Elton Borgonovo, da Motorola Solutions, aborda como os presídios conectados integram tecnologias para detectar ameaças, coordenar respostas e proteger sistemas penitenciários contra ataques cibernéticos
A integração de inteligência artificial, câmeras com análise de vídeo, sensores, controle de acesso e comunicações críticas está ampliando as possibilidades de monitoramento e resposta a incidentes no sistema penitenciário.

Em entrevista ao Crypto ID, Elton Borgonovo, vice-presidente da Motorola Solutions para América Latina e Caribe, explica como o conceito de Presídio Conectado pode ajudar a identificar tentativas de entrada de objetos proibidos, monitorar perímetros e áreas restritas, detectar drones não autorizados e coordenar a atuação dos policiais penais.
A entrevista também aborda os desafios da cibersegurança em ambientes prisionais, os riscos de ataques capazes de comprometer sistemas operacionais e a importância de integrar tecnologias de diferentes fabricantes sem abrir mão da proteção de dados, da interoperabilidade e da continuidade das operações.
Leia a entrevista na íntegra!
Crypto ID: Vamos começar por um dos problemas mais críticos do sistema penitenciário: a entrada de celulares, drogas, armas e outros objetos não autorizados. Como um Presídio Conectado pode ajudar a identificar situações suspeitas no perímetro e orientar a resposta dos policiais penais?
Elton Borgonovo: A lógica do Presídio Conectado é integrar vídeo, comunicações críticas, sensores, controle de acesso e softwares em um mesmo ambiente operacional. Assim, informações que antes ficavam dispersas podem oferecer uma visão mais completa da unidade e apoiar a segurança das pessoas dentro e nos arredores dos presídios.
Em uma tentativa de entrada de objetos por arremesso sobre o muro, por exemplo, câmeras com recursos analíticos podem alertar o operador sobre uma intrusão ou atividade suspeita no perímetro. A equipe verifica as imagens e aciona os policiais penais conforme os procedimentos da unidade.
A integração entre vídeo, centro de comando e comunicações críticas ajuda a levar as informações disponíveis a quem precisa agir e a documentar a ocorrência. O benefício está em reduzir a dependência do acompanhamento manual de várias telas e oferecer mais contexto para a resposta das equipes.
Crypto ID: É possível ir além da detecção? Como a Motorola Solutions ajuda a transformar um alerta em uma resposta coordenada, e como essa atuação pode ser adaptada às necessidades de cada unidade prisional?
Elton Borgonovo: A atuação pode ser adaptada às necessidades de cada unidade. Algumas precisam reforçar a vigilância do perímetro, já outras precisam melhorar o controle da circulação ou a comunicação entre as equipes. A combinação de recursos deve acompanhar essas prioridades e os procedimentos da administração de cada penitenciária.
Ir além da detecção significa fazer com que a informação ajude a orientar uma ação. Para isso, os alertas precisam chegar aos profissionais responsáveis de uma forma que facilite a avaliação e a resposta.
Crypto ID: Drones passaram a representar outra possibilidade de entrada de celulares, drogas, armas e outros objetos. Como funciona, na prática, a proteção contra esse tipo de ameaça? Quais recursos podem apoiar a detecção, o acompanhamento e a resposta a um drone não autorizado nas proximidades de uma unidade prisional?
Elton Borgonovo: A proteção contra drones exige monitorar também o espaço aéreo próximo à unidade. Hoje, a Motorola Solutions ampliou essa capacidade com a aquisição da D-Fend, empresa especializada em tecnologias de defesa contra drones, que utiliza radiofrequência e técnicas de tomada de controle do equipamento (cyber takeover) para detectar, identificar e assumir de forma controlada drones considerados não autorizados, sem depender de interferência generalizada no espectro.
A aquisição amplia nosso portfólio, e a integração dessa tecnologia ao ecossistema de segurança pública faz parte dos planos da companhia. Para uma aplicação penitenciária, é necessário avaliar as características da unidade, os equipamentos atendidos pela solução e as autorizações aplicáveis.
Informações sobre um drone suspeito podem ajudar o centro de comando a avaliar a situação e orientar os procedimentos de resposta. Dependendo da tecnologia utilizada e das condições regulatórias, também é possível neutralizar a ameaça de forma direcionada.
Crypto ID: Como funciona a identificação de pessoas dentro desse ecossistema? Se um funcionário, visitante ou prestador estiver autorizado a entrar no presídio, mas não em determinada ala, é possível combinar identidade, biometria, reconhecimento facial, credenciais e controle de acesso para identificar automaticamente uma tentativa de entrada indevida e gerar um alerta em tempo real?
