Ping An registra precisão superior a 96% e HSBC testa defesas biométricas. HKMA estabelece novas diretrizes para IA, enquanto especialista brasileiro em GIA alerta para riscos à segurança das identidades digitais
Os bancos de Hong Kong estão ampliando o uso de inteligência artificial para detectar deepfakes e combater fraudes de identidade digital. Os resultados de testes realizados no GenA.I. Sandbox, ambiente experimental supervisionado pela Autoridade Monetária de Hong Kong (HKMA), indicam avanços nas tecnologias de reconhecimento facial e identificação de imagens sintéticas.
O Ping An Digital Bank reportou precisão superior a 96% em sua plataforma de detecção de fraudes, enquanto o HSBC informou que aproximadamente 20 tentativas de deepfake utilizadas em seus testes não conseguiram superar os mecanismos de proteção avaliados.
Os resultados foram divulgados em reportagem publicada pelo Biometric Update em 19 de outubro de 2026
O movimento acontece em um momento de transformação da segurança bancária. Em 15 de outubro, a HKMA anunciou novas diretrizes para a adoção responsável de inteligência artificial, ampliando a discussão sobre governança, resiliência operacional e controle dos sistemas que utilizam IA.
Ping An e HSBC colocam a biometria facial à prova
O Ping An Digital Bank desenvolveu, em parceria com a OneConnect Financial Technology, uma plataforma antifraude que utiliza inteligência artificial e reconhecimento facial para identificar imagens manipuladas ou produzidas artificialmente durante os processos de verificação de identidade.
A plataforma alcançou precisão superior a 96% nos testes divulgados, demonstrando o potencial da IA para identificar tentativas de uso de selfies sintéticas na autenticação de clientes.
O HSBC também avaliou mecanismos de detecção de deepfakes e informou que nenhuma das aproximadamente 20 tentativas utilizadas nos testes conseguiu contornar seus controles de segurança.
Embora os resultados sejam positivos, as informações publicadas não detalham suficientemente os métodos empregados, as características das amostras ou as taxas de falsos positivos e falsos negativos.
Isso significa que os índices apresentados não devem ser interpretados como garantia de proteção equivalente diante de ataques realizados em ambientes bancários reais.
Biometria e prova de vida ganham importância na autenticação
O crescimento das fraudes produzidas com inteligência artificial tem levado instituições financeiras a ampliar suas estratégias de verificação de identidade.
O reconhecimento facial permite comparar características biométricas, enquanto os mecanismos de detecção de vivacidade, conhecidos como liveness detection, procuram verificar se a apresentação biométrica corresponde a uma pessoa real, e não a uma fotografia, máscara ou vídeo utilizado fraudulentamente.
Entretanto, essas tecnologias não eliminam todos os riscos.
Os ataques de injeção digital, por exemplo, podem introduzir imagens e vídeos fraudulentos diretamente no fluxo de captura, exigindo controles específicos para proteger a integridade da origem e da transmissão dos dados biométricos.
A combinação de reconhecimento facial, detecção de apresentação fraudulenta, proteção contra injeção digital e monitoramento de transações ganha relevância diante da sofisticação dos ataques.
Fraude de US$ 25 milhões expôs os riscos da personificação digital
Um dos episódios mais conhecidos envolvendo deepfakes em Hong Kong ocorreu em 2024, quando um funcionário da empresa de engenharia Arup realizou transferências de aproximadamente US$ 25 milhões após participar de uma videoconferência com representações sintéticas de executivos da companhia.
O caso demonstrou como a falsificação de identidades pode comprometer processos de autorização financeira mesmo quando as vítimas acreditam estar interagindo com pessoas conhecidas.
A ameaça ultrapassa a abertura fraudulenta de contas. Também envolve a manipulação de decisões corporativas, o uso indevido de credenciais e a execução de pagamentos autorizados com base em identidades falsificadas.
HKMA reúne bancos e empresas de tecnologia para testar inteligência artificial
O GenA.I. Sandbox foi lançado em 2024 pela HKMA, em parceria com a Hong Kong Cyberport Management Company Limited.
A iniciativa oferece um ambiente controlado para que instituições financeiras e empresas de tecnologia experimentem aplicações de inteligência artificial antes de sua adoção em maior escala.
A segunda rodada reuniu 27 projetos, envolvendo 20 bancos e 14 parceiros tecnológicos, selecionados entre mais de 60 propostas.
Os projetos contemplaram prevenção de fraudes, atendimento ao cliente, eficiência operacional e aplicações de inteligência artificial generativa.
Em 16 de outubro de 2026, Carmen Chu, diretora executiva de Supervisão Bancária da HKMA, apresentou resultados da segunda rodada durante o Finance + A.I. Forum.
Entre os avanços divulgados pela autoridade estão:

- Redução de 40% no tempo de integração de clientes em um banco, associada a mecanismos mais eficientes de detecção de fraudes.
- Redução de aproximadamente 30% na capacidade computacional necessária para aplicações comparáveis às da primeira rodada.
- Duplicação da participação de aplicações multimodais, capazes de trabalhar com imagem, áudio e vídeo.
