Terceira edição das publicações voltadas a crianças, responsáveis e educadores aborda deepfakes, classificação indicativa e ferramentas de IA que simulam amizades
O uso da inteligência artificial (IA) por crianças e adolescentes traz novos desafios para a segurança digital. Entre eles estão a utilização de chatbots em atividades escolares sem a verificação das informações, o compartilhamento de dados pessoais com sistemas de IA e as interações com ferramentas capazes de simular amizades. Esses temas estão entre as novidades da terceira edição dos guias Internet Segura, produzidos pelo Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de Segurança no Brasil (CERT.br), do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br).
As publicações são gratuitas e serão lançadas nesta quinta-feira (29), durante o 11º Simpósio Crianças e Adolescentes na Internet, em São Paulo. A atualização contempla duas versões: uma destinada a crianças de 8 a 12 anos e outra voltada a mães, pais, responsáveis e educadores.
A revisão considera, entre outros aspectos, as diretrizes do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital, Lei nº 15.211/2025), em vigor desde março de 2026, além das transformações ocorridas no ambiente digital desde a publicação da primeira edição, em 2017, e da segunda, em 2022.
A dimensão do desafio é evidenciada pela pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, conduzida pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), do NIC.br. Segundo o levantamento, 92% dos brasileiros de 9 a 17 anos utilizam a Internet, o equivalente a 24,5 milhões de pessoas. Quase dois terços dos usuários dessa faixa etária já recorreram à inteligência artificial generativa para estudar, criar conteúdos ou conversar sobre emoções.

“Desde a primeira edição, acompanhamos mudanças na forma como crianças utilizam a Internet. O ECA Digital traz novas diretrizes para a proteção desse público, enquanto tecnologias como a inteligência artificial apresentam situações que precisam ser compreendidas por todos. Com essa revisão, oferecemos informações que ajudam as famílias a lidar com essas transformações e a fazer escolhas mais seguras”, afirma Miriam von Zuben, analista de segurança do CERT.br responsável pela publicação e uma das especialistas da pesquisa TIC Kids Online Brasil.
Inteligência artificial: dos estudos às amizades virtuais
Uma das principais novidades do guia “Internet Segura: Divirta-se e aprenda a usar a Internet de forma segura!” é a inclusão de orientações sobre o uso da inteligência artificial generativa em situações cotidianas.
O conteúdo aborda a utilização de chatbots em pesquisas e tarefas escolares e destaca a importância de tratar essas ferramentas como apoio aos estudos, verificar a precisão das respostas e elaborar trabalhos com as próprias palavras.
As interações com sistemas de IA capazes de simular conversas e assumir o papel de amigos ou companheiros também são contempladas. O material alerta que essas ferramentas não são pessoas, podem fornecer informações incorretas e influenciar seus usuários. Por isso, recomenda cautela no compartilhamento de informações pessoais durante as conversas.
Outro tema abordado são os deepfakes, imagens, áudios e vídeos criados ou modificados com o uso de IA que podem parecer reais. As orientações incentivam as crianças a questionar a autenticidade dos conteúdos encontrados na Internet e a procurar um adulto de confiança quando tiverem dúvidas ou se sentirem desconfortáveis.
O guia também trata de publicidade disfarçada e proteção de dados. Além disso, aborda a classificação indicativa de jogos e aplicativos, que passou a incluir a faixa de 6 anos e considera, entre seus critérios, a possibilidade de interação com assistentes de IA. O objetivo é ajudar as crianças a reconhecer riscos e adotar práticas mais seguras no ambiente digital.
Os dados da TIC Kids Online Brasil 2025 reforçam a presença da IA na rotina desse público. Segundo a pesquisa, 59% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos utilizam inteligência artificial generativa para pesquisas escolares ou estudos; 42% recorrem à tecnologia para buscar informações; 21% a utilizam para criar conteúdos, como textos, imagens, vídeos ou códigos de programação; e 10% conversam com essas ferramentas sobre problemas pessoais ou emoções.
Orientações para adultos incluem sharenting e resposta a incidentes
A versão “Internet Segura – para seus filhos: Sua participação é muito importante!” também recebeu atualizações. Entre elas estão a ampliação da seção “Conheça os riscos” e a inclusão de um novo capítulo, “Conheça o ambiente digital dos seus filhos”, que incentiva pais e responsáveis a conhecer os aplicativos, as plataformas e os serviços utilizados pelas crianças.
