Parceria entre Febraban, Zetta, Abrid e MGI busca usar a Carteira de Identidade Nacional para tornar a identificação de clientes mais segura e integrada
A Carteira de Identidade Nacional (CIN) avança para além de sua função como documento de identificação do cidadão e começa a ganhar uma posição estratégica também na infraestrutura de segurança do sistema financeiro brasileiro.
Com 55,8 milhões de brasileiros já identificados pelo novo documento até 12 de junho de 2026, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), a CIN amplia sua escala ao mesmo tempo em que bancos, empresas de tecnologia e governo trabalham para utilizar sua infraestrutura como uma nova camada de confiança nos processos de identificação.
Para a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), a CIN pode se tornar um instrumento importante para reduzir fraudes de identidade e aprimorar a identificação dos clientes, especialmente em processos como abertura de contas e contratação de produtos e serviços financeiros.
A discussão ganha importância diante da sofisticação das fraudes digitais. Já não se trata apenas de identificar documentos falsificados. Bancos precisam enfrentar identidades sintéticas, uso indevido de dados pessoais, manipulação de imagens, engenharia social e diferentes tentativas de uma pessoa se apresentar digitalmente como outra.
Nesse cenário, quanto mais confiável for a origem dos dados utilizados para comprovar uma identidade, maiores serão as possibilidades de detectar inconsistências antes que elas resultem em uma fraude.
Uma parceria que começou em 2025 e agora ganha escala
A aproximação entre o sistema financeiro e a infraestrutura da CIN não começou agora.
Em setembro de 2025, o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) assinou um acordo de cooperação técnica com a Febraban, a Zetta e a Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia em Identificação Digital (Abrid) para avançar no desenvolvimento da Infraestrutura Pública Digital de Identificação Civil (IPD/IC).
O Crypto ID acompanhou o anúncio desde sua origem e publicou, na ocasião, os objetivos da cooperação entre governo e setor privado. Leia no Crypto ID: MGI assina acordo para fortalecer a Infraestrutura Pública Digital
O acordo tem como um de seus objetivos realizar testes de serviços para conferência de dados biográficos e biométricos, utilizando a estrutura da CIN e a identificação digital do GOV.BR. A vigência inicial definida foi de 12 meses, com possibilidade de prorrogação.
Portanto, o avanço da CIN coloca aquela cooperação iniciada em 2025 diante de uma nova realidade: dezenas de milhões de brasileiros já possuem a nova identidade e a infraestrutura começa a ganhar massa crítica para aplicações em grande escala.
Por que a CIN muda a lógica da identificação
Uma das mudanças estruturais trazidas pela Carteira de Identidade Nacional está na adoção do CPF como número único de identificação.
No modelo anterior, um cidadão poderia possuir diferentes números de RG emitidos por diferentes estados. A CIN estabelece uma referência nacional única, reduzindo inconsistências e duplicidades cadastrais.
Mas a evolução não está apenas no número impresso no documento.
A CIN integra uma infraestrutura de identificação baseada em dados oficiais e mecanismos de segurança que permitem verificar sua autenticidade. O documento conta, por exemplo, com QR Code para conferência, além da utilização de dados biométricos nos processos que sustentam a identificação civil.
É justamente essa combinação entre documento, bases oficiais, biometria e capacidade de verificação eletrônica que interessa ao sistema financeiro.
Em vez de depender exclusivamente da apresentação ou da imagem de um documento, torna-se possível avançar para modelos nos quais os dados apresentados pelo cliente possam ser confrontados com fontes oficiais de identidade.
Identidade mais confiável pode elevar o custo da fraude
Para os bancos, um dos principais impactos potenciais está no chamado onboarding, processo de identificação e cadastramento do cliente na abertura de uma conta ou contratação de um serviço.
Fraudes de identidade frequentemente dependem de uma combinação de informações verdadeiras e falsas. Dados pessoais obtidos em vazamentos podem ser associados a documentos manipulados, fotografias de terceiros ou outras técnicas destinadas a convencer os sistemas de que determinada pessoa é quem afirma ser.
Uma infraestrutura capaz de conferir informações biográficas e biométricas em fontes oficiais adiciona uma nova camada a esse processo.
Isso não significa que a CIN, isoladamente, elimine fraudes bancárias.
Os mecanismos antifraude continuarão dependendo de diferentes tecnologias e controles, como análise de comportamento, inteligência de dispositivos, autenticação, biometria, mecanismos de prova de vida, monitoramento transacional e avaliação de risco.
A diferença é que uma identidade civil mais padronizada e verificável pode tornar mais difícil e mais caro para o fraudador construir uma identidade aparentemente legítima.
Raphael Mielle, diretor de Serviços e Segurança da Febraban, tem destacado justamente essa relação entre identidade e segurança financeira. Em manifestação recente sobre a CIN, o executivo apontou que a modernização do documento deve ser vista dentro de um ambiente de negócios mais seguro, no qual uma verificação de identidade sólida e unificada contribua para enfrentar fraudes estruturais e aumentar a segurança das transações.
Cinco impactos esperados para o sistema financeiro
1. Mais segurança contra fraudes de identidade
A utilização do CPF como referência única nacional elimina uma das fragilidades históricas do antigo modelo: a possibilidade de uma mesma pessoa possuir diferentes números de RG emitidos por estados distintos.
Ao lado disso, QR Code, mecanismos de validação e dados biométricos aumentam as possibilidades de verificar se a identidade apresentada corresponde efetivamente ao cidadão relacionado àquele registro.
