Tecnologia quântica avança da pesquisa para a fabricação e amplia o debate sobre criptografia pós-quântica
O anúncio feito pelo National Institute of Standards and Technology, o NIST, em 29 de junho de 2026, não deve ser lido apenas como mais uma iniciativa de pesquisa em tecnologia quântica. O ponto central está no que o novo centro fará: acelerar a passagem da ciência quântica para a engenharia industrial, com componentes, padrões, controle de qualidade e cadeia de suprimentos capazes de sustentar uma nova etapa desse mercado.
O novo Quantum Manufacturing Engineering Center, conhecido pela sigla QMEC, será estabelecido pela SRI International – Stanford Research Institute, nome original da instituição criada em 1946 – instituição sem fins lucrativos de pesquisa e desenvolvimento, a partir de um acordo com o NIST, agência do Departamento de Comércio dos Estados Unidos. O NIST prevê um investimento inicial de US$ 20 milhões nas atividades do centro.
O QMEC nasce para enfrentar uma das maiores lacunas da indústria quântica: transformar descobertas científicas e protótipos em componentes e sistemas escaláveis, de alto desempenho e prontos para adoção comercial.
O que o novo centro do NIST fará

Equipamento usado para manter componentes, sensores ou sistemas quânticos em temperaturas extremamente baixas.
O QMEC terá como foco acelerar a fabricação de componentes e sistemas quânticos escaláveis.
Isso inclui tecnologias habilitadoras essenciais, como criostatos, lasers, sensores, chips, circuitos fotônicos, métodos de medição, processos de controle de qualidade e outras estruturas necessárias para que sistemas quânticos funcionem fora do ambiente experimental.
Entre esses elementos, os criostatos ocupam papel importante. Eles são usados para manter determinados sistemas em temperaturas extremamente baixas, reduzindo ruídos e permitindo que fenômenos quânticos sejam explorados com maior estabilidade. Sua composição pode incluir câmara térmica, isolamento a vácuo, escudos térmicos, materiais metálicos de alta condutividade, sistema de refrigeração criogênica e conectores especiais.
O centro também deverá atuar na aproximação entre pesquisa, engenharia, indústria e usuários finais. A proposta não é apenas desenvolver novas tecnologias, mas criar condições para que elas possam ser fabricadas, testadas, padronizadas e integradas a cadeias produtivas reais.
Esse movimento interessa a setores como sensoriamento, comunicações, computação, biomedicina, eletrônica, segurança digital e defesa. Em todos esses campos, a promessa quântica depende menos de discursos futuristas e mais de capacidade industrial.
Da promessa científica à fabricação escalável
A criação do QMEC sinaliza uma mudança relevante. Durante anos, grande parte do debate sobre tecnologia quântica esteve concentrada em pesquisa fundamental, laboratórios, demonstrações de conceito e previsões sobre a chegada de computadores quânticos capazes de resolver problemas hoje intratáveis.
Agora, o tema avança para outra pergunta: quem conseguirá fabricar, integrar e escalar os componentes necessários para que essas tecnologias cheguem ao mercado?
Essa transição exige padrões, fornecedores, processos de medição, controle de qualidade, confiabilidade de componentes e cadeia de suprimentos. Em outras palavras, exige uma infraestrutura industrial capaz de sustentar a nova geração de tecnologias quânticas.
É nesse ponto que o anúncio do NIST ganha peso estratégico.
O centro não trata apenas de ciência. Trata de capacidade produtiva, soberania tecnológica e liderança industrial em uma área considerada crítica para os próximos anos.
Esse movimento de aproximação entre criptografia, equipamentos e produção industrial também já pode ser observado no Brasil
O país conta com empresas capazes de levar a proteção criptográfica para equipamentos produzidos e utilizados em escala industrial. Um exemplo é a CERMOB, que desenvolveu uma arquitetura para incorporar identidade digital, proteção de chaves e assinatura digital diretamente ao hardware de dispositivos conectados utilizados em infraestruturas críticas.
A empresa apresentou suas tecnologias na Hannover Messe 2026, na Alemanha, uma das maiores e mais relevantes feiras industriais do mundo, demonstrando que o Brasil também possui conhecimento para integrar segurança digital à origem dos dados e aos equipamentos que permanecerão em operação por longos períodos.
A proteção de chaves e integração da criptografia ao hardware será fundamental para preparar equipamentos industriais para a transição à era pós-quântica.
Por que isso importa para a criptografia?
A relação entre tecnologia quântica e criptografia é direta. Computadores quânticos suficientemente avançados poderão comprometer modelos criptográficos amplamente usados hoje, especialmente os baseados em RSA e curvas elípticas.
A questão ganha peso ainda maior quando se trata de equipamentos metrológicos e dispositivos conectados instalados em infraestruturas críticas, de medidores inteligentes a simples câmeras de segurança. São ativos com ciclos de vida longos, que permanecerão em campo por décadas e precisam ser protegidos desde já contra ameaças futuras. Por esse motivo, a criptografia pós-quântica deixou de ser um tema restrito a pesquisadores e passou a fazer parte da agenda de governos, bancos, empresas de tecnologia, infraestruturas críticas, provedores de identidade digital e organizações que dependem de sigilo, autenticação, presunção de autoria, integridade e proteção de chaves criptográficas.
O próprio NIST já havia dado um passo importante nessa direção ao publicar, em 2024, os primeiros padrões finais de criptografia pós-quântica: FIPS 203, baseado no ML-KEM; FIPS 204, baseado no ML-DSA; e FIPS 205, baseado no SLH-DSA.
