Supercomputadores, Nuvem Brasileira, chips, transferência de tecnologia e formação profissional integram estratégia para ampliar soberania e capacidade computacional do país
O Brasil começa a montar uma infraestrutura tecnológica voltada não apenas ao uso, mas ao desenvolvimento de inteligência artificial em grande escala dentro do país. A estratégia reúne investimentos em supercomputação, Nuvem Brasileira, desenvolvimento de tecnologias baseadas em arquitetura aberta, transferência de conhecimento e formação de profissionais, criando uma base para que empresas, startups, universidades, centros de pesquisa e governos possam desenvolver modelos, produtos e serviços de IA com maior capacidade computacional disponível em território nacional.
Um dos principais projetos prevê investimento estimado em R$ 1 bilhão na aquisição de um supercomputador com capacidade aproximada de 7,2 mil Petaflops em fp16, que poderá figurar entre as dez maiores máquinas do mundo em processamento voltado à inteligência artificial. A instalação está prevista para o Parque Tecnológico Augusto Severo, ligado à Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Mais do que ampliar poder de processamento, o conjunto de iniciativas coloca em discussão um tema estratégico: quanto da infraestrutura necessária para desenvolver IA o Brasil pretende dominar e manter sob sua própria capacidade tecnológica? Hoje, empresas, universidades e pesquisadores que precisam treinar modelos de maior porte podem depender de infraestrutura localizada no exterior, inclusive para o processamento de dados e projetos estratégicos.
A FAQ a seguir explica a nova infraestrutura brasileira de IA, com supercomputação, Nuvem Brasileira, soberania digital, investimentos e formação profissional
- Qual o objetivo da nova etapa da estratégia brasileira digital para inteligência artificial?
O objetivo é fazer o Brasil avançar de usuário de tecnologias de inteligência artificial para também ser desenvolvedor em grande escala, ampliando sua capacidade de criar modelos, soluções, produtos e serviços no próprio país.
A estratégia busca formar um ecossistema mais robusto de inteligência artificial, com infraestrutura, pesquisa, formação de profissionais e condições para que empresas, startups, universidades, centros de pesquisa e governos desenvolvam tecnologia no Brasil.
É como criar uma usina de capacidade computacional para a IA brasileira: uma infraestrutura que dá potência para que muitos outros projetos possam ser desenvolvidos.
- Qual problema essa nova infraestrutura resolve hoje?
Uma das principais dificuldades para desenvolver inteligência artificial é o acesso a grande capacidade de processamento. Sem máquinas de alto desempenho, mesmo quem tem dados e pesquisadores encontra limites para treinar modelos de maior escala. Hoje, empresas, startups, universidades e pesquisadores brasileiros que precisam treinar modelos de maior porte podem ter de contratar essa infraestrutura no exterior.
Na prática, isso pode significar enviar dados para processamento fora do país e depender da disponibilidade, das filas e das condições definidas pelos provedores dessa infraestrutura. Também coloca uma questão de segurança e soberania: quanto maior a capacidade instalada no Brasil, maiores as condições para que dados e projetos estratégicos sejam processados no país e para que o próprio Brasil defina prioridades de utilização.
Com mais processamento disponível aqui, empresas, universidades, centros de pesquisa e governos ganham infraestrutura para treinar modelos e desenvolver projetos de maior escala no Brasil. É capacidade brasileira disponível para quem quer desenvolver inteligência artificial no país.
- O novo supercomputador será uma estrutura do Governo Federal?
Não. Ele será uma infraestrutura nacional de inteligência artificial. Sua capacidade poderá ser utilizada por empresas, universidades, instituições científicas e diferentes níveis de governo para pesquisa, treinamento de modelos e desenvolvimento de aplicações.
- Qual o investimento do edital?
O edital possui investimento estimado em cerca de R$ 1 bilhão. O equipamento deverá alcançar aproximadamente 7,2 mil Petaflops (em fp16) e figurar entre as dez maiores máquinas do mundo em capacidade de processamento de IA.
