Digitalização, tarifas dinâmicas e flexibilidade ampliam a eficiência das redes, mas colocam segurança e identidade dos equipamentos no centro da discussão
As redes de distribuição de energia elétrica estão deixando de ser apenas o caminho pelo qual a energia chega ao consumidor. Com veículos elétricos, geração distribuída, armazenamento, bombas de calor, medidores inteligentes e novas soluções de flexibilidade conectados ao sistema, a rede passa a operar como uma infraestrutura cada vez mais digital, distribuída e interdependente.
Essa transformação tecnológica exige também uma mudança na regulação. Para André Sih, Founder & Managing Partner da Fu2re, modelos concebidos para um sistema elétrico mais previsível e centralizado precisam evoluir para permitir inovação sem comprometer segurança, estabilidade e proteção ao consumidor.

O tema esteve entre os principais debates do CIRED 2026 Brussels Workshop, realizado nos dias 9 e 10 de junho, em Bruxelas.
A décima edição do encontro reuniu cerca de 600 especialistas de 40 países sob o tema “Implementing Successful Innovation in Distribution Networks”.
Entre os três eixos oficiais estavam justamente os novos modelos de regulação e práticas capazes de estimular a inovação e reduzir riscos de negócio.
Regulação precisa acompanhar a transformação das redes
Na análise de Sih, as redes de distribuição se transformaram no ponto de convergência da transição energética. É por elas que passam, na prática, alguns dos principais vetores dessa mudança, como veículos elétricos, geração distribuída, armazenamento de energia e novas soluções de gerenciamento da demanda.
O problema é que a velocidade da tecnologia nem sempre encontra correspondência na velocidade da regulação.
Mecanismos de recuperação de custos, exigências de conformidade e estruturas criadas para reduzir riscos continuam necessários. Entretanto, dependendo de como são desenhados, também podem dificultar projetos experimentais e a adoção de novas tecnologias.
O próprio CIRED 2026 colocou essa questão no centro de uma de suas mesas-redondas. A organização destacou que mecanismos de recuperação de custos, alocação de riscos e obrigações de conformidade podem, ainda que involuntariamente, desencorajar a experimentação. O debate apontou instrumentos como sandboxes regulatórios, incentivos baseados em desempenho e mecanismos específicos para inovação como alternativas para aproximar desenvolvimento tecnológico, proteção ao consumidor e segurança do sistema.
Para Sih, essa mudança representa uma evolução importante no papel dos próprios reguladores.
“A regulação precisa deixar de ser vista somente como um mecanismo de controle e passar a ser tratada como uma infraestrutura de inovação.”
André Sih
Na Europa, esse movimento já aparece na evolução das regras do mercado de eletricidade. O modelo europeu busca incorporar maior participação de fontes renováveis, armazenamento, resposta da demanda e consumidores mais ativos, ao mesmo tempo em que procura manter segurança de fornecimento e proteção ao consumidor.
Tarifas variáveis podem criar novos comportamentos na rede
Um dos exemplos apresentados por Sih são as tarifas variáveis no tempo. A lógica parece simples. Ao informar ao consumidor que a energia está mais barata ou mais cara em determinados períodos, cria-se um incentivo para deslocar o consumo para horários de menor demanda.
A própria regulamentação europeia contempla contratos de eletricidade com preços dinâmicos, capazes de refletir variações do mercado e permitir que consumidores respondam aos sinais de preço.
Mas Sih chama a atenção para um efeito que precisa ser considerado no desenho desses mecanismos.
“Quando muitos consumidores respondem ao mesmo sinal de preço ao mesmo tempo, seus comportamentos se sincronizam, e surgem novos picos em horários antes menos críticos.”
Na avaliação do executivo, portanto, tarifas variáveis podem contribuir para reduzir picos e adiar determinados investimentos de reforço das redes, mas esse benefício não é necessariamente linear. Dependendo do nível de adesão e da resposta simultânea dos consumidores, novas concentrações de demanda podem surgir.
É um bom exemplo de como inovação regulatória não significa apenas criar novos incentivos. Significa também compreender os efeitos sistêmicos produzidos por eles.
Redes elétricas digitalizadas também ampliam a superfície de ataque
Mas existe outra dimensão que precisa entrar definitivamente nessa discussão: cibersegurança.
O sistema elétrico é uma infraestrutura crítica. E quanto mais sensores, medidores inteligentes, concentradores, plataformas de gerenciamento, dispositivos de Internet das Coisas (IoT) e sistemas de automação passam a integrar a rede, maior se torna a necessidade de proteger não apenas os sistemas centrais, mas todos os elementos capazes de trocar informações ou receber comandos.
