Presidente da ANCD ressalta que, no Brasil, cerca de 3,5 milhões de assinaturas digitais são realizadas por dia com certificados de pessoa física ICP-Brasil em nuvem, destaca a possibilidade de uso do passaporte brasileiro como mecanismo na emissão autoassistida e vê a AR Eletrônica como nova etapa da confiança digital no país
O CertForum-ID 2026 marcou a retomada de uma agenda estratégica para a certificação digital brasileira em um momento de convergência entre identidade civil, confiança digital, assinatura eletrônica qualificada e novos modelos de emissão de certificados digitais.
Em entrevista ao Crypto ID, durante o último dia do evento em Brasília, Márcio Nunes, presidente da ANCD, Associação Nacional de Certificação Digital, avaliou que a edição deste ano teve papel relevante por reunir, no mesmo ambiente, os debates sobre identificação civil e certificação digital ICP-Brasil.
Segundo ele, o encontro foi “extraordinário” justamente por ocorrer em um contexto de integração entre duas infraestruturas essenciais para a transformação digital do país.
“É a conjunção de uma infraestrutura nacional de confiança baseada tanto na identificação civil de forma digital como na certificação digital”, afirmou.
Para Márcio Nunes, a combinação entre identidade, certificação digital e serviços de confiança reforça elementos fundamentais das transações digitais, como presunção de validade, identidade e autoria.
Assista a entrevista
ANCD e ABRID aproximam agendas de identidade civil e certificação digital