- Onde o supercomputador ficará instalado?
A instalação está prevista para o Parque Tecnológico Augusto Severo – PAX, que pertence à Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), levando também ao Nordeste uma infraestrutura científica e tecnológica de ponta.
Além da aquisição da máquina, o edital prevê transferência de tecnologia, pesquisa e desenvolvimento, conteúdo local, participação de fornecedores brasileiros e formação de profissionais.
A capacidade terá uso compartilhado entre governo, setor produtivo e comunidade científica. O modelo de governança deverá estabelecer critérios de seleção e priorização dos projetos que utilizarão a infraestrutura.
- Também terá uma estrutura no Rio de Janeiro?
Sim. Também há previsão de implantação no Rio de Janeiro de uma infraestrutura de supercomputação executada pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), em parceria com Huawei e iFlytek.
Mas a infraestrutura do Rio de Janeiro é parte de uma parceria estratégica mais ampla, e será prioritariamente usada para desenvolver os modelos de linguagem gerais e em setores específicos
A iniciativa irá ampliar a capacidade de processamento disponível no país, e prevê transferência de tecnologia, parcerias de pesquisa e desenvolvimento, formação de profissionais e desenvolvimento de uma pilha de software soberana.
- Por que o Brasil está seguindo diferentes rotas tecnológicas?
Porque a estratégia não é depender de uma única empresa, tecnologia ou país.
O Brasil combina a aquisição de um supercomputador por edital competitivo, cooperação tecnológica com empresas chinesas e uma estratégia de longo prazo em parceria com a Espanha baseada na arquitetura aberta RISC-V para desenvolvimento de chips.
As rotas também atuam em horizontes diferentes: algumas ampliam a capacidade de processamento no curto prazo, enquanto outras constroem competências tecnológicas para o médio e o longo prazo.
Soberania digital não significa fazer tudo sozinho ou fechar o país. Significa ampliar alternativas, desenvolver capacidades no Brasil e poder escolher parceiros e tecnologias de acordo com os interesses nacionais.
As parcerias serão avaliadas pelo que deixam no país — conhecimento, formação de profissionais e liberdade para trocar tecnologias e fornecedores no futuro.
- Qual é a importância da Nuvem Brasileira?
A lógica é semelhante à da supercomputação: criar no país uma infraestrutura tecnológica estratégica que possa ser utilizada não apenas pelo governo, mas também pelo mercado.
A Nuvem Brasileira busca desenvolver tecnologia nacional em componentes críticos de computação em nuvem, com padrões abertos e interoperáveis. O objetivo é criar uma alternativa brasileira para armazenamento e processamento de dados e sistemas.
A estratégia parte da ideia de que não basta que os dados estejam fisicamente no Brasil: é importante ampliar também o domínio sobre as tecnologias utilizadas para armazená-los e processá-los.
A demanda do Estado ajudará a dar escala ao projeto, estimulando fornecedores brasileiros e criando condições para que soluções nacionais também possam disputar o mercado privado. O desenho busca ainda gerar conhecimento e propriedade intelectual no país e evitar que usuários fiquem presos a uma única tecnologia ou fornecedor.
- Qual a diferença entre nuvem de governo e nuvem brasileira?
A Nuvem de Governo foi estabelecida em 2023 e tem por objetivo guardar, no Brasil, dados sensíveis do governo brasileiro que podem estar armazenados em qualquer lugar do mundo e sujeitos a eventuais sanções ou mesmo guerras territoriais. Desde 2023, 38 órgãos federais já aderiram à nuvem de governo. Ao utilizar essa nuvem, o governo garante que os dados estejam armazenados em território nacional, o que facilitará seu uso estratégico em modelos de IA aproveitando as capacidades de alto desempenho dos supercomputadores.
