Em debate sobre a maturidade da IA nos negócios, cofundador da ZapSign analisa a corrida contra fraudes, o impacto dos agentes autônomos nas contratações e a transição da coleta de assinaturas para a camada de validação e emissão de identidade digital.
Por Redação Crypto ID
O debate sobre a aplicação da Inteligência Artificial no ambiente corporativo brasileiro ultrapassou em definitivo a fase dos discursos conceituais e das demonstrações pirotécnicas para ingressar no terreno da arquitetura operacional.

A transição do chamado hype para a geração concreta de valor de negócio exige agora das lideranças uma leitura pragmática sobre viabilidade, custos operacionais, riscos cibernéticos e sustentabilidade dos modelos de receita.
Durante o painel executivo “IA nas empresas: acabou o hype, começou a transformação”, promovido pelo Innovation Hub Show, Renato Rampazzo, cofundador da ZapSign, compartilhou uma análise aprofundada sobre essa virada de chave a partir da experiência prática de uma empresa nativa digital.
A ZapSign e a Liderança Compartilhada com Getúlio Santos
Fundada em 2020, a ZapSign consolidou-se como uma das principais referências em desburocratização de processos jurídicos e administrativos no ecossistema de legaltechs e SaaS no Brasil e na América Latina. A companhia ganhou projeção no mercado corporativo ao viabilizar a formalização de acordos com plena validade jurídica por meio de canais de mensageria de uso massivo, como o WhatsApp e o e-mail, reduzindo o tempo de fechamento de contratos para poucos minutos.
Ao longo de sua trajetória, a plataforma expandiu suas operações para além da assinatura eletrônica avançada, integrando-se à infraestrutura nacional de confiança ao atuar na emissão de certificados digitais, validação biométrica e gestão documental em nuvem.

Essa operação é liderada conjuntamente por Getúlio Santos, cofundador e atual CEO da ZapSign, e Renato Haidamous Rampazzo, é cofundador e CGO – Chief Growth Officer, função que assumiu voltada à expansão de mercado e crescimento da base de clientes.
Advogado de formação e empreendedor com longa trajetória na interseção entre direito e tecnologia, Getúlio Santos é o principal responsável pela condução estratégica, governança corporativa e expansão comercial da empresa, defendendo historicamente a tese de que a formalização eletrônica deve aliar extrema simplicidade de uso a uma blindagem jurídica irrepreensível.
Ao seu lado na fundação, Rampazzo, também formado em Direito, desenvolvedor autodidata e cofundador de outras iniciativas de tecnologia jurídica, como a Voe Tranquilo, foi o responsável por conceber os protótipos técnicos da ferramenta a partir da dor concreta de coletar assinaturas remotas de forma ágil.
Essa sinergia entre a liderança institucional e jurídica de Santos e a visão híbrida de produto e engenharia de Rampazzo confere à ZapSign uma base sólida para avaliar de que maneira a IA afeta simultaneamente o desenvolvimento de software e a integridade das transações digitais.
Na avaliação de Rampazzo, o desafio imposto pela IA opera atualmente em uma dinâmica de dupla camada. De um lado, no ambiente interno (in-house), o ganho de eficiência operacional e a automação de fluxos são etapas que ele já considera amplamente mapeadas e encaminhadas. De outro lado, a verdadeira disrupção se avizinha no ecossistema externo: no comportamento do consumidor, nas relações institucionais e na própria utilidade futura do artefato tradicional do contrato digital.
Nesta cobertura especial, o Crypto ID disseca as colocações de Renato Rampazzo, organizadas em torno da maturidade tecnológica, das diretrizes de letramento corporativo, da nova fronteira da cibersegurança contra deep fakes e do movimento estratégico que reposiciona a empresa da esteira de simples assinaturas para o núcleo crítico da infraestrutura de identidade.