A Comissão Europeia chama atenção especificamente para esse desafio. Sistemas legados, concebidos antes de a cibersegurança assumir a relevância atual, precisam hoje interagir com medidores inteligentes, equipamentos conectados, automação e dispositivos IoT. Além disso, uma ocorrência no setor elétrico pode produzir efeitos em cascata sobre outras regiões e serviços dependentes da energia.
Portanto, não há como discutir uma rede elétrica mais inteligente sem discutir uma rede elétrica mais segura.
Autenticação, criptografia, controle de acesso, proteção das chaves criptográficas, integridade das informações, atualização segura de equipamentos e rastreabilidade das operações precisam fazer parte da arquitetura desde sua concepção.
E há uma pergunta anterior a todas essas: quem é o equipamento que está se comunicando com a rede?
Medidores também precisam ter identidade
A própria programação do CIRED 2026 mostrou como os medidores inteligentes estão ganhando novas funções dentro das redes. Um dos trabalhos apresentados, desenvolvido pela Orion Grid Technologies com a distribuidora belga Fluvius, mostrou o uso de dados de smart meters e inteligência artificial para determinar a conectividade das redes de baixa tensão. Outro, da Tata Power, abordou IA e participação dos consumidores a partir da medição inteligente. O evento também recebeu trabalho sobre uma arquitetura ciber-resiliente para automação de redes de baixa tensão.
Esse avanço traz uma questão diretamente relacionada à confiança digital: se dados produzidos por medidores passam a alimentar sistemas de IA, apoiar o planejamento e participar da automação da rede, é preciso saber qual equipamento produziu aquela informação, se ele é legítimo e se os dados permaneceram íntegros.
É justamente aí que comunicação segura e identidade criptográfica se encontram.
O DLMS/COSEM, baseado na família IEC 62056, estabelece padrões para a troca interoperável e segura de informações entre medidores e sistemas de gerenciamento. O Crypto ID aprofundou esse tema no artigo “DLMS e OM-BR: como a criptografia fortalece a medição inteligente no Brasil”, publicado em junho de 2026, a partir da análise de José Carlos da Silva Neto, CTO da CERMOB.
No modelo analisado, enquanto o DLMS/COSEM estrutura a comunicação e seus mecanismos de segurança. No Brasil, o certificado digital OM-BR da ICP-Brasil acrescenta ao medidor uma identidade criptográfica certificada, permitindo associar sua chave e seu certificado ao equipamento que efetivamente produz as informações.
A questão deixa, portanto, de ser apenas como tornar as redes mais eficientes e flexíveis. Quanto mais digitalizada e automatizada se torna uma infraestrutura crítica, maior é a necessidade de identificar equipamentos, autenticar comunicações e assegurar a integridade dos dados.
Pessoas precisam provar quem são no ambiente digital. Máquinas que participam de infraestruturas críticas também.
Inovação, segurança e confiança precisam avançar juntas
O debate proposto por André Sih sobre inovação regulatória ganha, assim, uma dimensão adicional. Flexibilidade, novas tarifas, medidores inteligentes, inteligência artificial e automação podem tornar as redes mais eficientes, mas precisam avançar acompanhadas de cibersegurança e confiança digital.
É significativo que o próprio CIRED 2026 tenha reunido discussões sobre regulação, smart meters, IA e ciber-resiliência. São partes de uma mesma transformação.
Nas redes elétricas do futuro, equilíbrio também será uma questão de confiança digital.
Sobre André Sih
André Sih é Founder & Managing Partner da Fu2re, empresa brasileira de tecnologia com atuação em soluções de inteligência artificial aplicadas, entre outros segmentos, ao setor de energia.
Sobre a Fu2re
A Fu2re é especializada em soluções de inteligência artificial que transformam operações e otimizam processos nas indústrias de energia, saneamento, óleo e gás. Primeira startup acelerada pela NVIDIA no Brasil, com uma equipe altamente qualificada, desenvolve tecnologias de ponta, como o SmartVision AI, uma plataforma no-code que combina visão computacional e IA e permite novos treinamentos e/ou atualizações rápidas nos modelos de inteligência artificial. Tendo recebido, em 2025, o aporte da Copel Ventures (gerido pela Vox Capital) e Indicator Capital, gestora early-stage de venture capital líder em deep-tech, a Fu2re se destaca por entregar resultados mensuráveis e assertivos, atendendo às necessidades específicas de grandes empresas. Ocupa o primeiro lugar no Energy Summit MIT e está na lista dos 100 Mais Influentes de Energia 2025, consolidando-se como referência em inovação e transformação digital. Site: www.fu2re.com.br
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