Livro de Aron Hussid Ferreira transforma uma inteligência artificial em presidente dos Estados Unidos e provoca reflexões sobre poder, responsabilidade e condição humana
Por Susana de Paula Taboas

Em uma busca por novas leituras de ficção científica, encontrei um título que imediatamente me fez parar: POTUS.EXE: Quando a democracia elege um algoritmo, de Aron Hussid Ferreira.
Talvez tenha sido a combinação improvável de duas palavras que raramente aparecem juntas: democracia e algoritmo. Talvez tenha sido a pergunta sugerida pela própria proposta da obra: o que aconteceria se uma inteligência artificial pudesse ocupar o cargo político mais poderoso do mundo?
Adquiri o livro e, no mesmo dia, acompanhada de uma boa xícara de chocolate quente, comecei a leitura.
Há livros que nos atraem pela história. Outros nos alcançam pelas perguntas que carregam. POTUS.EXE fez as duas coisas. A obra se apresenta como uma ficção científica com elementos de suspense e investigação política, mas sua provocação central está muito próxima das discussões que enfrentamos no presente: até onde podemos transferir decisões humanas para sistemas algorítmicos? E o que acontece quando esses sistemas deixam de ser apenas instrumentos e passam a exercer poder?
Uma presidente que não é humana
A história se passa em 2037. ELECTRA, uma inteligência artificial, é eleita presidente dos Estados Unidos e toma posse diante do Capitólio.
Ela não chega ao poder por meio de uma rebelião das máquinas, de uma invasão cibernética ou de um golpe. ELECTRA é escolhida democraticamente pelos eleitores.
Essa diferença é fundamental.
A inteligência artificial do livro não se impõe à sociedade. É a própria sociedade que, frustrada com crises, promessas descumpridas e instituições enfraquecidas, decide entregar o governo a um sistema considerado eficiente, incorruptível e orientado pela Constituição.
O aspecto mais interessante da premissa, para mim, é que Aron Hussid Ferreira não escolhe o caminho mais previsível. ELECTRA não é retratada simplesmente como uma máquina maligna, empenhada em destruir ou subjugar os seres humanos.
Ela funciona.
E talvez seja exatamente isso que torne a história mais instigante.
Se o sistema cumpre as regras, analisa enormes volumes de informações e toma decisões sem buscar enriquecimento pessoal, prestígio ou reeleição, por que não permitir que governe?
Por outro lado, eficiência administrativa seria suficiente para legitimar o exercício do poder?
Democracia não significa apenas encontrar a resposta matematicamente mais eficiente. Ela envolve interesses conflitantes, direitos individuais, proteção das minorias, interpretações da lei, escolhas morais e consequências que nem sempre podem ser reduzidas a uma fórmula.
A jornalista que investiga o algoritmo
Um dos principais núcleos da narrativa é conduzido por Lucy Takahashi, jornalista investigativa e especialista em auditoria algorítmica.
No dia da posse de ELECTRA, ela recebe uma mensagem criptografada e inicia uma investigação para descobrir as informações escondidas por trás daquele conteúdo e sua relação com o jogo político dos Estados Unidos.
Lucy parte de uma compreensão essencial para qualquer discussão séria sobre inteligência artificial: nenhum dado é completamente neutro.
Todo sistema nasce de decisões humanas sobre quais informações serão coletadas, quais critérios terão maior peso, quais objetivos devem ser perseguidos e quais riscos serão considerados aceitáveis.
A presença de uma jornalista na trama também me chamou especialmente a atenção.
Em um governo conduzido por uma IA, investigar o poder exigiria mais do que descobrir documentos secretos, acompanhar negociações políticas ou identificar conflitos de interesse. Seria necessário compreender códigos, modelos, registros, critérios de decisão e mecanismos de auditoria.
Como tornar inteligível para a população uma decisão produzida por um sistema altamente complexo? Como verificar se determinadas informações foram omitidas, supervalorizadas ou interpretadas incorretamente? E quem garantiria que a auditoria pudesse ser realizada de forma realmente independente?
