Banco desenvolve gateway multiprotocolo para conectar agentes de inteligência artificial à infraestrutura da Rede e começa a estruturar uma camada de pagamentos para o chamado comércio agêntico
O avanço dos agentes de inteligência artificial sobre o comércio eletrônico começa a deslocar uma fronteira importante: a IA deixa de participar apenas da descoberta de produtos e passa a se aproximar da execução da compra.
É nesse ponto que se insere a nova arquitetura desenvolvida pelo Itaú Unibanco, por meio da Rede. O banco criou uma camada capaz de conectar diferentes ambientes de inteligência artificial à sua infraestrutura de pagamentos, permitindo que uma jornada iniciada em uma conversa com um agente possa avançar até a etapa de pagamento sem exigir, necessariamente, que o consumidor migre para outro ambiente digital.
Mais do que adicionar inteligência artificial ao checkout, o movimento procura resolver um problema de infraestrutura que começa a surgir com o chamado comércio agêntico, ou agentic commerce: como permitir que diferentes agentes de IA interajam com sistemas de pagamento utilizando protocolos distintos, mantendo segurança, rastreabilidade e capacidade de processamento?
A resposta desenvolvida pelo Itaú passa por um gateway multiprotocolo.
Uma camada entre os agentes de IA e o sistema de pagamentos
Atualmente, uma loja virtual costuma integrar seu ambiente diretamente com APIs de adquirência, gateways, sistemas antifraude e outros componentes necessários para processar uma transação.
Com o surgimento dos agentes de IA, essa arquitetura tende a ganhar uma nova camada.
Um agente pode pesquisar produtos, comparar preços, verificar características, montar um carrinho e receber instruções do consumidor. Para avançar até o pagamento, porém, precisa haver uma forma padronizada e segura de transmitir a intenção de compra para a infraestrutura financeira.
O gateway criado pelo Itaú funciona como um adaptador entre esses dois universos.
De um lado ficam os protocolos utilizados pelas plataformas e pelos agentes de inteligência artificial. Do outro, as APIs de pagamento da Rede.
A função dessa camada intermediária é receber as informações originadas no ambiente de IA, interpretar o protocolo utilizado e convertê-las para os padrões aceitos pela infraestrutura de pagamentos.
Na prática, isso evita que cada estabelecimento tenha de construir uma integração diferente para cada agente ou plataforma de IA que venha a surgir.
O objetivo é tornar a infraestrutura de pagamento independente do agente.

Essa característica é particularmente relevante porque o ecossistema de comércio agêntico ainda está em formação e diferentes empresas de tecnologia trabalham com arquiteturas e protocolos próprios.
“Estamos desenvolvendo uma arquitetura preparada para conversar com diferentes agentes e protocolos, sem atrelar nossos clientes a uma única tecnologia”, afirma Adriano Tchen, diretor de Tecnologia do Itaú Unibanco.
O pagamento passa a fazer parte da conversa
A mudança conceitual está na posição que o pagamento ocupa dentro da jornada.
Nas experiências tradicionais de comércio eletrônico, o consumidor normalmente percorre diferentes ambientes: pesquisa, encontra o produto, entra na loja, adiciona o item ao carrinho, acessa o checkout e finalmente escolhe a forma de pagamento.
Com agentes de IA, parte dessa sequência pode ser condensada.
A mesma interface que ajuda o consumidor a escolher um produto pode, tecnicamente, receber a confirmação da compra e encaminhar a operação para processamento.
Isso não significa que o agente de IA se transforme em adquirente, emissor ou processador financeiro.
A proposta do Itaú segue justamente na direção contrária: o agente atua como uma nova interface para iniciar a transação, enquanto o processamento continua acontecendo dentro da infraestrutura financeira existente.
A primeira versão da solução prevê operações com cartão de crédito, embora a arquitetura tenha sido desenhada para incorporar outros instrumentos de pagamento conforme esse mercado evolua.
Tokenização ganha importância no comércio agêntico
Um dos pontos mais sensíveis dessa arquitetura está na forma como as credenciais de pagamento circulam entre o consumidor, o agente de IA e a infraestrutura financeira.
O Itaú afirma trabalhar com parceiros que utilizam tokenização nas experiências conversacionais.
A lógica é substituir os dados sensíveis do cartão por um token utilizado durante a transação. Dessa maneira, o número completo do cartão não precisa permanecer disponível para o agente que está conduzindo a conversa.
O pagamento continua sendo processado pela infraestrutura da Rede, onde são aplicados os controles correspondentes à transação.
