Dinheiro em espécie volta por resiliência; agências estratégicas e ATMs inteligentes valorizam o atendimento pessoal
Um país onde só 5% das compras são pagas em dinheiro acaba de obrigar supermercados e farmácias a aceitá-lo. A lei sueca, em vigor desde julho de 2026, expõe o limite do 100% digital: sem alternativa física, ciberataques e apagões param a economia. E os ATMs inteligentes com identificação digital viram peça-chave
A lei que fez o país mais digital do mundo olhar para trás? Obrigar a aceitação de dinheiro, vale dizer, não é invenção sueca. O Brasil faz isso por lei desde 1941, como veremos adiante. A novidade não está na obrigação: está no motivo que levou um dos países mais digitalizados do mundo a criá-la agora.
Por Regina Tupinambá

A Suécia construiu nas últimas décadas a reputação de sociedade mais próxima do fim do dinheiro físico.
Foi o primeiro país europeu a adotar cédulas, no século XVII, e caminhava para ser o primeiro a abandoná-las. Em pesquisa do banco central sueco realizada em setembro do ano passado, apenas 5% dos entrevistados afirmaram ter pago a última compra em dinheiro. Pois foi exatamente esse país que decidiu recuar.
Desde 1º de julho de 2026, uma nova legislação obriga supermercados e farmácias a aceitarem pagamentos em dinheiro, com o objetivo de assegurar que os consumidores tenham alternativas em casos de falhas tecnológicas.
A norma tem escopo bem definido. Há exceções para locais sem atendentes e os estabelecimentos não são obrigados a aceitar mais de 25 moedas em uma única transação. Os mecanismos de fiscalização e as eventuais penalidades ainda não foram detalhados. O recado da lei, porém, é claro: se a tecnologia falhar, a população precisa ter uma alternativa segura.
O contexto que levou o governo sueco a essa decisão é conhecido de quem acompanha o noticiário de cibersegurança. Em 2021, um ataque cibernético paralisou cerca de 800 filiais de uma rede de supermercados que só aceitava pagamentos digitais. Desde então, a recomendação das autoridades é que cada adulto guarde cerca de mil coroas suecas em casa, o equivalente a pouco mais de R$ 500, para comprar comida ou medicamentos em caso de crise. A guerra na Europa, a ameaça de sabotagem de infraestruturas críticas e o risco de apagões energéticos completam o cenário que transformou o dinheiro em espécie em item de defesa civil.
Resiliência e perpetuidade: a leitura jurídica
Foi esse movimento que a advogada Patricia Peck, PhD e uma das maiores referências em Direito Digital no Brasil, destacou em publicação recente no LinkedIn
“Depois da população adotar a cultura dos meios de pagamentos digitais, incentivada pelo efeito pós pandemia, o aumento dos ataques cibernéticos, os efeitos climáticos da tempestade solar e o risco de apagão energético e digital, estão exigindo os Governos reverem esta estratégia, visando resiliência e perpetuidade”, escreveu a especialista.
A provocação que ela deixa aos leitores vale ser repetida: “se saírem do ar os aplicativos, o sistema de pagamentos e o Pix, como você passa o dia? “
A pergunta, que parecia hipotética até pouco tempo atrás, virou exercício obrigatório de gestão de riscos para governos, empresas e famílias.
Na prática, a lei sueca traduz em obrigação legal um princípio básico da segurança da informação: nenhuma infraestrutura vital pode depender de um único ponto de falha. Redundância deixou de ser conceito técnico de data center e passou a orientar políticas públicas sobre o próprio meio circulante.
Um movimento internacional, não um caso isolado

