Enquanto o país atravessa a fase de transição da Reforma Tributária, pequenas e médias empresas brasileiras precisam lidar, ao mesmo tempo, com regras fiscais em movimento e pagamentos internacionais pouco previsíveis, um duplo desafio que a indústria financeira ainda não enfrentou de frente.
Por Susana Taboas
As pequenas e médias empresas brasileiras enfrentam um dilema que vai além da operação do dia a dia. Nos últimos meses, enquanto lidam com sucessivas alterações nas regras tributárias, Pix, importação de serviços digitais, ajustes em alíquotas, compliance e, agora, a implantação do novo modelo de IBS e CBS, essas empresas precisam, simultaneamente, garantir que seus pagamentos internacionais cheguem seguros, previsíveis e transparentes. Não é coincidência. É estrutural.

Uma pesquisa recente da Mastercard em parceria com a FXC Intelligence, realizada em mercados da América Latina, revela que 9 em cada 10 pequenas e médias empresas considerariam trocar de provedor de pagamentos cross-border se pudessem. Isso não é descontentamento genérico, é o sintoma de um problema bem específico: a falta de previsibilidade operacional.

“Os pagamentos cross-border já não são apenas uma transação. São um momento decisivo na relação com o cliente”, afirmou Walter Pimenta, vice-presidente executivo de Pagamentos Comerciais e Novos Fluxos de Pagamento para a Mastercard América Latina e Caribe. “Esta nova pesquisa envia um sinal claro para bancos e provedores. Quando as PMEs não podem contar com previsibilidade e visibilidade, começam a redirecionar seus fluxos de pagamento. Quando essa mudança começa, ela pode se estender para além dos pagamentos e alcançar a relação bancária mais ampla”.
Mas, no Brasil, isso não é novidade: a insegurança jurídica e a falta de previsibilidade são constantes. Somado a esse contexto, o problema atual ganha uma camada extra de complexidade à medida que as regras tributárias mudam mês a mês.
O Cenário Tributário Brasileiro: Incerteza em Cascata
Quando uma empresa brasileira importa componentes, contrata serviços de software internacionais ou remunera fornecedores no exterior, ela enfrenta não uma, mas várias incógnitas simultâneas:
- Quanto custará o pagamento em taxas (markup cambial, tarifas, spreads)?
- Quando exatamente o dinheiro chegará ao beneficiário?
- Como essas transações serão tratadas para fins de imposto de renda, PIS e COFINS e, cada vez mais, para os novos tributos da reforma?
- Qual é a documentação comprobatória que a Receita aceitará?
- Há retenção exigida? Se sim, quanto?
Essa “cascata de incerteza” não é meramente operacional, é financeira e legal. Uma empresa que não consegue prever nem o timing nem a alíquota efetiva de seus pagamentos internacionais enfrenta risco real de saldo negativo, multas por documentação incorreta ou bloqueios cambiais inesperados.
A pesquisa com PMEs nos países: México, Brasil e Colômbia identificou que cada pagamento transfronteiriço típico exige várias etapas manuais e coordenação interna entre áreas diferentes da empresa.
No Brasil, essas etapas aumentam porque exigem não apenas a execução do pagamento, mas também validação tributária, conferência de enquadramento fiscal, retenção na fonte, documentação SISCOMEX para importação de bens.
A Reforma Tributária Torna a Incerteza Ainda Mais Concreta
Se antes a instabilidade fiscal brasileira já era um fator de fricção, 2026 trouxe um elemento novo e muito específico: a fase de testes da Reforma Tributária sobre o consumo.
Desde 1º de janeiro de 2026, empresas já emitentes de documentos fiscais destacam o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) em suas notas fiscais, ainda que de forma simbólica, 0,9% de CBS e 0,1% de IBS, como etapa preparatória para a substituição de PIS, COFINS, ICMS, ISS e IPI pelo novo modelo.
Para uma PME que já convive com a complexidade dos pagamentos internacionais, esse cronograma acrescenta uma camada concreta de decisões urgentes. Em setembro de 2026, empresas optantes pelo Simples Nacional precisam formalizar no portal do próprio regime se pretendem adotar a apuração regular do IBS e da CBS a partir de 2027, decisão que afeta diretamente como contratos com fornecedores estrangeiros, licenças de software e serviços de nuvem importados serão tributados dali em diante, com um agravante as alíquotas do IBS e CBS ainda não foram divulgadas. As alíquotas somente serão divulgadas em novembro de 2026, ou seja, as empresas optam por algo que não conhecem.