O material recomenda verificar a classificação indicativa dos conteúdos, conhecer os recursos de proteção disponíveis e revisar as configurações de privacidade dos ambientes digitais frequentados pelos mais jovens.
Outra atualização aprofunda o tema do sharenting, termo utilizado para descrever o compartilhamento de fotos, vídeos e informações sobre crianças pelos próprios familiares. Embora o assunto já estivesse presente nas edições anteriores, a nova versão amplia a discussão sobre os riscos à privacidade, à segurança e à imagem infantil, especialmente quando a exposição envolve interesses comerciais.
A publicação também orienta os adultos a estabelecer limites adequados à idade, acompanhar as atividades digitais e respeitar o desenvolvimento da autonomia das crianças. O uso de mecanismos de supervisão parental é recomendado em conjunto com o diálogo sobre os conteúdos acessados, as interações online e as experiências vivenciadas na Internet.
Outra novidade é a seção “Aconteceu um problema? Saiba o que fazer”, que apresenta orientações para acolher as crianças, preservar evidências, proteger contas e procurar os canais de denúncia adequados a cada situação.
Entre os canais mencionados estão as próprias plataformas digitais, o Disque 100, a SaferNet Brasil, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) e a Ouvidoria do Ministério da Justiça e Segurança Pública. A escolha do canal deve considerar a natureza da ocorrência e a área de atuação de cada instituição.
As recomendações reforçam que o acompanhamento familiar não deve se limitar ao tempo de exposição às telas. Também é importante observar a qualidade das atividades realizadas e seus possíveis efeitos sobre a rotina, o sono, os estudos e a convivência familiar.
“Estabelecer limites de tempo de tela é importante, mas também é preciso compreender o que as crianças fazem quando estão conectadas. O diálogo, o exemplo dos adultos e o acompanhamento adequado a cada fase do desenvolvimento contribuem para que elas construam autonomia e senso crítico”, ressalta Miriam von Zuben.
Acesso gratuito aos guias
As publicações Internet Segura são voltadas à orientação de crianças, famílias e educadores sobre o uso seguro e responsável da Internet. Com a atualização, o CERT.br amplia o conteúdo dedicado aos desafios associados à inteligência artificial e às mudanças no ambiente digital, oferecendo recomendações práticas para a prevenção de riscos e a promoção da segurança online.
Sobre o CERT.br
O Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de Segurança no Brasil é um Grupo de Resposta a Incidentes de Segurança (CSIRT) de responsabilidade nacional de último recurso, mantido pelo NIC.br. Sua missão é aumentar os níveis de segurança e de capacidade de tratamento de incidentes das redes conectadas à Internet no País. Para atingir esse objetivo, além de atividades de tratamento a incidentes, o Centro também investe na conscientização sobre os problemas de segurança, no auxílio ao estabelecimento de novos CSIRTs no Brasil e no aumento da consciência situacional sobre ameaças na Internet, sempre respaldados por uma forte integração estabelecida com as comunidades nacional e internacional de CSIRTs.
Sobre o Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br)
O Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR — NIC.br é uma entidade civil de direito privado e sem fins de lucro, encarregada da operação do domínio .br, bem como da distribuição de números IP e do registro de Sistemas Autônomos no País. O NIC.br implementa as decisões e projetos do Comitê Gestor da Internet no Brasil – CGI.br desde 2005, e todos os recursos arrecadados provêm de suas atividades que são de natureza eminentemente privada. Conduz ações e projetos que trazem benefícios à infraestrutura da Internet no Brasil
Sobre o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br)
O Comitê Gestor da Internet no Brasil, responsável por estabelecer diretrizes estratégicas relacionadas ao uso e desenvolvimento da Internet no Brasil, coordena e integra todas as iniciativas de serviços Internet no País, promovendo a qualidade técnica, a inovação e a disseminação dos serviços ofertados. Com base nos princípios do multissetorialismo e transparência, o CGI.br representa um modelo de governança da Internet democrático, elogiado internacionalmente, em que todos os setores da sociedade são partícipes de forma equânime de suas decisões.
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