Estudo da Grant Thornton com 950 líderes nos EUA aponta integração e governança como fatores-chave nos investimentos em IA
Depois da corrida para experimentar e implementar inteligência artificial, as empresas começam a enfrentar uma nova etapa: demonstrar que os investimentos feitos na tecnologia produzem resultados mensuráveis para o negócio.
Essa é uma das principais conclusões do AI Impact Survey 2026, da Grant Thornton, realizado com 950 executivos e líderes empresariais de dez setores nos Estados Unidos. O levantamento revela uma diferença expressiva entre organizações que ainda testam a tecnologia e aquelas que conseguiram incorporá-la efetivamente às operações.
Entre as empresas com inteligência artificial totalmente integrada, 58% relatam crescimento de receita associado à IA. Entre as organizações que ainda estão na fase de projetos-piloto, o percentual cai para 15%.
O resultado sugere que o debate corporativo começa a se deslocar da simples adoção da tecnologia para uma questão mais difícil: como comprovar que a IA está efetivamente gerando valor.

“A IA deixou de ser um diferencial por si só. O que destaca as empresas é a capacidade de conectar tecnologia à estratégia e gerar valor real“, afirma Maikon Silva, sócio de Risk da Grant Thornton.
Governança aparece como parte do problema
O estudo chama esse descompasso de “AI proof gap”, ou lacuna de comprovação da IA: organizações ampliam o uso da tecnologia, mas nem sempre conseguem demonstrar como os sistemas tomam decisões, quem responde pelos resultados e quais controles estão funcionando.
Segundo a pesquisa, 78% dos executivos não têm forte confiança de que suas organizações conseguiriam passar por uma auditoria independente de governança de IA dentro de 90 dias.
Ao mesmo tempo, três em cada quatro conselhos de administração já aprovaram investimentos relevantes em inteligência artificial. Apesar disso, 48% ainda não estabeleceram expectativas de governança para IA e 46% não incorporaram o risco relacionado à tecnologia à supervisão permanente do conselho ou de seus comitês.
A relação encontrada pela pesquisa é importante: quanto mais avançada a integração da IA, maior também a confiança na estrutura de governança. Entre empresas que ainda estão realizando pilotos, apenas 7% dizem estar muito confiantes de que passariam por uma auditoria independente. Nas organizações com IA totalmente integrada, esse indicador chega a 74%.
Isso não significa, por si só, que a governança seja a única responsável pelo maior retorno financeiro. A pesquisa mostra uma associação entre maturidade, governança e desempenho, baseada nas respostas dos próprios executivos.
IA agêntica aumenta a necessidade de controle
A questão ganha outra dimensão com o avanço dos agentes de inteligência artificial.
Quase três quartos das organizações pesquisadas já estão permitindo que sistemas de IA agêntica tenham acesso a dados e processos, seja em projetos-piloto, expansão ou produção. Entretanto, apenas 20% possuem um plano de resposta a incidentes de IA que tenha sido efetivamente testado.
A autonomia ainda encontra limites. Apenas 5% permitem que agentes executem decisões consideradas de alto risco sem revisão humana, enquanto 60% restringem esses sistemas à automação de tarefas de risco moderado.
Nesse cenário, rastreabilidade, definição de responsabilidades, supervisão humana e capacidade de reconstruir o que ocorreu em caso de falha passam a integrar a discussão sobre retorno do investimento. Não basta saber quanto a IA economizou ou produziu. A empresa precisa ser capaz de demonstrar como o resultado foi obtido e sob quais controles.
Setores apresentam estágios bastante diferentes
A divisão da pesquisa por indústria mostra que adoção e retorno não avançam necessariamente no mesmo ritmo.
No setor de tecnologia e telecomunicações, 81% das empresas já estão ampliando a IA agêntica para várias unidades de negócio ou integrando-a completamente aos fluxos de trabalho, ante 38% da amostra geral. Ao mesmo tempo, 48% dizem que barreiras de governança ou compliance já contribuíram para desempenho inferior ao esperado de iniciativas de IA.