Em 2027, PIS e COFINS são extintos e a CBS passa a valer com alíquota cheia, próxima de 8,8%; o IBS, por sua vez, tem implementação escalonada entre 2029 e 2033, período em que o sistema antigo e o novo vão conviver, ou seja: não é mais uma questão hipotética de “a alíquota pode subir ou descer“.
Este é um calendário real, com prazos de opção, mudança de créditos tributários e coexistência de dois sistemas fiscais por quase uma década. Para uma empresa que também precisa lidar com prazos, tarifas e documentação de um pagamento internacional, cada novo marco da reforma é mais uma variável que se soma a uma equação já complexa, e que torna a escolha do provedor de pagamentos ainda mais estratégica.
Fricção Operacional se Transforma em Risco Tributário
A mesma pesquisa da Mastercard e da FXC Intelligence revelou algo crítico: aproximadamente 1 em cada 9 pagamentos exige investigação, correção ou acompanhamento adicional, uma taxa de exceção de 11%.
Mas qual é a consequência dessa exceção em um contexto tributário instável?
Se uma empresa erra o enquadramento fiscal de um pagamento internacional, porque a regra mudou, porque a documentação foi rejeitada, porque houve divergência entre a Receita Federal e o banco, essa “exceção operacional” vira “risco tributário”. As transações problemáticas consomem até 3,5 horas de trabalho da equipe, conforme aponta o estudo.
No Brasil, essas horas não são apenas custosas: podem resultar em multas se a documentação não for retificada no prazo, ainda que a fase atual de transição da reforma preveja dispensa de penalidades para erros cometidos de boa-fé durante a adaptação aos novos sistemas.
A incerteza identificada pela pesquisa, sobre quando o pagamento chegará, quanto será recebido e quais deduções serão aplicadas, é especialmente paralisante quando as próprias regras tributárias estão em fluxo.
Uma empresa que não sabe exatamente como um serviço de tecnologia importado será tributado no novo modelo não consegue precificar seu produto com segurança, tampouco fazer um orçamento confiável para seus próprios clientes.
A Fragmentação Bancária Como Sintoma
A pesquisa mostra que as PMEs latino-americanas estão distribuindo pagamentos entre múltiplos provedores, alocando fluxos com base em confiabilidade e testando alternativas corredor por corredor. Isso é racional, é uma forma de hedge contra a incerteza. Mas no Brasil, isso tem uma implicação adicional.

“Os pagamentos cross-border são o ponto em que muitas relações bancárias com PMEs começam a se fragmentar”, afirmou Daniel Webber, CEO da FXC Intelligence. “Quando os pagamentos são lentos, pouco transparentes ou difíceis de resolver, as empresas não esperam que o sistema melhore. Elas começam a mover seus fluxos para provedores que oferecem maior certeza”.
Quando uma empresa distribui seus fluxos de pagamento entre três ou quatro provedores diferentes (banco principal, fintech de pagamentos, plataforma de remessa, corretora de câmbio), ela também multiplica os pontos de interação com a Receita Federal. Cada provedor tem um relacionamento diferente com as autoridades, interpretações distintas de compliance e critérios próprios de retenção. Isso não reduz risco, mas amplifica.
Aqui está o ponto que a indústria financeira ainda não incorporou plenamente: a fragmentação bancária que observamos não é apenas busca por melhores taxas. É fuga da incerteza estrutural. E quando a incerteza é tributária, fragmentar a relação com um único provedor pode ser miopia, seria mais seguro concentrar operações em um parceiro que ofereça clareza total, inclusive sobre as implicações fiscais de cada transação.
Tecnologia e Sistemas de Gestão Como Redutores de Risco
Nesse cenário, a tecnologia deixa de ser um diferencial competitivo e passa a ser condição básica de sobrevivência. Empresas que ainda dependem de planilhas soltas, conciliações manuais e comunicação fragmentada entre o financeiro, o contábil e o time responsável pelos pagamentos internacionais estão, na prática, operando às cegas em um ambiente que já é complexo por natureza.
Sistemas de gestão bem estruturados, ERPs integrados, plataformas de conciliação automática e ferramentas que cruzam dados fiscais com dados de câmbio em tempo real, permitem simular o impacto tributário de um pagamento antes mesmo de executá-lo, sinalizar inconsistências documentais antes que virem passivo e manter um histórico auditável que facilita qualquer questionamento futuro da Receita.
