Cloud no Brasil ganha relevância na alta de custos, expansão da IA e desafios de previsibilidade financeira, soberania digital e infraestrutura
por Higor Franco, Diretor de Produto & Tecnologia da Locaweb
Se você perguntar a qualquer diretor de tecnologia no Brasil quanto vai gastar com nuvem em dezembro, ele provavelmente dará um número. E há boas chances de estar errado. Não por incompetência, mas porque as variáveis são muitas: consumo variável, diferentes itens de cobrança, custos fracionados em dólar, câmbio e impostos.
Debater cloud no Brasil deixou de ser apenas um assunto de engenharia. A infraestrutura passou a representar uma linha relevante no orçamento de empresas de diferentes portes. O que antes era uma decisão predominantemente técnica passou também a ocupar a planilha do CFO.
Os números ajudam a dimensionar essa pressão. De acordo com o Gartner, o gasto global com nuvem pública saltou de US$ 595,7 bilhões em 2024 para US$ 723,4 bilhões em 2025, alta de 21,5% em um ano. Com IA, essa pressão ganhou outra dimensão: dados do IDC mostram que os investimentos em infraestrutura para inteligência artificial mais que dobraram, de US$ 153 bilhões em 2024 para US$ 318 bilhões em 2025. Ao mesmo tempo, apenas 11% das organizações conseguem projetar seus gastos com IA com margem de erro de 10% ou menos, segundo levantamento da Harness e Mavvrik de 2026.
O fenômeno ajudou a consolidar uma disciplina própria: FinOps. Empresas passaram a dedicar profissionais e estruturas inteiras a compreender faturas, acompanhar consumo e buscar formas de otimizar o custo de operar em nuvem. É quase o equivalente corporativo de montar um time para entender e reduzir a conta de energia.
Então chegou a inteligência artificial, adicionando novas demandas de processamento e modelos de cobrança a uma infraestrutura que já era complexa. O problema não nasceu com a IA. Ela apenas tornou mais difícil ignorá-lo.
Quando eficiência de software encontra o custo da infraestrutura
O raciocínio mais fácil é atribuir à IA o aumento dos custos de infraestrutura. Mas ela tornou mais urgente uma pergunta que as empresas já deveriam fazer: estamos alocando esses recursos da melhor forma?
A engenharia de software está ganhando produtividade com IA, enquanto a infraestrutura necessária para sustentar essa transformação continua pressionando os orçamentos. O gasto médio mensal com IA nas empresas subiu 36% em um ano e 62% das organizações afirmam que uma surpresa relacionada a esses custos já alterou uma decisão de negócio, segundo levantamento da Mavvrik e Benchmarkit de 2026.
No Brasil, existe uma camada adicional. Quando parte relevante dessa infraestrutura é contratada em moeda estrangeira, a variação cambial também entra na equação. Prever o custo da inovação se torna, portanto, um desafio não apenas tecnológico, mas financeiro.
Na Locaweb, vivemos parte dessa discussão internamente. Ao longo dos anos, trabalhamos com parceiros de nuvem, práticas de FinOps e iniciativas de otimização de custos. Essa experiência nos levou a uma pergunta mais ampla: que alternativas poderiam tornar a infraestrutura mais previsível para empresas que desenvolvem e operam tecnologia no Brasil?
Foi a partir dessa discussão que nasceu o Locaweb Cloud, com infraestrutura local e precificação em reais. A Octadesk esteve entre as primeiras empresas a migrar parte de sua operação para o ambiente. Ao estruturar seu CDP (Customer Data Platform), a empresa avaliou alternativas internacionais e identificou uma diferença de custo próxima de 80% no cenário analisado.
O caso é específico, e não significa que essa diferença possa ser replicada em qualquer operação. Mas ajuda a ilustrar algo maior: em um mercado historicamente concentrado em grandes provedores globais, empresas brasileiras começam a ter mais alternativas para avaliar onde e como alocar suas cargas de trabalho.
E custo é apenas uma parte dessa decisão.
Soberania também entrou na discussão sobre cloud
À medida que dados e infraestrutura se tornam mais estratégicos, cresce também o debate sobre soberania digital. Saber fisicamente onde um dado está armazenado é apenas uma dimensão dessa discussão. Também importa compreender sob quais legislações e jurisdições os provedores responsáveis por esses dados operam.
O CLOUD Act dos Estados Unidos, por exemplo, estabelece mecanismos pelos quais autoridades norte-americanas podem requerer dados sob controle de provedores sujeitos à legislação do país, inclusive quando armazenados fora do território americano.
Para organizações de setores regulados, questões como jurisdição, proteção de dados, continuidade e portabilidade passam, portanto, a fazer parte da avaliação de infraestrutura ao lado de preço, desempenho e disponibilidade.
Isso não significa que exista uma arquitetura única para todas as empresas. Hyperscalers globais continuarão tendo papel importante no mercado, assim como ambientes híbridos, multicloud e provedores locais. A mudança está em deixar de tratar uma dessas alternativas como escolha automática.
Cloud voltou a ser uma decisão estratégica
Durante anos, a expansão da nuvem foi acompanhada pela ideia de que mais serviços e maior flexibilidade necessariamente significavam uma infraestrutura melhor. Hoje, com custos crescentes, IA ampliando a demanda computacional e dados assumindo papel cada vez mais crítico, essa equação precisa ser revista.
Para o time de engenharia, isso significa considerar não apenas capacidade técnica, mas também previsibilidade e portabilidade. Para o CFO, significa conseguir entender melhor quanto a infraestrutura pode custar. Para o CTO, significa avaliar quais cargas precisam estar em determinado ambiente e quais podem seguir outro caminho.
A discussão, portanto, não deveria ser sobre substituir a nuvem global pela nacional. É sobre recuperar a capacidade de escolha.
A IA tornou essa discussão mais urgente porque aumentou a velocidade com que empresas constroem, experimentam e consomem infraestrutura. Se o software pode ser criado mais rapidamente, a arquitetura que o sustenta também precisa ser pensada com mais disciplina.
Por muito tempo, parte do mercado tratou o modelo de infraestrutura como uma consequência quase automática das decisões de tecnologia. Isso está mudando. Em um cenário de IA, pressão de custos e maior preocupação com soberania, cloud volta a ser o que sempre deveria ter sido: uma decisão estratégica de negócio.
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