Bancos Centrais reunidos em Portugal reconhecem o potencial transformador da IA, mas admitem que ainda não têm ferramentas para supervisionar algoritmos opacos, conter bolhas aceleradas por máquinas e proteger o sistema financeiro do elo mais fraco
A inteligência artificial foi o tema dominante do Fórum anual do Banco Central Europeu, realizado de 29 de junho a 1º de julho de 2026 em Sintra, Portugal, reunindo os principais bancos centrais do mundo. No painel dedicado a inteligência artificial e estabilidade financeira, presidido por Isabel Schnabel, da Diretoria Executiva do BCE, em 30 de junho, o consenso foi desconfortável: a IA pode perturbar mercados, crédito, empregos e segurança, e os reguladores admitem que ainda não compreendem totalmente os impacto.

, Christine Lagarde, Presidente do Banco Central Europeu, Tiff Macklem, Governador do Banco do Canadá , Kevin Warsh, Presidente do Conselho de Governadores do Sistema da Federal Reserve, Moderadora: Sara Eisen, Apresentadora da CNBC no Fórum do BCE em Sintra, Portugal, 1º de julho de 2026 Foto de Sérgio Garcia
O tema que invadiu todas as conversas
De acordo com a Reuters, a IA se infiltrou em praticamente todas as discussões do encontro, das sessões sobre imigração e supervisão bancária até os debates sobre clima. O assunto ofuscou inclusive a estreia de Kevin Warsh, novo presidente do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, em sua primeira reunião com os pares internacionais.
Warsh não economizou na dimensão histórica. “Este é o maior momento de importância para cada uma de nossas economias, eu acho, em nossa vida”, afirmou ao Fórum do BCE. O presidente do Fed comparou o estágio atual da IA ao início da internet, lembrando que ninguém imaginava, na origem da rede, que ela criaria um milhão e meio de empregos de motoristas de aplicativo. Em sua avaliação, estamos apenas no começo dessa revolução.
A síntese mais precisa do dilema veio de Torsten Slok, economista-chefe da Apollo Global Management, em uma das sessões principais. Segundo ele, se a IA entregar mais do que o esperado, isso impactará a estabilidade financeira. E se entregar menos, também. Não existe cenário neutro.
Algoritmos que podem manipular mercados
No mercado financeiro, a automação já executa a maior parte das operações de trading. A preocupação levantada em Sintra vai além da velocidade: algoritmos de IA poderiam inflar bolhas em ritmo sem precedentes e depois estourá-las, lucrando na subida e na descida, em um tipo de conluio automatizado que a regulação atual não sabe detectar.
Itay Goldstein, professor da Universidade da Pensilvânia, alertou durante o painel sobre inteligência artificial e estabilidade financeira, em 30 de junho, para a capacidade desses sistemas de coordenar movimentos de manipulação de preços. Segundo ele, esses algoritmos conseguem de fato criar bolhas que levam a colapsos, com implicações significativas para a estabilidade financeira.
A ironia é que a primeira bolha potencialmente criada pela IA pode ser a das próprias ações de IA. Os investimentos maciços em infraestrutura de inteligência artificial, que Torsten Slok estima terem acrescentado sozinhos um ponto percentual ao PIB dos Estados Unidos, elevaram as avaliações a patamares que especialistas comparam à mania ferroviária britânica da década de 1840, aos anos 1920 e ao boom das pontocom.

O BIS (Banco de Pagamentos Internacionais), instituição que funciona como banco central dos bancos centrais, reforçou o alerta em relatório citado pela reportagem.
Segundo o BIS, a escala e o ritmo do atual ciclo de investimentos em IA, somados às expectativas de grandes ganhos de produtividade, se assemelham a esses precedentes históricos e destacam riscos de queda no curto prazo.
Crédito concedido por caixas pretas
Para quem acompanha o debate sobre governança de algoritmos, o trecho mais relevante do encontro veio do Fundo Monetário Internacional. A IA permitirá análises de crédito mais sofisticadas e poderá levar financiamento a tomadores hoje fora do radar dos bancos. O problema é supervisionar decisões que nem os próprios bancos conseguem explicar.