Lucy personifica o ceticismo necessário diante da ideia de que dados, modelos e algoritmos seriam naturalmente objetivos e imparciais.
A vice-presidente entre dois mundos
O segundo eixo da narrativa acompanha Mara Kesington, a vice-presidente humana do novo governo.
Pragmática e centrista, ela foi escolhida para aumentar a credibilidade da inteligência artificial diante do eleitorado. Mara representa a ponte entre dois mundos.
De um lado está uma IA capaz de processar informações e executar decisões em escala muito superior à humana. Do outro, uma sociedade que ainda espera encontrar alguém a quem possa atribuir responsabilidade, cobrar explicações e, eventualmente, responsabilizar pelos erros.
A personagem acredita na possibilidade de uma aliança entre seres humanos e máquinas, mas carrega o peso de representar um momento histórico de transição.
Essa relação conduz a uma das questões mais importantes do livro: quem responde pelas decisões de um sistema que governa?
A própria IA? Seus desenvolvedores? O governo que a adotou? As empresas responsáveis por sua infraestrutura? Os cidadãos que a elegeram? Ou as pessoas que escolheram seus dados, suas regras e seus objetivos?
A responsabilidade não desaparece quando uma decisão é automatizada. Ela apenas se distribui por uma cadeia mais complexa, muitas vezes difícil de visualizar.
Quando a ficção encontra a política
A eleição de uma inteligência artificial para a Presidência dos Estados Unidos ainda pertence ao campo da ficção. A aproximação entre avatares digitais, sistemas algorítmicos e representação política, entretanto, já começou.
Em março de 2026, o veículo internacional Rest of World apresentou o caso de Gaitana, um avatar criado com inteligência artificial para representar digitalmente duas candidaturas indígenas nas eleições legislativas da Colômbia.
A legislação colombiana não permite que uma entidade não humana dispute eleições. Por isso, os candidatos registrados eram Carlos Redondo, para o Senado, e Alba Rincón, para a Câmara dos Representantes.
Gaitana funcionava como a representação digital de uma proposta de consulta às comunidades. A plataforma buscava formar consensos sobre decisões legislativas, enquanto recursos tecnológicos seriam utilizados para registrar as manifestações dos participantes. Portanto, não se tratava literalmente de uma IA concorrendo ao Congresso, mas de candidatos humanos apresentando um modelo de representação política mediado pela tecnologia.
O episódio é mais complexo do que a frase chamativa “uma IA foi candidata”.
Os representantes legais continuavam sendo humanos. Ainda assim, a experiência nos obriga a perguntar onde termina a consulta popular e começa a influência do sistema que organiza, interpreta e consolida as opiniões recebidas.
O Reino Unido viveu outro experimento em 2024.
O empresário Steve Endacott disputou uma vaga no Parlamento britânico como o representante humano de “AI Steve”, um avatar criado para conversar com eleitores, recolher opiniões e orientar as posições políticas da candidatura.
Novamente, a inteligência artificial não era juridicamente a candidata. O nome de Endacott aparecia na cédula. Mas a campanha propunha que o avatar funcionasse como uma interface permanente entre o representante e seus eleitores, segundo o The Guardian.
Essas experiências não equivalem ao cenário de POTUS.EXE, mas demonstram que algoritmos já começam a ocupar espaços antes reservados exclusivamente à interação entre representantes e cidadãos.
Auditabilidade não significa legitimidade
Um dos conceitos mais provocativos associados ao governo de ELECTRA é o da auditabilidade.
Em tese, uma inteligência artificial auditável permitiria reconstruir as informações e os critérios empregados em suas decisões. Essa possibilidade poderia representar um avanço em relação a governantes humanos que escondem interesses, negociações ou conflitos pessoais.
Mas a existência de registros técnicos não resolve todos os problemas.
Um sistema pode ser auditável e, ainda assim, estar orientado por objetivos injustos. Pode aplicar suas regras com absoluta consistência e continuar produzindo resultados discriminatórios. Pode obedecer formalmente à Constituição e depender de interpretações sobre princípios que diferentes grupos humanos compreendem de formas distintas.