Esse desenho é relevante porque o comércio agêntico cria uma nova questão de segurança: até que ponto um agente autorizado a comprar em nome de uma pessoa deve ter acesso às suas credenciais financeiras?
Quanto menor a exposição dos dados originais, menor tende a ser a superfície associada ao armazenamento e trânsito dessas informações.
A tokenização, portanto, passa a ser não apenas um recurso de proteção de cartão, mas uma das tecnologias estruturantes para permitir que agentes participem de jornadas financeiras sem necessariamente conhecer as credenciais completas do usuário.
Saber que a compra foi iniciada por uma IA
Outro elemento da arquitetura é a rastreabilidade.
Segundo o Itaú, o gateway consegue identificar o protocolo por meio do qual a transação foi iniciada. Dessa forma, uma compra originada por um agente de IA pode ser diferenciada de uma compra realizada diretamente em um site ou aplicativo convencional.
Essa distinção poderá adquirir importância à medida que as transações mediadas por agentes aumentarem.
Saber que determinada operação foi iniciada por uma IA pode ser relevante para monitoramento, prevenção a fraudes, análise de comportamento, auditoria, resolução de disputas e desenvolvimento de regras específicas para esse novo canal.
Também permite que estabelecimentos comecem a medir separadamente o desempenho das vendas originadas por agentes.
Da inteligência artificial como assistente para a IA como participante econômico
A iniciativa também está relacionada a uma linha de pesquisa conduzida pelo Instituto de Ciência e Tecnologia Itaú, o ICTi, sobre os chamados Machine Customers.
O conceito descreve um cenário em que sistemas computacionais deixam de apenas recomendar decisões e passam a executar determinadas ações econômicas em nome de pessoas ou organizações, dentro dos limites previamente definidos.
Nesse modelo, um agente poderia receber autorização para encontrar determinado produto, respeitar um limite de preço, selecionar um fornecedor e iniciar uma compra.
É uma mudança importante em relação ao uso predominante da IA generativa atual.
Hoje, grande parte das aplicações funciona como assistente: responde perguntas, produz textos, compara informações ou recomenda alternativas.
No modelo agêntico, a IA passa a executar etapas da tarefa.
Quando essa ação envolve uma compra, surge imediatamente a necessidade de definir identidade, autorização, consentimento, credenciais, limites de atuação, registro da operação e responsabilidade sobre a transação.
São questões que vão muito além do desenvolvimento de um chatbot.
Uma nova camada para o comércio eletrônico
O movimento do Itaú ajuda a mostrar que o comércio agêntico provavelmente exigirá mudanças não apenas nas interfaces utilizadas pelo consumidor, mas também na infraestrutura que sustenta o comércio eletrônico.
Se os agentes se consolidarem como novos intermediários entre consumidores e empresas, estabelecimentos precisarão decidir como seus catálogos, sistemas de pedidos, estoques e meios de pagamento poderão ser acessados por essas plataformas.
Nesse cenário, o gateway multiprotocolo funciona como uma espécie de camada de abstração.
Em vez de obrigar o lojista a compreender tecnicamente cada protocolo utilizado pelos diferentes agentes, a infraestrutura intermediária realiza essa tradução e conecta a nova interface às capacidades já existentes de pagamento.

“Estamos construindo essa ponte para que nossos clientes possam oferecer pagamentos integrados a esses novos ambientes sem adicionar complexidade à operação”, afirma Angelo Russomanno, diretor de Recebimentos e Adquirência do Itaú Unibanco.
O desafio seguinte será estabelecer confiança entre máquinas
A capacidade de processar o pagamento resolve apenas parte do problema.
À medida que agentes assumirem mais autonomia, o ecossistema terá de responder questões como quem autorizou determinada ação, quais poderes foram delegados ao agente, durante quanto tempo essa autorização é válida, quais valores podem ser movimentados e como comprovar posteriormente que a transação respeitou esses limites.
Isso aproxima o comércio agêntico de temas já conhecidos pelo setor de identidade digital e segurança: autenticação, autorização, credenciais, criptografia, tokenização e registros auditáveis.
No comércio eletrônico convencional, grande parte dessas decisões é tomada diretamente pelo consumidor diante de uma tela.
No comércio agêntico, parte delas poderá ser executada por software.
Por isso, a infraestrutura de confiança tende a se tornar tão importante quanto a própria inteligência do agente.
A iniciativa do Itaú sinaliza justamente esse próximo estágio. A questão deixa de ser apenas o que um agente de IA consegue recomendar e passa a incluir como permitir que ele participe de uma transação financeira sem romper as estruturas de segurança, controle e rastreabilidade que sustentam o sistema de pagamentos.
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