1. A Curva de Maturidade Desigual: Cada Vertical em Seu Próprio Ciclo
Para contextualizar o estágio de adoção corporativa, Rampazzo utilizou o modelo teórico do Hype Cycle (popularizado pelo Gartner), estruturado a partir do gatilho da inovação, passando pelo pico das expectativas infladas, o qual também chamou de “monte estúpido”, caindo no vale da desilusão até alcançar a rampa do esclarecimento e o platô de produtividade.
A constatação central do executivo é que inexiste um estágio homogêneo de maturidade para a Inteligência Artificial. Diferentemente de tecnologias de infraestrutura básica, a IA se comporta de forma fragmentada, na qual verticais distintas e dores corporativas específicas encontram-se em fases opostas da curva:
- Na Rampa do Esclarecimento: Casos de uso como IA aplicada a suporte técnico especializado, desenvolvimento e refatoração de código-fonte e atendimento automatizado ao cliente. Nessas áreas, a tecnologia já superou as desconfianças iniciais, possui métricas claras de sucesso (resolução no primeiro contato, redução de tempo de resposta, ganhos de escala) e proporciona retorno financeiro imediato.
- No Vale da Desilusão: Aplicações de escopo genérico ou puramente criativo desprovidas de contexto profundo, como a geração automática de postagens e peças de marketing para redes sociais. Para Rampazzo, essas frentes ainda sofrem com expressiva rejeição e baixa assertividade qualitativa (“ainda não acertaram”). Ele apontou ainda que as ferramentas generativas de voz atingiram o topo de suas expectativas infladas por volta de 2025, ingressando posteriormente no processo natural de depuração do mercado.
A razão técnica para essa disparidade reside no fato de que os grandes modelos de linguagem (LLMs) generalistas não substituem a tomada de decisão executiva nem o julgamento humano contextual. “Você não consegue botar ela ali: ‘Ah, quero que essa IA seja o meu próximo CMO’”, ponderou o executivo.
Dessa forma, a aplicação bem-sucedida de IA assemelha-se aos projetos tradicionais de excelência e eficiência operacional: mapear fluxos de trabalho específicos e redesenhá-los com precisão, tratando um problema por vez.
Cultura Organizacional e Letramento: O Princípio da Liberdade Orientada a Resultados
Com um time de aproximadamente 250 colaboradores, a ZapSign opera dentro do espectro das organizações ágeis. Ao estruturar a governança para adoção de IA na empresa, Rampazzo aponta que a ZapSign adotou uma política desenhada para contornar tanto a burocracia excessiva quanto as armadilhas de métricas de vaidade.
A política de aculturamento interno sustentou-se sobre quatro pilares fundamentais:
- Orçamento Descentralizado para Experimentação: Em vez de instituir comitês lentos para homologação centralizada de softwares, a empresa concedeu uma verba direta de US$ 20 mensais para cada colaborador contratar a ferramenta que considerasse útil ao seu trabalho, sem exigência de justificativa prévia. O objetivo foi viabilizar a experimentação na ponta e acelerar a descoberta de ferramentas.
- Métricas Focadas em Valor e Eficiência, Não em Tokens: Rampazzo criticou ações que instituíram cotas mínimas obrigatórias de consumo computacional:
“Teve empresa que colocou meta de token por funcionário: os caras consumiam por consumir. […] Fiz mais linhas de código, beleza, mas você entregou mais valor?”
O executivo ressaltou a diferença elementar entre forçar a utilização cega de uma tecnologia e orientar a organização à entrega de resultados superiores com a ajuda dela.
- A Conscientização pelo Fim da Inércia: Fazendo um paralelo histórico com a popularização dos computadores e da internet, Rampazzo advertiu que a recusa em aprender as novas ferramentas cria um passivo profissional irreparável. A mensagem interna foi enfática: ninguém é especialista em algo recém-nascido, mas encarar a posição atual em que o colaborador está como um laboratório de aprendizado contínuo é o único escudo contra a obsolescência própria.