Nos bancos, 54% estão ampliando a IA para várias funções e 62% registram ganhos de eficiência. O avanço sobre receita, porém, é menor: somente 32% relatam crescimento associado à tecnologia. Metade aponta barreiras de governança e compliance como limitadoras do desempenho da IA.
O cenário das seguradoras é diferente. Nesse grupo, 52% relatam crescimento de receita relacionado à IA e 62% já estão expandindo sua utilização entre diferentes funções. Mesmo assim, 68% afirmam possuir controles de IA fragmentados entre equipes e ferramentas, enquanto 56% apontam incertezas regulatórias ou de compliance como barreira à expansão.
Nas empresas de serviços profissionais, 57% estão ampliando a IA entre diferentes funções, acima dos 49% da amostra total. Mas somente 50% relatam ganhos mensuráveis de eficiência, abaixo dos 63% verificados no conjunto da pesquisa.
Em private equity, apenas 24% relatam crescimento de receita decorrente da IA e 45% permanecem na fase piloto.
Na energia, 57% atribuem parte do desempenho abaixo do esperado da IA a barreiras de governança ou compliance. Embora 74% afirmem possuir controles, as evidências desses controles permanecem fragmentadas.
A manufatura também mostra distância entre utilização e maturidade. Quase metade, 48%, ainda está na fase piloto, e somente 14% relata aceleração da inovação decorrente da IA, contra 31% no conjunto dos setores pesquisados. Apenas 7% possuem um plano de resposta a incidentes de IA já testado.
Nas gestoras de ativos, 73% apontam ganhos de eficiência, mas apenas 14% relatam inovação acelerada. Já em construção e mercado imobiliário, 79% dos conselhos aprovaram investimentos em IA, enquanto somente 40% das organizações estabeleceram políticas de governança para a tecnologia.
Em mídia e entretenimento, 17% das empresas já integraram completamente sistemas de IA agêntica aos fluxos de trabalho. A análise setorial da Grant Thornton também aponta um descompasso entre investimentos aprovados pelos conselhos e a efetiva adoção dentro das organizações.
Da experimentação à prestação de contas
Para a Grant Thornton, a próxima vantagem competitiva tende a surgir menos da quantidade de projetos de IA e mais da capacidade de selecionar aplicações, medir resultados e interromper iniciativas que não entregam valor.
A pesquisa mostra, por exemplo, que apenas 22% dos líderes de operações trabalham atualmente com uma estratégia de IA considerada totalmente desenvolvida e implementada. A recomendação do estudo é estabelecer métricas consistentes de retorno, responsabilidades definidas e critérios para decidir quais projetos devem avançar e quais devem ser encerrados.
“A IA está deixando de ser uma agenda de inovação para se tornar uma agenda de desempenho empresarial. Nos próximos anos, as organizações que vão liderar seus mercados serão aquelas que conseguirem demonstrar que cada investimento em Inteligência Artificial gera impacto real sobre receita, produtividade, experiência do cliente ou eficiência operacional. A tecnologia continuará evoluindo rapidamente, mas será a capacidade de transformar inovação em resultado que definirá os novos líderes do mercado“, afirma Maikon Silva.
Sobre a pesquisa
O AI Impact Survey 2026 foi realizado pela Grant Thornton entre 23 de fevereiro e 18 de março de 2026, com 950 líderes empresariais de dez setores. Participaram executivos C-level e profissionais que respondem diretamente à alta administração.
A amostra reúne 100 respondentes de gestão de ativos, construção e mercado imobiliário, energia, seguros, manufatura, mídia e entretenimento, private equity, serviços e tecnologia e telecomunicações. O setor bancário contou com 50 participantes.
Segundo a própria Grant Thornton, o levantamento reflete respostas autodeclaradas e as percepções dos participantes, não constituindo auditoria ou comprovação independente do desempenho das empresas. A divulgação oficial informa que os participantes são líderes empresariais dos Estados Unidos, portanto os resultados não devem ser interpretados como representativos do mercado brasileiro ou de empresas globalmente.
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