Esses padrões foram desenhados para proteger troca de chaves e assinaturas digitais em um cenário no qual a computação quântica se torne uma ameaça prática aos algoritmos atuais.
A criação do QMEC amplia esse contexto. Ela mostra que a agenda quântica não está limitada ao desenvolvimento de novos algoritmos. Envolve também a fabricação dos sistemas físicos que poderão acelerar a chegada de sensores, redes, computadores e infraestruturas quânticas ao mercado.
Criptografia precisa sair do ambiente restrito dos especialistas
Para Marco Zanini, CEO da DINAMO Cyber Security Company, o avanço da tecnologia quântica para uma fase industrial reforça a necessidade de ampliar o entendimento sobre criptografia.

A DINAMO, reconhecida há mais de duas décadas por sua atuação em criptografia, maior fabricante brasileiro do Hardware Security Modules, conhecidos como HSMs, anunciou recentemente uma nova fase de expansão. A empresa passou a se posicionar como DINAMO Cyber Security Company, mantendo a criptografia como núcleo de sua atuação, mas ampliando o portfólio para PKI, identidade digital, prevenção a fraudes, proteção de dados e gestão de acessos privilegiados.
“O anúncio do NIST mostra que a tecnologia quântica está avançando para uma etapa industrial. Quando isso acontece, a criptografia também precisa deixar de ser tratada como um tema restrito aos engenheiros de criptografia. A era quântica exige que mais pessoas compreendam como essa ciência vai se comportar, como ela protege dados e identidades e como as organizações devem se preparar para uma transição segura”, afirma Zanini.
Segundo o executivo, o desafio pós-quântico não deve ser visto apenas como uma troca de algoritmos. Ele envolve governança, inventário de ativos criptográficos, proteção de chaves, criptoagilidade e capacidade de atualização segura dos sistemas.
“A questão não é simplesmente trocar um algoritmo por outro. As empresas precisam saber onde usam criptografia, quais chaves protegem quais ativos, qual é a vida útil dos dados protegidos e como atualizar seus sistemas sem comprometer a operação. Esse é um tema de governança, de continuidade de negócios e de confiança digital”, avalia Zanini.
O novo posicionamento da DINAMO dialoga com a era quântica
O movimento da DINAMO acompanha uma mudança mais ampla no mercado de cibersegurança. A proteção criptográfica continua sendo essencial, mas já não pode ser tratada de forma isolada. Chaves digitais, identidades, acessos, dados sensíveis, aplicações críticas e prevenção a fraudes passaram a fazer parte de uma mesma arquitetura de confiança.
Essa integração se torna ainda mais importante diante da computação quântica.
Adicionalmente a preparação para esse novo ambiente exige que organizações compreendam quais sistemas dependem de criptografia e quais infraestruturas deverão ser atualizadas para padrões resistentes a ataques quânticos.
“A criptografia continuará sendo o nosso DNA, mas os desafios dos clientes ficaram mais amplos. A proteção de chaves, identidades, dados e operações críticas precisa ser integrada. A era quântica torna essa visão ainda mais importante, porque a segurança do futuro será construída por quem conseguir unir ciência criptográfica, infraestrutura robusta e capacidade de adaptação”, afirma Zanini.
O novo centro apoiado pelo NIST sinaliza que a próxima etapa da tecnologia quântica será menos sobre promessas abstratas e mais sobre engenharia, fabricação, padronização e adoção.
Para a criptografia, a mensagem é clara: a era quântica exige que a proteção dos dados seja compreendida como tema estratégico, não apenas como detalhe técnico.
Glossário
NIST – National Institute of Standards and Technology, agência do Departamento de Comércio dos Estados Unidos responsável por padrões, medições e tecnologia.
QMEC – Quantum Manufacturing Engineering Center, centro criado para acelerar a fabricação de componentes e sistemas quânticos escaláveis.
Tecnologia quântica – Conjunto de tecnologias baseadas em fenômenos da mecânica quântica, com aplicações em computação, sensores, comunicações, medição e segurança.
Criostato -Equipamento usado para manter sistemas em temperaturas extremamente baixas, condição necessária para o funcionamento de determinadas tecnologias quânticas.
Criptografia pós-quântica – Conjunto de algoritmos criptográficos desenhados para resistir a ataques de computadores clássicos e de futuros computadores quânticos.
ML-KEM – Algoritmo padronizado pelo NIST no FIPS 203 para encapsulamento de chaves, usado na proteção da troca de chaves.
ML-DSA – Algoritmo padronizado pelo NIST no FIPS 204 para assinaturas digitais.
SLH-DSA – Algoritmo padronizado pelo NIST no FIPS 205 para assinaturas digitais baseadas em funções hash.
Criptoagilidade – Capacidade de uma organização trocar, atualizar ou combinar algoritmos criptográficos sem comprometer a operação dos sistemas.
HSM – Hardware Security Module, equipamento especializado para proteger, gerar e operar chaves criptográficas em ambiente seguro.
PKI – Public Key Infrastructure, ou infraestrutura de chaves públicas, conjunto de tecnologias, processos e autoridades que permite emitir, validar e gerenciar certificados digitais.
DLMS e OM-BR: como a criptografia fortalece a medição inteligente no Brasil, por Por José Carlos da Silva Neto, engenheiro, CTO da CERMOB.
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