- Vibe Coding no Recrutamento como Filtro Eliminatório: A consolidação dessa cultura refletiu-se nos processos seletivos da companhia. A ZapSign instituiu uma etapa prática eliminatória em que candidatos a vagas de qualquer área — inclusive departamentos de negócios ou suporte — precisam conceber e colocar em funcionamento uma aplicação funcional através de vibe coding (programação assistida por IA em linguagem natural). O candidato que não demonstra aptidão para estruturar uma solução com o auxílio dessas ferramentas não avança no processo seletivo da empresa.
3. Cibersegurança e Mitigação de Fraudes: O Dilema da Aviação
Para as plataformas dedicadas à formalização de atos jurídicos e transações mercantis, o avanço tecnológico representa uma faca de dois gumes. Em um ecossistema como o brasileiro, notório pela capacidade de adaptação e criatividade aplicada a golpes e fraudes documentais, a segurança digital exige uma postura de permanente combate.
Rampazzo sintetizou o desafio recorrendo a uma analogia emblemática: “O brasileiro é muito criativo, inclusive para fraude. Então é corrida de gato e rato sempre. Uma nova tecnologia surge, é que nem você inventar o avião: você inventa o acidente de avião no momento seguinte. Toda tecnologia que surge a gente tem que correr atrás para mitigar.”
Com a democratização de algoritmos capazes de gerar clonagem de voz, manipulação de documentos de identificação e falsificação de biometria facial em tempo real (deep fakes), os métodos reativos de segurança tornaram-se insuficientes.
O executivo destacou que a indústria precisou avançar na esteira de contra-ataque analítico: hoje já se empregam técnicas forenses capazes de identificar marcadores estatísticos, padrões estruturais de imagem e até o modelo generativo específico utilizado para criar um determinado deep fake. Entretanto, como novas arquiteturas de redes neurais são lançadas e aprimoradas em ritmo contínuo, a salvaguarda de transações digitais tornou-se uma operação viva, exigindo investimentos diários em defesas cibernéticas.
A Virada Estratégica: Da Assinatura Eletrônica à Infraestrutura de Identidade
A sofisticação exponencial das ameaças provocou uma evolução profunda na própria tese corporativa da ZapSign. O executivo explicou que o ato isolado de rubricar um documento digital ou apor uma assinatura em uma tela perdeu relevância analítica frente ao que realmente confere validade jurídica e segurança às partes: “Hoje a gente olha para nós mesmos menos como assinatura eletrônica e mais como a questão de identidade.”
O valor central da formalização digital reside na capacidade técnica e comprobatória de atestar que o indivíduo que assina uma avença ou acessa uma aplicação é, indiscutivelmente, o titular daquela prerrogativa.
É exatamente dentro dessa perspectiva de soberania e autenticação inequívoca que se insere o movimento da ZapSign de passar a emitir também certificados digitais, categorizados por Rampazzo como uma manifestação consolidada e estruturante de identidade digital. Ao abraçar a emissão e validação de certificados, a empresa ultrapassa a simples coleta do aceite no final de uma transação e consolida-se como autoridade garantidora da credencial primária do usuário, pavimentando um caminho de conformidade e integridade criptográfica.
Eficiência Operacional Interna: Designers que Codam e Atendimento Autônomo
No contexto interno da ZapSign, a IA já reestruturou áreas vitais de desenvolvimento e suporte ao cliente:
- Escala Resolutiva no Suporte: Rampazzo confirmou que atualmente entre 70% e 80% de todos os chamados de atendimento recebidos pela plataforma são resolvidos de forma totalmente autônoma por agentes inteligentes, sem transbordo para atendentes humanos. Para ele, empresas de tecnologia que ainda relutam em adotar agentes autônomos no suporte ao cliente já estão irremediavelmente defasadas em custos e tempos de resposta.
- Fusão entre Design e Código Funcional: Na esteira de produto, o fluxo tradicional entre prototipação e engenharia foi totalmente redesenhado. Anteriormente, os designers de interface limitavam-se a desenhar fluxos de telas no Figma para posterior implementação pelos desenvolvedores. Hoje, com apoio de ferramentas inteligentes, o próprio designer entrega o front-end funcionando com código pronto. A missão do time de engenharia de software foi redirecionada para a governança: garantir padrões de segurança da informação, eficiência de banco de dados, arquitetura e escalabilidade daquele código entregue.