No sistema financeiro, o efeito esperado é especialmente relevante na abertura de contas e em operações que exigem identificação robusta.
Isso pode contribuir para dificultar a criação de contas mediante documentação falsa, reduzir determinados esquemas envolvendo contas abertas com identidades de terceiros e fortalecer os controles utilizados antes da contratação de produtos financeiros.
2. Unificação e padronização da identidade
O segundo impacto está na interoperabilidade.
Um CPF utilizado como referência nacional, associado a uma identidade padronizada e sustentado por bases oficiais, diminui divergências entre documentos e cadastros.
Para bancos e demais empresas que precisam identificar milhões de pessoas, a padronização pode facilitar a comparação de informações entre sistemas e reduzir exceções cadastrais.
É uma mudança relevante em relação a um ambiente no qual diferentes documentos, formatos e números precisavam ser tratados simultaneamente.
3. Menos burocracia e mais eficiência
Uma infraestrutura de identidade verificável também pode reduzir etapas.
Quando os dados necessários para identificar uma pessoa podem ser conferidos de maneira eletrônica e segura, diminui a necessidade de solicitações repetidas de documentos e de verificações manuais.
Para o cidadão, isso pode significar processos mais rápidos.
Para bancos, empresas e governo, pode representar menos retrabalho, menos exceções operacionais e redução do custo relacionado à conferência da identidade.
4. Uma identidade capaz de se relacionar com outros registros
A CIN foi concebida como uma identidade nacional estruturante e pode incorporar ou se relacionar com informações de outros documentos e registros oficiais, conforme as regras aplicáveis a cada um deles.
A ideia não é simplesmente transformar a carteira física em um documento contendo indiscriminadamente todas as informações do cidadão.
O conceito mais relevante é o de uma identidade de referência, capaz de permitir que diferentes serviços públicos e privados trabalhem sobre informações mais consistentes e interoperáveis.
Essa distinção é importante porque o futuro da identidade digital não depende necessariamente de concentrar todos os dados em um único documento, mas de permitir que informações confiáveis possam ser verificadas quando forem necessárias e autorizadas.
5. Redução do chamado “custo da desconfiança”
Existe ainda um impacto econômico menos visível.
Sempre que uma empresa precisa confirmar repetidamente se uma pessoa é realmente quem afirma ser, existe um custo.
São verificações adicionais, análises manuais, tecnologias antifraude, tratamento de inconsistências cadastrais, bloqueios preventivos e processos destinados a investigar operações suspeitas.
As próprias fraudes, naturalmente, também geram perdas financeiras.
Uma infraestrutura nacional de identidade mais confiável não elimina esses controles, mas pode melhorar a qualidade da informação sobre a qual eles trabalham.
Na prática, isso pode significar menos verificações redundantes, melhor identificação do cliente legítimo e uma redução gradual do que pode ser chamado de “custo da desconfiança”.
A CIN física é apenas uma parte da transformação
Outro aspecto importante é que a discussão sobre a CIN não se limita ao documento físico.
Depois da emissão, o cidadão pode acessar também a versão digital da Carteira de Identidade Nacional pelo aplicativo GOV.BR, na carteira de documentos. O governo chegou a realizar uma campanha em junho para lembrar cidadãos que já possuíam a carteira física de que a versão digital também estava disponível.
Essa integração ajuda a mostrar a dimensão do projeto.
A CIN não deve ser analisada apenas como a substituição visual do antigo RG, mas como um dos componentes de uma Infraestrutura Pública Digital de Identificação Civil.
E é justamente nesse ponto que a cooperação entre MGI, Febraban, Zetta e Abrid se torna estratégica.
Os testes de conferência de dados biográficos e biométricos podem criar as condições para que instituições privadas consultem, dentro de regras de segurança, privacidade, proteção de dados e governança, informações capazes de aumentar a confiança sobre a identidade apresentada por uma pessoa.
55,8 milhões de identidades mudam a escala da discussão
A dimensão alcançada pela CIN ajuda a explicar por que o tema passa a interessar cada vez mais ao setor financeiro.
Até 12 de junho de 2026, 55,8 milhões de pessoas já haviam emitido a nova Carteira de Identidade Nacional. Naquele momento, o país registrava uma média de aproximadamente 39,6 mil emissões por dia e 1,13 milhão por mês.
É uma escala suficientemente grande para fazer com que a discussão deixe de ser apenas sobre a implantação de um novo documento e passe para a próxima etapa: como utilizar uma identidade nacional mais confiável para melhorar serviços e reduzir riscos no ambiente digital.
Para o sistema financeiro, essa transição pode ser particularmente importante.
Bancos digitalizaram grande parte da relação com seus clientes. Contas são abertas remotamente, contratos são celebrados à distância e operações financeiras podem ser realizadas em segundos.
Nesse ambiente, saber com alto grau de confiança quem está do outro lado da tela tornou-se uma das questões centrais da segurança bancária.
A CIN não encerra essa discussão. Ao contrário: cria uma nova base para ela.
Ao conectar uma identidade civil padronizada a mecanismos digitais de verificação, o Brasil começa a construir uma infraestrutura na qual identificação, biometria, interoperabilidade, privacidade e prevenção a fraudes passam a fazer parte de um mesmo ecossistema.
E, com mais de 55,8 milhões de brasileiros já incorporados ao novo modelo, o próximo desafio deixa de ser apenas emitir a CIN. Passa a ser transformar essa escala em confiança digital efetiva para o cidadão, para o governo e para as empresas que precisam saber, com segurança, com quem estão se relacionando.
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