A realização conjunta do CertForum-ID 2026 pela ANCD e pela ABRID foi apontada por Márcio Nunes como resultado de uma construção baseada em diálogo, digitalização e confiança.
De acordo com ele, o crescimento da Carteira de Identidade Nacional, a evolução da identificação civil e o novo arcabouço normativo da ICP-Brasil criaram um ambiente propício para aproximar os dois temas.
Nesse contexto, as Instruções Normativas 36 e 37 do ITI aparecem como ponto de inflexão para o setor, especialmente por viabilizarem a AR Eletrônica, modalidade que permite novas experiências de emissão autoassistida de certificados digitais.
“A AR Eletrônica é, de fato, o ponto-chave de todo o debate que a gente tem trazido aqui sobre certificação digital, nesses dois dias”, destacou.
ICP-Brasil já movimenta milhões de assinaturas por dia
Um dos pontos centrais da entrevista foi o volume de assinaturas digitais realizadas diariamente no Brasil.
Márcio Nunes citou que pelo GOV.BR são realizadas cerca de 1,4 milhão assinaturas avançadas. Já a ICP-Brasil, considerando certificados digitais de pessoa física em nuvem, alcança aproximadamente 3,5 milhões de assinaturas por dia.
Para o presidente da ANCD, mesmo diante desses números, o potencial de expansão ainda é expressivo. Ele observou que, somadas, as assinaturas avançadas e qualificadas já representam cerca de 5 milhões de operações diárias, mas esse volume ainda pode crescer mais diante da cultura documental e formalística brasileira.
Na visão de Márcio, a oportunidade está em ampliar o uso da assinatura eletrônica qualificada e tornar a experiência de emissão e uso do certificado digital mais simples, sem reduzir a segurança.
AR Eletrônica deve simplificar a emissão sem banalizar a segurança
Ao comentar as Instruções Normativas 36 e 37, Márcio Nunes destacou três efeitos principais para o ecossistema da ICP-Brasil: simplificação normativa, maior clareza operacional e viabilização da AR Eletrônica.
Segundo ele, a simplificação das normas não significa redução de rigor, mas organização dos requisitos em uma estrutura mais objetiva para o mercado.
“É uma simplificação, não é uma banalização”, afirmou.
A AR Eletrônica, na visão do presidente da ANCD, destrava uma nova modalidade de atendimento, voltada especialmente à pessoa física e à emissão de certificados digitais em nuvem. A expectativa é que o usuário possa realizar o processo com mais autonomia, em modelo de autosserviço, desde que atendidos os requisitos de segurança, validação de identidade, prova de vida e checagem biométrica.
Márcio também lembrou que a possibilidade de uso do passaporte brasileiro como mecanismo de autenticação pode ampliar o alcance da emissão eletrônica, ao incluir cidadãos que já possuem um documento forte de identificação.
Segundo ele, o passaporte brasileiro foi citado no evento como uma base que alcança cerca de 19 milhões de brasileiros, o que pode abrir novas possibilidades para emissão autoassistida segura de certificados digitais.
Certificado em nuvem, trilha de acesso e responsabilidade do titular
Outro ponto destacado por Márcio Nunes foi a importância de ampliar a compreensão sobre o uso seguro do certificado digital, especialmente em nuvem.
Para ele, a certificação digital precisa ser vista não apenas como obrigação, mas como oportunidade de fortalecer a formalística digital das organizações e das pessoas.
Ao mesmo tempo, Márcio alertou que a segurança do certificado digital depende também da responsabilidade do titular no controle de acesso.
“Não adianta você ter um certificado digital e compartilhar o acesso com qualquer um e esperar que o certificado digital se resolva”, disse.
Na avaliação dele, o certificado digital em nuvem traz uma vantagem importante ao permitir maior rastreabilidade do uso. Com trilhas de acesso, o titular pode ter mais visibilidade de quando e como seu certificado está sendo utilizado.
“Uma vantagem que a gente sempre vê no uso do certificado digital em nuvem, especialmente na AR Eletrônica, é que você consegue gerar uma trilha de acesso que é importante para o usuário final”, explicou.
Inteligência artificial entra na agenda da confiança digital
A entrevista também abordou os novos desafios impostos pela inteligência artificial ao ecossistema de identidade e certificação digital.
Márcio Nunes afirmou que a IA se tornou um tema inevitável nos debates sobre confiança digital, tanto pelo potencial de inovação quanto pelos riscos decorrentes de sua natureza não determinística.
“Hoje tem um novo elefante dentro da sala de cristais, que é a inteligência artificial”, afirmou.
Para ele, o desafio será combinar dados consistentes, conectividade, tecnologia e regulamentação para criar experiências digitais confiáveis em um ambiente cada vez mais automatizado.
“É um processo de melhoria contínua para, de fato, criar esse ápice de confiança digital”, avaliou.
Certificação digital renovada
Ao encerrar a entrevista, Márcio Nunes deixou uma mensagem ao mercado: a certificação digital brasileira entra em uma nova fase.
“A certificação digital está renovada”, afirmou.
Para o presidente da ANCD, a chegada da AR Eletrônica, a ampliação dos certificados em nuvem e a possibilidade de novas modalidades de validação criam um espaço de renovação para empresas, profissionais, entidades e prestadores de serviço de confiança.
Ele destacou que o objetivo da atual gestão da ANCD é ampliar a transparência e a publicidade sobre o uso da certificação digital, além de esclarecer melhor ao mercado quais são seus critérios de proteção, seus modelos de uso e suas oportunidades.
“Levar o mais alto nível de proteção de validade de uma assinatura eletrônica de uma forma simplificada e segura. Essa é a mensagem. É um espaço de oportunidade de renovação da certificação digital”, concluiu.
A entrevista foi conduzida por Susana Taboas e Regina Tupinambá, cofundadoras do Crypto ID.

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Sobre ANCD

Fundada em setembro de 2014, a Associação Nacional de Certificação Digital – ANCD é uma associação sem fins lucrativos, cujo objetivo é a defesa dos interesses do setor da Certificação Digital no padrão da Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira (ICP-Brasil). Tecnologia implantada no Brasil há quase vinte anos.
A Associação Nacional de Certificação Digital – ANCD reúne as maiores empresas e entidades que atuam no mercado de certificação digital no padrão ICP-Brasil. A associação busca representar a indústria da certificação digital nos mais diversos espaços de debate, garantindo que a ICP-Brasil permaneça sendo uma tecnologia aliada da digitalização segura do país e fomentando novos modelos de negócio para o setor.