Mais do que reduzir custo operacional, essa infraestrutura tecnológica é o que transforma a incerteza em algo administrável: ela não elimina a complexidade da Reforma Tributária ou da volatilidade cambial, mas dá à empresa visibilidade suficiente para tomar decisões com antecedência, em vez de reagir a problemas depois que eles já se tornaram risco fiscal.
O Que as Empresas Podem Fazer Agora
Diante desse cenário duplo — reforma tributária em curso e pagamentos internacionais pouco previsíveis —, algumas medidas práticas ajudam a reduzir a exposição:
- Mapear contratos internacionais recorrentes (licenças de software, nuvem, consultorias) e verificar como cada um será impactado pela transição de PIS/COFINS para CBS e, mais adiante, pelo IBS.
- Definir com antecedência o regime de apuração, quando aplicável ao Simples Nacional, evitando decisões de última hora dentro da janela formal de opção.
- Concentrar, sempre que possível, os pagamentos internacionais em um número menor de provedores, priorizando aqueles capazes de comprovar enquadramento fiscal correto e emitir documentação aceita de primeira pela Receita.
- Exigir simulações de custo total (câmbio, tarifas e carga tributária estimada) antes de fechar um pagamento relevante, e não apenas a cotação do dia.
- Investir em sistemas de gestão integrados que conectem financeiro, fiscal e câmbio em uma única fonte de dados confiável.
- Acompanhar o calendário oficial da reforma junto ao setor contábil, tratando cada novo marco (testes, extinção de tributos, prazos de opção) como um evento de risco a ser gerenciado, não como uma notícia de fundo.
O Cenário Futuro: Previsibilidade Como Diferencial
Movimentações de até 1% nos fluxos de pagamentos cross-border na região representariam cerca de US$ 230 milhões em receitas anuais em disputa entre bancos e fintechs.
No Brasil, esse número tende a ser ainda maior se considerarmos que 70% dos volumes de pagamento das empresas entrevistadas estão, segundo o estudo, em aberto para migração de sistema.
Mas essas migrações não vão acontecer apenas porque uma instituição ofereça uma taxa mais barata. Vão acontecer porque alguém oferecer previsibilidade completa: tarifas transparentes, prazos garantidos e, de forma crítica, especialmente agora, alinhamento com as regras tributárias brasileiras, inclusive com a forma como elas estão mudando ano a ano até 2033.
As instituições financeiras que entenderem que pagamentos cross-border não são transações isoladas, mas parte de um ambiente fiscal muito mais amplo, terão vantagem competitiva real. Isso significa:
- Prover documentação que a Receita aceite de primeira;
- Oferecer análise de impacto tributário antes da execução do pagamento;
- Garantir certeza sobre retenções e alíquotas, inclusive durante a transição para IBS e CBS;
- Manter relacionamento estável mesmo quando as regras tributárias mudam.
Integração Tributária Como Fator de Retenção
A fragmentação das contas empresariais é a consequência direta do descompasso entre o que os bancos oferecem e o que as PMEs brasileiras realmente precisam.
Historicamente, uma empresa mantinha seu relacionamento financeiro concentrado em uma única instituição por conveniência, mas hoje passa a dividir seus fluxos de pagamentos internacionais com fintechs e corretoras para fugir da falta de previsibilidade e do alto custo das despesas bancárias.
No entanto, o que parece ser uma solução para economizar taxas cria um problema ainda maior quando esses fluxos operacionais colidem com as exigências fiscais do país.
No Brasil, as alterações tributárias são contínuas, e em 2026 elas ganharam um cronograma formal, com prazos e etapas que se estendem até 2033, o compliance é rigoroso, e a Receita Federal interpreta regras com critério que varia. Para uma empresa, isso significa que previsibilidade nos pagamentos cross-border não é luxo, é pré-requisito para operar.
As instituições que oferecerem aos seus clientes essa previsibilidade, tanto cambial quanto tributária, não vão ganhar apenas transações. Vão ganhar negócios e vantagem competitiva perante seus concorrentes.
Sobre Susana Taboas

Susana Taboas | COO – Chief Operating Officer – CryptoID. Economista com MBA em Finanças pelo IBMEC-RJ e diversos cursos de extensão na FGV, INSEAD e Harvard University. Durante mais 25 anos atuou em posições no C-Level de empresas nacionais e internacionais acumulando ampla experiência na definição e implementação de projetos de médio e longo prazo nas áreas de Planejamento Estratégico, Structured Finance, Governança Corporativa e RH. Atualmente é Sócia fundadora do Portal Crypto ID e da Insania Publicidade.
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