Thomson Reuters integra CoCounsel ao HighQ para ampliar o uso de IA em contratos, due diligence e gestão jurídica
A inteligência artificial generativa começa a deixar de ser uma ferramenta isolada de consulta para entrar diretamente nos fluxos de trabalho de advogados e departamentos jurídicos.
A Thomson Reuters anunciou nesta segunda-feira, 17 de agosto, a integração do CoCounsel, sua tecnologia de inteligência artificial, ao HighQ, plataforma usada por escritórios de advocacia e departamentos jurídicos para gestão de documentos, projetos e colaboração.
Na prática, a mudança permite que tarefas de IA sejam executadas dentro do próprio ambiente em que o advogado já trabalha, incluindo análise de contratos, due diligence, tratamento de notificações regulatórias e organização de grandes volumes de documentos.
O movimento sinaliza uma nova fase da adoção de inteligência artificial pelo setor jurídico: em vez de o profissional copiar documentos para uma ferramenta externa e formular comandos individualmente, a IA passa a fazer parte do processo operacional.
O que muda na rotina dos advogados
Com a integração, documentos inseridos no HighQ podem ser analisados pelo CoCounsel para extrair informações, identificar pontos relevantes e alimentar automaticamente etapas posteriores de um fluxo de trabalho.
Na gestão de contratos, por exemplo, a tecnologia pode ser usada para localizar cláusulas e identificar possíveis impactos decorrentes de alterações regulatórias.
Em processos de due diligence, a IA pode auxiliar na organização, classificação e análise de grandes conjuntos de documentos, uma das atividades tradicionalmente mais intensivas em tempo em operações societárias e financeiras.
Outro uso está no tratamento de notificações regulatórias. Segundo a Thomson Reuters, o sistema pode registrar e classificar informações, analisar os dados recebidos, encaminhar casos e acompanhar prazos.
A empresa também prevê o uso da integração em portais destinados a clientes, permitindo acesso a determinadas informações sem a necessidade de intervenção manual do escritório ou departamento jurídico em cada solicitação.
IA deixa de responder perguntas e começa a executar etapas
Essa mudança é relevante porque desloca o uso da inteligência artificial no Direito de uma lógica predominantemente baseada em perguntas e respostas para uma estrutura de automação de processos jurídicos.

“Os times jurídicos no Brasil operam sob crescente pressão regulatória, maior exposição a riscos, menos tempo para analisar decisões complexas e uma necessidade crescente de atuar como parceiros estratégicos do negócio”, afirma Rodrigo Hermida, vice-presidente de Legal Professionals Latam na Thomson Reuters.
Para o executivo, a discussão passa a se concentrar na forma de adoção da tecnologia.
“Nesse cenário, a discussão já não é mais se adotar tecnologia, mas como fazê-lo de forma inteligente e sem comprometer o padrão profissional que define o trabalho jurídico.”
O HighQ já era utilizado para organização de informações, gestão de documentos, coordenação de projetos e colaboração entre equipes e clientes. O CoCounsel adiciona uma camada de inteligência artificial a esses processos.
Rastreabilidade ganha importância no uso jurídico da IA
Para advogados, porém, velocidade não é o único critério relevante.
A utilização de inteligência artificial em atividades relacionadas a contratos, regulação e tomada de decisão exige que o profissional consiga compreender como a informação foi tratada, de onde ela veio e qual etapa continua dependendo de validação humana.
A Thomson Reuters afirma que o CoCounsel foi desenvolvido segundo seu padrão denominado Fiduciary Grade AI, voltado a profissionais submetidos a deveres de cuidado e supervisão regulatória.
Segundo a companhia, a tecnologia é utilizada atualmente por 1 milhão de usuários em 107 países e territórios.

“A integração da IA diretamente aos fluxos de trabalho permite que nossos clientes ganhem velocidade, escalem operações e tomem decisões mais assertivas baseadas em dados e análises de cenários”, afirma Luciano Idésio, Head de Corporates Latam da Thomson Reuters.
Contratos podem ser uma das primeiras áreas transformadas
Entre as aplicações apresentadas pela Thomson Reuters, a gestão contratual talvez seja uma das que melhor demonstram a mudança.
Um departamento jurídico pode manter centenas ou milhares de contratos ativos. Uma nova legislação, regulamentação ou obrigação pode exigir a identificação de quais documentos contêm determinada cláusula e quais precisam ser revistos.
Tradicionalmente, esse processo envolve busca, leitura e classificação documental. Com inteligência artificial integrada ao fluxo de gestão, parte desse trabalho pode ser automatizada, permitindo que os documentos potencialmente afetados sejam localizados antes da análise jurídica propriamente dita.
O mesmo raciocínio se aplica à due diligence: a IA pode reduzir o trabalho de localizar e organizar informação, mas a avaliação jurídica e a responsabilidade pelas conclusões continuam pertencendo ao profissional.
Essa distinção será cada vez mais importante à medida que agentes e sistemas de inteligência artificial avancem da produção de textos para a execução de tarefas dentro de escritórios e departamentos jurídicos.
A integração entre HighQ e CoCounsel será disponibilizada na América Latina e passa a integrar o portfólio jurídico da Thomson Reuters na região, ao lado de Legal One, Westlaw e CoCounsel Core.
Para a advocacia, a novidade reforça uma discussão que tende a ganhar espaço rapidamente: a questão já não é apenas se advogados usarão inteligência artificial, mas quais etapas do trabalho jurídico poderão ser delegadas à tecnologia e quais mecanismos de supervisão, rastreabilidade e controle precisarão acompanhar essa transformação.
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