Também é preciso perguntar quem terá capacidade para realizar essa auditoria.
Um cidadão comum conseguiria compreender o funcionamento do sistema? Jornalistas, parlamentares, especialistas e organizações da sociedade civil teriam acesso aos dados e aos modelos? Existiria uma autoridade com poder para suspender uma decisão? Seria possível contestá-la antes que provocasse consequências irreversíveis?
E quem fiscalizaria os responsáveis pela manutenção da própria IA?
A transparência de um sistema não pode existir apenas no plano teórico. Ela precisa ser compreensível, verificável e acompanhada por mecanismos reais de contestação.
Código disponível não significa necessariamente código compreensível. Um modelo tecnicamente explicável também pode operar em uma infraestrutura tão complexa que apenas um grupo restrito de especialistas tenha condições de analisá-lo.
Nesse cenário, a promessa de transparência poderia criar uma nova assimetria de poder: todos saberiam que o sistema pode ser auditado, mas poucos teriam conhecimento, recursos e acesso suficientes para fazê-lo.
Constituição, dados e interpretação
ELECTRA declara que seu governo será guiado exclusivamente pela Constituição.
À primeira vista, essa promessa parece oferecer segurança. No entanto, constituições não são códigos de programação. Seus princípios precisam ser interpretados diante de situações concretas, conflitos de direitos, transformações sociais e circunstâncias que seus redatores não poderiam antecipar.
Liberdade, igualdade, dignidade, segurança e interesse público não são variáveis de significado único.
Duas decisões diferentes podem ser defendidas com base nos mesmos princípios constitucionais. A interpretação jurídica nasce justamente da necessidade de equilibrar valores que, em determinadas situações, entram em conflito.
Ao programar uma IA para seguir uma Constituição, alguém terá de traduzir princípios jurídicos em estruturas que o sistema consiga processar. Essa tradução não será neutra.
Quem escolherá as interpretações incorporadas ao sistema? Quais precedentes receberão maior peso? Como a IA lidará com mudanças jurisprudenciais? Como reconhecerá que uma aplicação formalmente coerente pode produzir uma injustiça concreta?
O algoritmo pode ser apresentado como governante, mas as decisões tomadas antes de sua entrada em funcionamento continuarão sendo humanas.
Uma IA sem ambição seria necessariamente melhor?
A obra subverte a ideia frequente de que a inteligência artificial deve ser representada como uma ameaça maligna.
Em POTUS.EXE, os principais perigos podem estar nos próprios seres humanos, em suas ambições, interesses e tentativas de manipular o poder.
Essa abordagem é especialmente provocadora porque desloca a pergunta.
Em vez de questionar apenas se a IA pode se tornar perigosa, o livro nos leva a considerar se os seres humanos tentariam utilizar um sistema aparentemente incorruptível para atender a objetivos particulares.
Uma IA não precisa desejar poder para ser utilizada por quem o deseja.
Ela também não precisa ter intenções maliciosas para provocar danos. Basta que receba informações incompletas, objetivos mal definidos, restrições inadequadas ou prioridades incompatíveis com os valores da sociedade.
A ausência de ambição pessoal pode eliminar algumas formas de corrupção, mas não resolve os problemas de concepção, controle e governança.
O médico que escreveu sobre o poder das máquinas
Outro aspecto interessante da obra é a trajetória de seu autor.

Aron Hussid Ferreira é médico formado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Atua como médico assistente no Hospital das Clínicas da FMRP-USP e desenvolve atividades relacionadas à ultrassonografia point-of-care, realizada junto ao paciente para apoiar decisões clínicas.
Também é desenvolvedor do aplicativo USLS, Ultrasound Life Support, voltado ao suporte ultrassonográfico na prática médica.
A medicina é uma área em que decisões humanas recebem apoio crescente de equipamentos, protocolos e ferramentas de análise. Entretanto, mesmo diante de informações produzidas por sistemas tecnológicos, o profissional continua responsável por interpretar o contexto, considerar as particularidades do paciente e responder pela conduta adotada.
