Onda de vazamentos leva o Japão a falar em emergência cibernética; Coreia do Sul e EUA também elevam alertas
Um ataque de ransomware que atingiu 495 organizações em 7 de outubro, somado a vazamentos em mais de 20 grandes empresas, levou o partido governista do Japão a falar em “estado de emergência no ciberespaço” no dia 9. Em 23 de outubro, a primeira-ministra Sanae Takaichi anunciou nova estrutura de comando contra ataques.
A expressão foi usada em 9 de outubro por Masaaki Taira, chefe da Sede de Estratégia Nacional de Cibersegurança do Partido Liberal Democrata (PLD), durante uma reunião de emergência.
No mesmo dia, o Escritório Nacional de Cibersegurança enviou instruções a ministérios, governos locais e empresas para reforçar suas defesas. Dois dias antes, em 7 de outubro, um ransomware havia atingido a IDC Frontier, subsidiária de nuvem da SoftBank, afetando 495 clientes entre empresas e governos locais.
Nas semanas anteriores, Times Car, JR East, Lawson, Daiwa Securities e Bookoff já tinham comunicado vazamentos de dados de clientes. Só a Times Car teve cerca de 6,6 milhões de contas afetadas.
“Os ataques estão cada vez mais sofisticados”, afirmou o ministro da Transformação Digital, Toshiharu Furukawa, em tradução livre.
Em 23 de outubro, a primeira-ministra Sanae Takaichi foi além. Segundo a agência Jiji Press, ela declarou que “a situação é urgente, e a preocupação pública chegou a um nível muito mais grave do que antes” e anunciou uma estrutura de coordenação liderada pelo gabinete do primeiro-ministro, com o Escritório Nacional de Cibersegurança como centro de comando.
O caso da IDC Frontier é o mais grave.
Entre as consequências, a Nissui Logistics teve seu sistema logístico paralisado em 17 unidades, e sites da Prefeitura de Ibaraki saíram do ar. É o retrato do risco de concentração: quando um provedor de infraestrutura cai, centenas de organizações caem junto.
Uma tendência, não um caso isolado
Os números da Polícia Nacional do Japão mostram que o problema vem crescendo.
Foram 123 incidentes de ransomware registrados apenas no primeiro semestre de 2026, um recorde.
A Agência de Serviços Financeiros (FSA), órgão regulador financeiro do país, passou a orientar os bancos a aceitar apenas documentos com chip, como passaportes e o cartão My Number, na verificação de identidade de clientes.
É uma resposta direta ao uso de imagens de documentos roubados em fraudes.O papel da inteligência artificial ainda é hipóteseParte da cobertura internacional atribui a onda de ataques ao uso de inteligência artificial (IA) pelos criminosos.
O próprio Taira falou em ataques de saturação ampliados por IA. A tese, porém, ainda não tem comprovação técnica.
Especialistas ouvidos pelo Japan Times afirmaram não haver provas concretas de que a IA tenha orientado os ataques, e nenhum grupo reivindicou os incidentes. Até agora, as autoridades japonesas também não atribuíram a autoria a nenhum ator estatal ou criminoso.
O que os especialistas apontam é uma mudança de custo. Segundo Paul Ziegler, da empresa de segurança Reflare, os grandes modelos de linguagem (LLMs) estão derrubando drasticamente o custo dos ataques, que antes dependia da disponibilidade de hackers qualificados.
A IA também ajuda a produzir iscas de phishing em japonês fluente, uma barreira linguística que historicamente protegia o país.Coreia do Sul eleva o nível de alerta
O Japão não está sozinho
Nesta semana, o Ministério da Ciência e Tecnologia da Informação e Comunicação (MSIT) da Coreia do Sul elevou o alerta de crise cibernética do setor privado de “interesse” para “atenção”, o segundo de quatro níveis.
O anúncio foi feito pelo vice-primeiro-ministro e ministro Bae Kyung-hoon. O motivo foram duas vulnerabilidades graves no PHP que permitem executar comandos em servidores remotamente, sem login.
A Agência Coreana de Segurança na Internet (KISA) ativou seus sistemas de resposta a emergências, e o governo enviou comunicado urgente a cerca de 28 mil empresas, provedores de hospedagem e data centers.
Estados Unidos e Europa alertam para o SafePay
Em 20 de outubro, a Agência de Segurança Cibernética e de Infraestrutura dos Estados Unidos (CISA), o FBI e agências da Alemanha e do Reino Unido publicaram um alerta conjunto sobre o ransomware SafePay.
Segundo o documento, o grupo já comprometeu pelo menos 600 organizações de infraestrutura crítica desde agosto de 2024, inclusive na América do Sul.
As portas de entrada são conhecidas: credenciais expostas, ataques de força bruta a senhas, acessos por VPN e falhas em dispositivos de borda.
Entre as recomendações estão autenticação multifator em todas as contas, gestão rigorosa de identidades e acessos e backups offline, criptografados e imutáveis.
Coincidência ou orquestração?
Nas redes sociais, a sucessão de incidentes ganhou o rótulo de “Outubro Negro”.
O termo, porém, não aparece em nenhum alerta oficial, e nenhuma autoridade estabeleceu ligação entre os ataques no Japão, a crise do PHP e as campanhas do SafePay.
O Crypto ID mantém a cautela: o que os fatos mostram, até aqui, é uma convergência de vulnerabilidades críticas, credenciais vazadas e ferramentas de ataque mais baratas, e não uma ofensiva coordenada comprovada.
O que isso significa para o Brasil
O cenário asiático serve de espelho. Segundo o Relatório de Cibersegurança 2026 da Brasscom, 141 organizações brasileiras foram atingidas por ransomware em 2025, o maior número da América Latina.
O mesmo estudo mostra que o país destina apenas 6,4% do orçamento de tecnologia da informação (TI) à segurança, abaixo da referência internacional de 8% a 12%.
No campo regulatório, o Japão mostra para onde o debate caminha. Desde 1º de outubro, o governo japonês pode adotar medidas de “neutralização de acesso” com base em sua nova lei de defesa cibernética ativa. Ao mesmo tempo, o país endurece a verificação de identidade no sistema financeiro.
A lição para empresas e governos brasileiros é que a resiliência não depende apenas de corrigir falhas, mas de saber, a cada momento, quem acessa o quê.
A pergunta que fica é se o Brasil vai se antecipar ou esperar o seu próprio outubro.