Elton Borgonovo: Um dos maiores ganhos de integrar controle de acesso e vídeo é associar os registros de entrada e saída às imagens do local, oferecendo mais informações para a equipe responsável. Os sistemas de acesso da Motorola Solutions também trabalham com permissões por local e credenciais e permitem ações e notificações baseadas em regras.
Uma pessoa pode estar autorizada a entrar na unidade, mas ter acesso permitido somente a determinadas áreas, horários ou atividades. O sistema de controle de acesso pode aplicar essas regras e gerar automaticamente um alerta quando uma credencial é utilizada fora da autorização prevista, conforme a configuração adotada. O vídeo acrescenta uma segunda camada de verificação, permitindo associar o evento a uma imagem.
Recursos adicionais, como biometria e reconhecimento facial, devem ser avaliados conforme a aplicação e os requisitos de tratamento dos dados. Identificar uma pessoa e definir quais espaços ela pode acessar são funções distintas, que precisam estar alinhadas aos procedimentos da instituição.
Crypto ID: Uma câmera detecta movimentação incomum em um pavilhão, um sensor identifica aumento brusco de ruído e um policial penal aciona uma emergência pelo rádio. Como a integração desses sinais ajuda o operador a avaliar se eles estão relacionados? Que ações podem ser configuradas para apoiar a resposta?
Elton Borgonovo: Quando esses sinais aparecem em ferramentas separadas, o operador precisa buscar as informações para entender o que está acontecendo. Ao reunir as imagens, o alerta do sensor e a comunicação do policial penal, ele consegue avaliar a situação com mais rapidez e coordenar a resposta.
As regras configuradas podem, por exemplo, apresentar as câmeras relacionadas à área e encaminhar alertas aos rádios das equipes responsáveis. O operador verifica as informações, define as prioridades e orienta a atuação dos policiais penais. A integração reduz o tempo dedicado à busca de dados e facilita a comunicação durante a ocorrência.
Crypto ID: Até onde chega hoje a inteligência artificial nesse ambiente? Ela apenas alerta o operador ou pode, a partir de regras previamente definidas, direcionar câmeras, acompanhar uma pessoa ou veículo, acionar dispositivos, localizar agentes próximos, enviar informações aos rádios e organizar automaticamente as evidências relacionadas ao incidente?
Elton Borgonovo: A inteligência artificial ajuda a direcionar a atenção dos operadores para situações que merecem verificação. Nossas tecnologias oferecem recursos como classificação de pessoas e veículos, identificação de atividades incomuns e busca por aparência, que facilitam tanto o acompanhamento quanto a análise das imagens.
Combinados à automação, esses recursos podem apresentar imagens relacionadas a um alerta e encaminhar informações às equipes. Outras funções, como acompanhamento automático por câmeras e localização de agentes, variam conforme os equipamentos e as integrações utilizados.
Nosso foco é reduzir o trabalho repetitivo e apoiar o julgamento dos profissionais. A tecnologia ajuda a encontrar e organizar informações; a avaliação da ocorrência e a decisão sobre a intervenção permanecem com as equipes.
Crypto ID: Quanto maior a integração, maior também a superfície de ataque. Unidades prisionais em outros países já tiveram sistemas afetados por ataques cibernéticos, inclusive com indisponibilidade de câmeras, bancos de dados e outros recursos operacionais. Pela experiência de vocês nesse segmento, que tipo de ataque a uma prisão mais preocupa o sistema prisional brasileiro hoje? ransomware, roubo de dados, invasão dos sistemas de controle ou tentativa de interromper as comunicações? E qual poderia ser o objetivo de um criminoso ao comprometer digitalmente uma unidade prisional?
Elton Borgonovo: Do ponto de vista da segurança cibernética em um Presídio Conectado, a maior preocupação não é apenas a perda de dados confidenciais, mas também o risco de paralisação da infraestrutura, impedindo a atuação dos policiais penais. Ataques do tipo ransomware podem sequestrar servidores e causar interrupções de serviço por semanas, desestabilizando a rotina da unidade prisional. Da mesma forma, um eventual vazamento de dados poderia comprometer a confiabilidade e a reputação de toda a instituição de segurança pública.
Independentemente da tática utilizada pelo criminoso, seja extorsão financeira, roubo de dados ou interrupções generalizadas, o impacto final é a desestabilização da unidade penitenciária. Por isso, a proteção cibernética deve combinar fatores como prevenção, detecção de ameaças 24×7 e uma rápida capacidade de resposta e recuperação, para que a unidade prisional continue atuando com todos os recursos necessários para as suas operações.