Comércio Agêntico: O Futuro da Contratação e a Sobrevivência do Documento
Apesar das vitórias computacionais dentro de casa, Rampazzo reservou a reflexão mais provocativa do painel para o impacto da tecnologia sobre as fundações do mercado corporativo no médio e longo prazo. Para o executivo, o dilema vital para fornecedores de software não é como incorporar algoritmos na rotina, mas antecipar se o serviço que a empresa comercializa continuará fazendo sentido para o consumidor pós-IA.
Provocando os demais executivos da mesa, que representavam setores tradicionais como varejo de bens duráveis e seguros, Rampazzo sintetizou o dilema com clareza: “Eu acho que as pessoas ainda vão precisar de móveis, de seguros, mas não sei se elas vão precisar de assinatura eletrônica na forma atual. Essa é a maior questão que a gente tem hoje: não internamente, isso tá resolvido, mas e fora? Como que o produto muda?”
A provocação aborda a ascensão iminente dos sistemas e agentes autônomos. Em um horizonte onde agentes de software realizem cotações, pesquisem fornecedores, decidam compras e contratem serviços diretamente em nome de pessoas físicas e jurídicas, liquidando transações via Pix, certificados digitais ou ativos criptográficos, a formalização contratual em formato PDF tradicional pode se tornar um intermediário redundante e excessivamente lento.
Nesse cenário de desintermediação documental, as empresas que se enxergam apenas como repositórios ou coletores de “assinaturas” correm sério risco de descontinuidade. Por outro lado, as companhias que constroem uma infraestrutura perene de identificação, credenciamento, verificação e emissão de identidade digital segura passam a atuar como os verdadeiros guardiões da camada de confiança na qual humanos e agentes irão transacionar.
Considerações Finais: Pragmatismo Contra as Estrelas Douradas
Em sua conclusão, Renato Rampazzo reiterou a importância de líderes e gestores filtrarem o ruído midiático inerente a momentos de transição tecnológica radical. A euforia cega costuma drenar capitais expressivos em experimentos sem fundamentação econômica.
“Estamos num momento de disrupção tecnológica. Muito desperdício vai ser feito, como em todas as outras bolhas que já tiveram. Alguma coisa vai ficar.”
O direcionamento compartilhado pelo executivo é priorizar o investimento de tempo, equipes e recursos nas verticais e fluxos em que a tecnologia já comprovou solidez, assertividade e retorno econômico tangível. Ao mesmo tempo em que a organização explora tais certezas, deve manter o olhar atento às transformações da demanda externa, reconhecendo que a tecnologia não redefine apenas como trabalhamos por dentro, mas principalmente a forma como as relações jurídicas e econômicas são firmadas no mundo digital.
Fonte: com informações colhidas do debate realizado no painel “IA nas empresas: acabou o hype, começou a transformação”, promovido pelo Innovation Hub Show Brasil em parceria com a Akamai e a participação da ZapSign.
Sobre a ZapSign

ZapSign é uma plataforma de assinatura eletrônica que permite a empresas e profissionais formalizar documentos com validade jurídica de forma simples, rápida e 100% digital. Fundada por advogados com o objetivo de democratizar o acesso à formalização digital, a empresa combina segurança jurídica com uma experiência intuitiva, alinhada à forma como as pessoas se comunicam hoje.
Atualmente, a ZapSign conta com mais de 5 milhões de usuários, já viabilizou a assinatura de mais de 70 milhões de documentos e está presente em 81 países, atendendo desde profissionais autônomos até empresas de diferentes portes e setores. Com a evolução para Autoridade Certificadora vinculada à ICP-Brasil, a ZapSign reforça seu posicionamento como uma das principais infraestruturas de confiança digital do Brasil, ampliando continuamente seus padrões de segurança sem abrir mão da simplicidade que a consolidou no mercado.
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