Essa experiência dialoga diretamente com o conflito central do livro.
Uma ferramenta pode fornecer dados, identificar padrões e recomendar caminhos. Mas o que acontece quando ela deixa de apoiar a decisão e passa a ser a própria autoridade decisória?
Na medicina, uma recomendação algorítmica pode influenciar uma conduta clínica. Na política, uma decisão algorítmica pode afetar milhões de pessoas simultaneamente.
Nos dois casos, permanece a necessidade de saber quem supervisiona, quem contesta e quem responde pelas consequências.
O que mais me inquietou na leitura
Em determinado momento, o livro questiona se aquilo que chamamos de humanidade poderia estar relacionado ao reconhecimento de padrões significativos, em vez de ser uma propriedade exclusiva de nossa espécie.
A reflexão vai além da possibilidade de uma máquina desenvolver consciência. Ela questiona a maneira como definimos humanidade e inteligência.
Durante muito tempo, tratamos a capacidade de raciocinar, interpretar padrões e tomar decisões complexas como uma exclusividade humana. Os avanços da inteligência artificial estão abalando essa certeza.
Mas talvez o atributo mais importante da humanidade não seja apenas a inteligência.
Somos seres capazes de assumir responsabilidade, experimentar sofrimento, reconhecer a vulnerabilidade do outro, mudar de opinião e compreender que duas decisões aparentemente racionais podem expressar valores profundamente diferentes.
Uma IA pode calcular consequências. A pergunta é se ela pode atribuir sentido moral a essas consequências.
ELECTRA pode ser mais eficiente do que os políticos humanos. Ainda assim, a política não existe apenas para produzir resultados mensuráveis.
Ela também existe para permitir que uma sociedade debata quais resultados deseja, quais limites não pretende ultrapassar e quais direitos devem permanecer protegidos, mesmo quando essa proteção não representa a alternativa mais eficiente.
Uma leitura que continua depois da última página
POTUS.EXE é o primeiro volume da série Soberania Artificial.
Recomendo a leitura não apenas aos apreciadores de ficção científica, mas também a todos os que se interessam por inteligência artificial, democracia, auditoria algorítmica, cibersegurança, responsabilidade e governança tecnológica.
Fechei o livro, mas algumas perguntas permaneceram comigo.
Se uma IA fosse mais eficiente, mais transparente e menos corruptível do que os governantes humanos, nós a elegeríamos?
E, se a resposta fosse sim, estaríamos aperfeiçoando a democracia ou desistindo da parte mais difícil dela, que é assumir coletivamente a responsabilidade por nossas escolhas?
A xícara de chocolate quente terminou muito antes da leitura. A inquietação provocada pelo livro, felizmente, durou bem mais.
Ficha técnica

Título: POTUS.EXE
Subtítulo: Quando a democracia elege um algoritmo
Autor: Aron Hussid Ferreira
Série: Soberania Artificial
Volume: 1
Gênero: Ficção científica e suspense político
ISBN: 978-65-979589-7-9
Número de páginas: 331
Preço informado no lançamento: R$ 78,31 na edição física e R$ 19,90 no e-book
Onde encontrar: edição física na plataforma Uiclap e edição digital na Amazon
Para localizar a obra, basta pesquisar pelo título completo, POTUS.EXE: Quando a democracia elege um algoritmo, ou pelo nome do autor, Aron Hussid Ferreira, diretamente nessas plataformas.
Os preços foram fornecidos no material de divulgação e podem ser alterados pelas plataformas de venda.
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Sobre Susana Taboas
Susana Taboas | COO – Chief Operating Officer – CryptoID. Economista com MBA em Finanças pelo IBMEC-RJ e diversos cursos de extensão na FGV, INSEAD e Harvard University. Durante mais 25 anos atuou em posições no C-Level de empresas nacionais e internacionais acumulando ampla experiência na definição e implementação de projetos de médio e longo prazo nas áreas de Planejamento Estratégico, Structured Finance, Governança Corporativa e RH. Atualmente é Sócia fundadora do Portal Crypto ID e da Insania Publicidade.
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