“Como supervisores avaliam esse tipo de decisão de empréstimo agente? Eles são um pouco uma caixa preta”, questionou Tobias Adrian, alto funcionário do FMI (Fundo Monetário Internacional), apontando a falta de explicabilidade como um desafio central de supervisão.
O tema não é abstrato para o mercado brasileiro. A discussão sobre explicabilidade de modelos de IA em decisões de crédito dialoga diretamente com a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), que garante ao titular o direito à revisão de decisões automatizadas, e com a agenda regulatória do Banco Central do Brasil para uso responsável de IA no sistema financeiro.
O elo mais fraco: cibersegurança como risco sistêmico
Foi no território da segurança digital que Sintra produziu a proposta mais concreta. Adrian, do FMI, lembrou que os ataques mais devastadores geralmente exploram o elo mais fraco da cadeia, e que defender-se contra ameaças maliciosas potencializadas por IA se tornará cada vez mais caro, a ponto de empresas economicamente viáveis terem dificuldade de se proteger.
É uma constatação que o setor de segurança da informação conhece bem. Com IA generativa barateando a ofensiva, phishing hiperpersonalizado, deepfakes de voz e reconhecimento automatizado de vulnerabilidades, a assimetria entre atacante e defensor se amplia. E quando o alvo é uma instituição financeira interconectada, o risco deixa de ser corporativo e passa a ser sistêmico.
A resposta mais ousada veio de Sarah Breeden, vice-governadora do Banco da Inglaterra. Ela sugeriu estudar a criação de um esquema de seguro contra falhas cibernéticas, inspirado no seguro de depósitos que protege correntistas em caso de quebra bancária. “No contexto cibernético, precisamos de sistemas que permitam a uma instituição assumir as funções básicas de outra durante a interrupção?“, questionou.A ideia coloca a resiliência operacional no mesmo patamar da solvência:
Não basta que um banco seja financeiramente sólido se um ataque pode paralisá-lo.
É a mesma lógica que sustenta, na Europa, o regulamento DORA (Digital Operational Resilience Act), e que no Brasil orienta as normas do Banco Central sobre política de segurança cibernética para instituições financeiras.
Sucesso demais ou de menos, o risco permanece
O paradoxo final apresentado em Sintra é que até o sucesso pleno da IA seria um risco. Se as expectativas mais otimistas de eficiência se confirmarem, a substituição de trabalhadores em massa reduziria a renda disponível e poderia empurrar a economia para a recessão. Se a IA decepcionar, o volume de capital investido no setor não entregará os retornos prometidos.
Tiff Macklem, governador do Banco do Canadá, resumiu com a memória das pontocom: a internet se provou melhor do que qualquer um imaginava e criou negócios inteiramente novos, e ainda assim houve uma bolha. O mercado pode se adiantar à realidade, e a correção cobra seu preço.
Para o ecossistema de identidade digital, criptografia e segurança da informação, o recado de Sintra é claro. A conversa sobre IA e estabilidade financeira passa, inevitavelmente, por autenticação forte, governança de identidades humanas e não humanas, explicabilidade de algoritmos e resiliência cibernética. Os bancos centrais acabaram de admitir que esse é o novo perímetro da estabilidade global.
Com informações do BCE e Reuters
Fotos BCE
Glossário
BCE (Banco Central Europeu): autoridade monetária da zona do euro, responsável pela política monetária e pela supervisão dos grandes bancos europeus.
BIS (Banco de Pagamentos Internacionais): instituição sediada na Basileia que coordena a cooperação entre bancos centrais e produz padrões globais de regulação financeira.
Caixa preta: modelo de IA cujo funcionamento interno não pode ser interpretado diretamente, mesmo quando seus resultados são precisos.
DORA (Digital Operational Resilience Act): regulamento europeu que estabelece requisitos de resiliência digital para o setor financeiro.
Seguro de depósitos: mecanismo que protege recursos de correntistas em caso de falência bancária, citado como inspiração para um possível seguro cibernético sistêmico.
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