A Suécia não está sozinha.
Na Noruega, o Parlamento aprovou em junho de 2024 uma alteração legislativa que tornou mais preciso o direito do consumidor de pagar em dinheiro, em vigor desde 1º de outubro daquele ano: nos pontos de venda que atendem consumidores regularmente, deve ser oferecida a possibilidade de pagamento com o meio circulante legal.
A medida veio depois da chamada crise do dinheiro de 2022, quando terminais de cartão pararam de funcionar em todo o país e o governo passou a tratar o pagamento em espécie como questão de preparação para emergências.
O capítulo mais recente veio da Suíça.
Em referendo realizado em março deste ano, mais de 73% dos eleitores aprovaram a inclusão na Constituição da garantia de disponibilidade do dinheiro físico.
Com a mudança, o Estado suíço passa a ter a obrigação formal de assegurar que o numerário permaneça acessível, impedindo que o sistema monetário seja substituído exclusivamente por alternativas virtuais.
Três democracias avançadas, três instrumentos jurídicos diferentes, uma mesma conclusão: a digitalização total, sem camada física de contingência, é um risco que nenhum país quer correr.
Vale o registro: nenhum desses países está abandonando os pagamentos digitais, que seguem dominantes. O que está em curso é a construção deliberada de um plano B nacional.
Do caixa eletrônico à agência: a resposta brasileira
E há um detalhe que costuma passar despercebido nesse debate: dinheiro em espécie depende de um canal físico-digital para circular, o caixa eletrônico.
É nos ATMs que a população saca as cédulas que a lei sueca quer garantir, e é neles que o Brasil já mostra como esse canal pode ser, ao mesmo tempo, disponível e seguro.
O saque de dinheiro, que já foi um dos pontos mais vulneráveis do sistema bancário, tornou-se uma das operações mais protegidas.
Essa mesma lógica, a do canal físico potencializado por identificação digital, explica o movimento mais visível do varejo bancário brasileiro: a valorização das agências conceito nos grandes centros urbanos.
As redes de autoatendimento dos grandes bancos brasileiros operam hoje com camadas avançadas de identificação multifatorial, combinando biometria facial, cartão, senha e validação pelo aplicativo, o que dificulta sobremaneira a ação de fraudadores nesse canal de atendimento.
Bancos não estão abrindo novas agências.
O que mudou foi o papel atribuído a esse canal: depois de anos de aposta concentrada nos aplicativos, as maiores instituições financeiras do país voltaram a investir no atendimento presencial, principalmente nas grandes cidades, com espaços repaginados e voltados principalmente para contratos de financiamento, aplicações, crédito e seguros. São operações de maior valor e maior complexidade, nas quais o cliente quer olhar nos olhos de quem o atende. As pessoas querem falar com pessoas reais.
No interior do país, aliás, a agência bancária nunca deixou de ser um canal essencial. É por ela que boa parte da população em geral e dos produtores rurais acessa crédito, seguro e serviços financeiros no dia a dia, e não por acaso as cooperativas de crédito, fortemente presenciais, avançam a cada dia no setor do agronegócio. O que os grandes centros redescobrem agora, o Brasil rural sempre soube: para decisões financeiras relevantes, presença e relacionamento importam.

O Banco do Brasil é um exemplo emblemático desse reposicionamento. Conforme a notícia sobre o Banco do Brasil, o banco modernizou a conectividade de 93% de suas cerca de 5 mil agências com tecnologia SD-WAN (rede de longa distância definida por software), dentro da estratégia que chama de fígital, a integração entre os canais físicos e digitais.
O dado mais interessante é o aparente paradoxo: mais de 93% das transações do BB já ocorrem por canais digitais e, ainda assim, a instituição investe pesado na agência como espaço de relacionamento, consultoria financeira e resolução de demandas complexas. Como Marisa Reghini, vice-presidente de Negócios Digitais e Tecnologia do banco declarou,”a tecnologia passa a ser um facilitador do relacionamento”.
O movimento segue a inspiração das flagship branches de instituições internacionais como JPMorgan Chase, Capital One e DBS Bank, que transformaram unidades selecionadas em espaços de experiência e convivência.
A leitura conjunta desses dois fenômenos é o ponto central deste artigo
A volta do dinheiro em espécie na Europa e a revalorização do canal físico são expressões do mesmo aprendizado: o digital é o padrão, mas o físico é a resiliência.
Cédulas funcionam quando a rede cai. Agências funcionam quando a decisão é grande demais para caber em uma tela. Nos dois casos, o mundo físico deixou de ser passado para se tornar camada de contingência e de confiança.
O físico que volta é mediado por identificação digital
Há, porém, uma diferença fundamental entre o físico que saiu de cena e o físico que retorna.