Com a Nuvem de Governo, tecnologias de grandes empresas internacionais são instaladas fisicamente em ambientes controlados pelo Estado, em território nacional, com gestão feita por Serpro e Dataprev ou pelos órgãos públicos. As nuvens desses fornecedores são instaladas dentro nos data centers das empresas públicas, portanto, subordinadas a uma estratégia de soberania que inclui múltiplos fornecedores e controle dos dados e do ambiente computacional.
A Nuvem Brasileira visa ampliar a soberania digital, pois envolve o desenvolvimento do software necessário para que uma nuvem funcione. Ela será desenvolvida a partir de uma parceria entre empresas públicas e o setor privado, aproveitando os avanços da indústria nacional, apoiada no poder de compra do Estado para expandir e acelerar sua evolução.
- Como as diferentes iniciativas se conectam dentro da estratégia?
Cada frente cumpre uma função específica:
- Supercomputadores: capacidade de processamento para treinar modelos e desenvolver IA em grande escala.
- Nuvem Brasileira: infraestrutura para armazenar e operar dados, sistemas e aplicações.
- RISC-V: capacidade de ampliar o domínio sobre componentes tecnológicos fundamentais, como chips.
- Formação e transferência de tecnologia: pessoas e conhecimento para utilizar, desenvolver e evoluir essa infraestrutura no Brasil.
- Centro de Transparência Algorítmica: capacidade técnica para avaliar o funcionamento dos sistemas de IA, identificar riscos e vieses e ampliar sua explicabilidade e confiabilidade.
Juntas, essas iniciativas formam a base tecnológica necessária para ampliar a capacidade brasileira de desenvolver inteligência artificial no país.
- O que esse pacote pode gerar para empresas, pesquisadores e jovens?
Para empresas e startups, mais capacidade computacional disponível no Brasil reduz uma das barreiras para desenvolver inteligência artificial em maior escala. Isso amplia as condições para testar e treinar modelos, transformar pesquisa em produtos e serviços, criar novos negócios e fortalecer empresas brasileiras de tecnologia. A Nuvem Brasileira também busca abrir mercado para fornecedores nacionais de software, infraestrutura, segurança e aplicações.
Para universidades e pesquisadores, a nova infraestrutura significa acesso a maior poder de processamento para pesquisas que hoje exigem equipamentos de alto desempenho, além de novas oportunidades de pesquisa e desenvolvimento, cooperação tecnológica e criação de modelos voltados ao idioma e às necessidades brasileiras.
Para os jovens, a estratégia amplia caminhos de formação e entrada em áreas de alta qualificação. Somadas apenas as duas rotas de supercomputação, estão previstas 8 mil capacitações em cinco anos, além da transferência de tecnologia e das parcerias de pesquisa e desenvolvimento. A ideia é formar no país mais profissionais capazes não apenas de usar inteligência artificial, mas de criar modelos, produtos, empresas e novas tecnologias.
- E o que isso representa, no fim, para a população?
O primeiro resultado é ampliar a capacidade do país de desenvolver inteligência artificial. Com mais infraestrutura disponível no Brasil, empresas, universidades, centros de pesquisa e governos passam a ter melhores condições para criar, testar e colocar em uso novas soluções.
O passo seguinte é transformar essa capacidade em aplicações concretas, que podem gerar benefícios em áreas muito diferentes da vida das pessoas. Na saúde, por exemplo, a IA pode apoiar diagnósticos e tratamentos; na agricultura, contribuir para aumentar produtividade e reduzir perdas; na área de clima, melhorar previsões e a prevenção de desastres; na indústria, elevar eficiência e competitividade; e, nos serviços públicos, permitir soluções mais rápidas e adequadas às necessidades da população.
É esse o potencial do investimento: criar hoje a infraestrutura necessária para que, nos próximos anos, novas aplicações sejam desenvolvidas no Brasil, ganhem escala e se traduzam em melhores serviços, mais produtividade, novos negócios, empregos qualificados e avanços concretos para a população.
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