- Mais de 60% dos casos de uso envolvendo agentes de IA, dos quais metade correspondeu a aplicações multiagentes.
Os resultados mostram que os testes ultrapassaram a utilização tradicional da inteligência artificial como ferramenta de análise e passaram a explorar sistemas capazes de planejar e executar atividades em múltiplas etapas.
Hong Kong estabelece diretrizes para governança e segurança da IA bancária
Em 15 de outubro de 2026, a HKMA anunciou o framework ART, sigla para Accountability, Resilience and Trust, ou Responsabilização, Resiliência e Confiança.
A iniciativa estabelece uma estrutura para apoiar a adoção responsável de inteligência artificial no setor bancário de Hong Kong.
O modelo está organizado em três pilares
A autoridade também prevê novos experimentos envolvendo agentes autônomos no GenA.I. Sandbox++, além de estudos sobre a identificação, o registro e a supervisão de agentes de inteligência artificial utilizados pelas instituições financeiras.
Segundo Arthur Yuen, vice-presidente executivo da HKMA, a evolução da inteligência artificial generativa para sistemas agênticos representa uma nova etapa de inovação bancária, que exige responsabilidade claramente definida, operações resilientes e supervisão humana eficaz.
Governança de Identidades e Acessos torna-se essencial diante dos ataques com IA
A transformação observada no setor financeiro de Hong Kong também evidencia uma questão que ultrapassa a detecção de imagens e vídeos sintéticos.
A inteligência artificial pode ser utilizada por criminosos para ampliar a capacidade de reconhecimento de ambientes tecnológicos, identificar possíveis vulnerabilidades, explorar credenciais comprometidas e descobrir caminhos para acessar sistemas corporativos.
Uma vez obtidas credenciais legítimas, os invasores podem tentar movimentar-se entre aplicações, elevar privilégios e comprometer informações, serviços e operações.
Esse cenário reforça a importância da Governança de Identidades e Acessos (GIA), responsável por estabelecer controles sobre identidades humanas e não humanas, permissões, privilégios e processos de autorização.
A preocupação se estende a instituições financeiras, organizações de saúde, ambientes industriais de tecnologia operacional (OT) e empresas de outros segmentos.

“Embora os casos de fraudes em instituições financeiras recebam maior atenção da mídia, principalmente porque os prejuízos podem ser quantificados rapidamente, os riscos associados ao uso malicioso da inteligência artificial atingem praticamente todos os setores. A IA amplia a capacidade dos criminosos de identificar vulnerabilidades, descobrir caminhos para comprometer identidades digitais, obter credenciais legítimas e utilizá-las para invadir sistemas, assumir privilégios e executar fraudes ou ataques de extorsão. Esse cenário se aplica igualmente a instituições de saúde, ambientes industriais de tecnologia operacional (OT) e empresas de diferentes segmentos. Por isso, a Governança de Identidades e Acessos assume um papel cada vez mais estratégico”, avalia Eduardo Ostos, diretor de Operações da NetAdmin.
Segundo o especialista, os impactos de um incidente de segurança não se limitam aos prejuízos financeiros imediatos. Interrupções operacionais, perda de reputação, comprometimento da confiança de clientes e desaceleração do crescimento empresarial também precisam ser considerados na avaliação dos riscos.
Segurança bancária dependerá da proteção contínua das identidades
Os experimentos realizados em Hong Kong demonstram uma mudança na forma como as instituições financeiras estão enfrentando a evolução das fraudes digitais.
A detecção de deepfakes ganha importância nos processos de autenticação, mas precisa integrar uma estratégia mais abrangente, que contemple proteção de credenciais, governança de acessos, acompanhamento de privilégios e verificação contínua das atividades realizadas nos sistemas.
A chegada dos agentes autônomos de inteligência artificial amplia essa necessidade, pois esses sistemas podem receber permissões para acessar dados, utilizar ferramentas e executar operações.
“Os testes realizados pelos bancos de Hong Kong demonstram que a inteligência artificial está se tornando uma ferramenta importante para combater fraudes produzidas com a própria IA. Entretanto, identificar um deepfake é apenas uma parte do desafio. A segurança das instituições financeiras depende também da capacidade de governar identidades, controlar privilégios e monitorar continuamente o uso de credenciais legítimas, inclusive por sistemas e agentes de inteligência artificial. Uma identidade comprometida pode permitir que um invasor ultrapasse diversas camadas de proteção sem necessariamente despertar suspeitas imediatas. Por isso, iniciativas como a da Autoridade Monetária de Hong Kong são relevantes, pois apontam para a necessidade de integrar inovação tecnológica, prevenção de fraudes e Governança de Identidades e Acessos. O futuro da segurança bancária dependerá não apenas de reconhecer quem está acessando um sistema, mas de verificar continuamente o que essa identidade está autorizada a fazer e se suas ações são legítimas”, conclui Elson Condor.
Os avanços apresentados em Hong Kong reforçam que a segurança digital precisa evoluir na mesma velocidade das ameaças impulsionadas pela inteligência artificial. Mais do que detectar fraudes, o desafio das organizações será garantir a proteção contínua das identidades, a legitimidade dos acessos e a confiança nas operações digitais.
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