Em entrevista ao ID Talk do Crypto ID, André Richter Reis, executivo da HID para a América Latina, avaliou que o retorno estratégico das agências físicas não representa um retrocesso digital, mas uma evolução da experiência híbrida, na qual biometria, autenticação multifatorial e integração entre canais se tornam essenciais.
Ou seja, a agência valorizada de hoje não é a agência de 2010.
Ela opera com biometria facial nos caixas eletrônicos, gestão centralizada de identidades e acessos, autenticação que acompanha o cliente do aplicativo ao atendimento presencial e segurança física e lógica integradas na mesma arquitetura. O mesmo vale para o dinheiro em espécie: sua distribuição depende de redes de caixas eletrônicos, transporte de valores e sistemas bancários que precisam, eles próprios, de proteção cibernética robusta. O físico e o digital não competem; um sustenta a disponibilidade do outro.
O que o Brasil pode aprender, e ensinar
No Brasil, a proteção ao dinheiro em espécie é antiga e robusta. O artigo 1º da Lei nº 9.069/1995, que instituiu o Plano Real, garante ao real curso legal em todo o território nacional. O Código Civil (Lei nº 10.406/2002) determina, em seu artigo 315, que as dívidas em dinheiro sejam pagas em moeda corrente e pelo valor nominal.
E a Lei das Contravenções Penais (Decreto-Lei nº 3.688/1941) vai além: seu artigo 43 tipifica como infração penal recusar moeda de curso legal pelo seu valor.
Eis o ciclo que este artigo abriu e agora fecha: a obrigação de aceitar dinheiro existe no Brasil há 85 anos, mas nasceu para proteger o valor da moeda. As leis de 2026 nascem para proteger a sua disponibilidade.
Na Europa, a motivação deixou de ser monetária para se tornar uma questão de segurança nacional. O debate que a lei sueca inaugura, portanto, vai além da obrigação de aceitar cédulas: trata da resiliência do sistema de pagamentos como política de Estado.
E aqui o Brasil tem tanto a aprender quanto a ensinar. Somos o país do Pix, um dos sistemas de pagamento instantâneo mais bem-sucedidos do mundo, e exatamente por isso somos também um dos países mais dependentes da disponibilidade contínua de infraestrutura digital. Ao mesmo tempo, mostramos ao mundo como proteger o canal físico com identificação digital avançada, dos ATMs multifatoriais às agências integradas aos aplicativos.
A projeção é clara. À medida que ciberataques a infraestruturas críticas se intensificam e eventos climáticos extremos ameaçam redes de energia e telecomunicações, cresce a pressão para que reguladores de todo o mundo, incluindo o Banco Central do Brasil, tratem a redundância dos meios de pagamento e a continuidade do atendimento como requisitos de estabilidade financeira.
A Suécia transformou essa preocupação em lei. A Suíça a colocou na Constituição. Os bancos brasileiros, à sua maneira, já responderam: voltaram a valorizar o atendimento humano e modernizaram suas redes de caixas eletrônicos com tecnologias avançadas de identificação antifraude.
O futuro dos pagamentos e do atendimento financeiro não será apenas digital nem voltará a ser apenas físico: será redundante, híbrido e, acima de tudo, resiliente.

REGINA TUPINAMBÁ | CCO – Chief Content Officer – Crypto ID. Publicitária formada pela PUC Rio. Como publicitária atuou em empresas nacionais e internacionais atendendo marcas de grande renome entre elas Coca-Cola, Grupo L’Oréal, Nestlé, McDonald’s, Exxon, General Motors, Petrobras, Banco do Brasil, CAIXA e Ambev, participando da definição e implementação de estratégias de posicionamento, comunicação e construção de marca. Em 1999, migrou sua atuação para empresas do universo de segurança digital onde passou ser a principal executiva das áreas comercial e marketing em uma Autoridade Certificadora Brasileira. Acompanhou a criação da AC Raiz da ICP-Brasil e participou diretamente da implementação e homologação de inúmeras Autoridades Certificadoras. Foi, também, responsável pelo desenvolvimento do mercado de SSL no Brasil. É CEO da Insania Publicidade e como CCO do Portal Crypto ID dirige a área de conteúdo do Portal desde 2014. Acesse seu LinkedIn.
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