescente entre blockchain, stablecoins, tokenização de ativos, sistemas bancários tradicionais e novos modelos de liquidação financeira. Parte dessa transformação já começou com ativos tokenizados, moedas digitais e integração de cripto em plataformas bancárias tradicionais.
No Inter, participamos ativamente das discussões e experimentações envolvendo CBDCs e tokenização de ativos financeiros com o setor privado, bancos centrais e o próprio BIS (Bank for International Settlements), explorando casos de uso como trade finance, ativos digitais programáveis e novas formas de liquidação financeira baseadas em blockchain.
Em pouco tempo, a maior parte dos usuários finais talvez nem perceba que utilizará blockchain. Assim como hoje poucos entendem os protocolos da internet, o valor real da tecnologia estará na abstração da complexidade e na melhoria da experiência. No longo prazo, vejo as criptomoedas deixando de ser uma categoria isolada para se tornarem parte da própria infraestrutura financeira global.
Conclusão
O que Bruno Grossi e Murillo Alves descreveram ao longo desta conversa não é uma aposta no hype cripto. É uma tese estrutural sobre onde a infraestrutura financeira global está indo, e sobre o papel que instituições como o Banco Inter precisam desempenhar nessa transição.
A parceria com a Tether, anunciada no Pizza Day 2026, não foi um gesto simbólico. Foi a sinalização de que o banco escolheu estar no centro dessa convergência, com pesquisa própria em computação quântica, infraestrutura de custódia e um modelo de experiência do usuário que esconde a complexidade técnica sem abrir mão da robustez.
Bitcoin completa 16 anos de existência comercial ainda sendo contestado por alguns e celebrado por outros. O que mudou, como deixaram claro os dois executivos do Banco Inter, é que as instituições financeiras sérias pararam de escolher um lado. Passaram a construir a infraestrutura para os dois.
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