Crypto ID: Como a Motorola Solutions incorpora a cibersegurança ao desenvolvimento de suas tecnologias e à integração dos sistemas em uma unidade prisional? Como essa abordagem contribui para proteger as informações e a continuidade da operação?
Elton Borgonovo: Para a segurança pública, confiar na tecnologia é essencial, porque os policiais penais precisam saber que podem contar com as comunicações, imagens e demais dados do sistema durante uma ocorrência. Por isso, na Motorola Solutions, aplicamos o conceito de Security by Design, incorporando a cibersegurança desde a concepção de nossos produtos até as fases finais de implementação e manutenção.
Essas atividades envolvem práticas como avaliações de riscos e testes de penetração antes e durante a fase de implementação da solução. Dessa forma, os riscos são encontrados, documentados e devidamente mitigados. Esse cuidado continua ao longo do ciclo de vida da solução com identificação de vulnerabilidades, atualizações de segurança e do sistema de detecção e resposta à incidentes por meio da plataforma MDR (Managed Detection and Response) – ActiveEye. Seguimos padrões reconhecidos internacionalmente para orientar esse trabalho, já que proteger a operação também exige proteger os sistemas e os dados que a sustentam.
No ambiente penitenciário, essa responsabilidade também envolve a forma como as tecnologias são utilizadas, para avaliar quem tem acesso às informações, quais permissões são concedidas e como a segurança do sistema é mantida de acordo com as melhores práticas da indústria. A integração precisa vir sempre acompanhada desses cuidados para ampliar a capacidade das equipes de atuar com eficiência.
Crypto ID: Um Presídio Conectado precisa necessariamente utilizar tecnologias da Motorola Solutions ou pode aproveitar sistemas existentes e incorporar tecnologias de outros fabricantes? Quais cuidados permitem ampliar essa integração com segurança?
Elton Borgonovo: O Presídio Conectado pode incorporar tecnologias de diferentes fabricantes e aproveitar investimentos já realizados, considerando a compatibilidade entre os sistemas. Essa flexibilidade é importante porque cada unidade tem uma infraestrutura e necessidades próprias. O caminho é identificar como os recursos disponíveis podem trabalhar juntos para melhorar a operação.
Para isso, a interoperabilidade deve vir sempre acompanhada de segurança combinando controles técnicos como autenticação multifator e criptografia com avaliações de riscos recorrentes e sistema de detecção de intrusões 24×7 por meio da plataforma ActiveEye. Cada conexão do sistema deve ter uma finalidade clara e apenas compartilhar os dados estritamente necessários. Dessa forma, a interoperabilidade aliada à cibersegurança expande a capacidade de resposta dos policiais penais sem comprometer a integridade dos dados ou a continuidade das operações.
Crypto ID: Para entendermos concretamente o alcance dessa tecnologia: imagine uma unidade com todo o ecossistema integrado. Quais ameaças ela conseguiria detectar hoje que provavelmente passariam despercebidas em um presídio convencional? Poderia descrever alguns exemplos reais ou realistas, desde a identificação inicial do risco até a resposta dos agentes e a preservação das evidências?
Elton Borgonovo: No Espírito Santo, a Secretaria da Justiça está modernizando o monitoramento do perímetro de dez unidades prisionais com câmeras e softwares analíticos da Motorola Solutions. Os recursos de IA ajudam a destacar intrusões e movimentações suspeitas para os operadores.
Imagine alguém entrando em uma área restrita próxima ao muro durante a madrugada. O sistema pode gerar um alerta para que o operador verifique as imagens e oriente os policiais penais. Outro exemplo é uma tentativa de acesso a uma ala com uma credencial sem autorização, que pode ser verificada com apoio do vídeo.
Os registros dessas ocorrências e, em operações que utilizem bodycams, as imagens da intervenção ajudam a esclarecer o que aconteceu. Esse é o benefício da integração: identificar riscos mais rapidamente, apoiar a atuação dos profissionais e documentar as operações para proteger as pessoas.
Agradecimento
O Crypto ID agradece a Elton Borgonovo, vice-presidente da Motorola Solutions para América Latina e Caribe, pela disponibilidade e pela contribuição para esta entrevista. Suas perspectivas sobre o conceito de Presídio Conectado, a integração de tecnologias de monitoramento e inteligência artificial e os desafios da cibersegurança no sistema penitenciário contribuem para ampliar o debate sobre o uso da tecnologia na segurança pública.
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