Algoritmos tradicionais, como RSA e aqueles baseados em curvas elípticas, poderão ser comprometidos por computadores quânticos suficientemente poderosos, caso essas máquinas alcancem a capacidade necessária para executar ataques criptograficamente relevantes.
Isso não significa que os sistemas atuais já estejam vulneráveis a ataques quânticos dessa natureza.
Entretanto, o tempo necessário para substituir tecnologias amplamente utilizadas exige planejamento antecipado. A migração envolve servidores, aplicações, equipamentos de rede, dispositivos, sistemas legados, serviços em nuvem e diferentes fornecedores.
A DigiCert defende que as organizações priorizem a transição para tecnologias resistentes à computação quântica e acelerem a modernização de suas infraestruturas de certificados digitais.
A questão central é que não basta possuir algoritmos pós-quânticos disponíveis se a infraestrutura não consegue incorporá-los, administrá-los e substituí-los com segurança.
A capacidade de identificar dependências criptográficas, automatizar o ciclo de vida dos certificados e substituir algoritmos com segurança poderá determinar quais organizações estarão preparadas para a próxima geração da infraestrutura de confiança.
Por que 2029 se tornou uma data estratégica?
Dois movimentos tecnológicos estão convergindo para o final desta década.
O primeiro é a redução progressiva do período de validade dos certificados TLS públicos, utilizados para autenticar servidores e proteger conexões na internet.
O cronograma aprovado pelo CA/Browser Forum prevê que a validade máxima desses certificados seja reduzida gradualmente até alcançar 47 dias em 2029.
A mudança amplia significativamente a frequência de renovação dos certificados e torna a automação uma necessidade operacional.
O segundo movimento é a preparação para a criptografia pós-quântica, que também exigirá substituição de certificados, atualização de aplicações, revisão de algoritmos e testes de interoperabilidade.
Os dois processos compartilham uma exigência: a capacidade de administrar mudanças criptográficas de maneira automatizada.
Uma organização que depende de processos manuais para localizar certificados, acompanhar vencimentos e realizar substituições terá dificuldades crescentes para acompanhar a redução de validade e, simultaneamente, executar a transição pós-quântica.
É importante distinguir os dois cronogramas.
2029 não representa um prazo universal para todas as organizações concluírem a migração pós-quântica.
Trata-se de uma referência estratégica associada a compromissos de fornecedores e à modernização do ecossistema de certificados digitais.
A gestão do ciclo de vida dos certificados passa a ser decisiva
A modernização da PKI pressupõe uma visão integrada dos certificados digitais utilizados por uma organização, incluindo aqueles emitidos por autoridades certificadoras públicas e por infraestruturas privadas.
O desafio começa pelo inventário criptográfico.
Antes de substituir um algoritmo, a empresa precisa identificar onde ele está sendo utilizado, quais aplicações dependem dele, quem administra as chaves e quais sistemas podem ser afetados por uma alteração.
Também é necessário compreender a relação entre certificados, serviços, dispositivos e fornecedores.
Esse mapeamento permite definir prioridades, identificar dependências críticas e estabelecer programas de migração por etapas.
A migração não deve ser tratada como uma única atualização tecnológica. Ela envolve sucessivas etapas de identificação, substituição, validação e acompanhamento, com responsabilidades distribuídas entre diferentes equipes.
Esse modelo reforça a importância da agilidade criptográfica, ou crypto-agility, conceito que descreve a capacidade de substituir algoritmos, parâmetros, certificados e mecanismos criptográficos sem comprometer a continuidade dos serviços.
A automação do ciclo de vida dos certificados, conhecida como Certificate Lifecycle Management (CLM), ganha importância nesse cenário porque permite reduzir a dependência de operações manuais e melhorar a visibilidade sobre os ativos criptográficos.
O impacto da criptografia pós-quântica no desempenho das conexões
Uma das preocupações recorrentes na adoção de criptografia pós-quântica está relacionada ao desempenho das conexões.
Dependendo dos algoritmos e das implementações, os mecanismos pós-quânticos podem produzir chaves públicas, assinaturas ou mensagens maiores do que aqueles utilizados atualmente.
Esse aumento pode afetar o tráfego de rede, a memória, o processamento e o tempo necessário para estabelecer conexões seguras.
Em aplicações TLS, o impacto depende do mecanismo empregado, da configuração da conexão e das características da infraestrutura.
Aadoção de mecanismos híbridos, que combinam algoritmos tradicionais com algoritmos pós-quânticos, também exige testes de interoperabilidade e desempenho.
O objetivo é permitir uma transição gradual, preservando a compatibilidade com sistemas existentes enquanto são introduzidas novas proteções criptográficas.
Redes sem fio, conexões com largura de banda restrita, dispositivos embarcados e equipamentos com recursos computacionais limitados podem apresentar comportamentos diferentes daqueles observados em grandes centros de dados.
Por essa razão, testes específicos de compatibilidade, latência, consumo de recursos e estabilidade operacional devem fazer parte dos programas de migração.
Microsoft estabelece 2029 como meta para seus produtos e serviços
Microsoft também está acelerando seu programa de preparação para a criptografia pós-quântica.
Em comunicado publicado em junho de 2026, a companhia anunciou a meta de realizar a transição de seus produtos e serviços para tecnologias pós-quânticas até 2029.
A estratégia contempla a modernização dos protocolos de comunicação, a proteção de dados armazenados e a atualização das cadeias de confiança utilizadas por aplicações, dispositivos e serviços.
Entre as prioridades estão a adoção do TLS 1.3, a gestão padronizada de chaves criptográficas e a redução da dependência de algoritmos incorporados diretamente ao código das aplicações.
Outro ponto envolve as autoridades certificadoras.
Por meio de um projeto-piloto do Microsoft Trusted Root Program, a empresa está criando condições para que autoridades certificadoras testem a emissão e a compatibilidade de certificados com as capacidades de suas plataformas.
A iniciativa demonstra que a transição não depende exclusivamente dos fabricantes de software ou das autoridades certificadoras.
É necessário assegurar a interoperabilidade de toda a cadeia, desde a geração e proteção das chaves até a emissão, validação e utilização dos certificados digitais.
Pesquisa mostra que o avanço da implantação ainda é lento
O levantamento DigiCert Quantum Readiness Outlook 2026 foi realizado pela Propeller Insights, por encomenda da DigiCert, em maio de 2026.
Foram entrevistados 1.001 profissionais responsáveis por decisões de tecnologia da informação e cibersegurança nos Estados Unidos, Reino Unido e Austrália.
Portanto, os resultados não devem ser interpretados como representativos de todas as empresas do mundo ou especificamente do mercado brasileiro.
Os principais indicadores mostram diferentes estágios de preparação:
87% planejam, testam ou implementam iniciativas de criptografia pós-quântica.
7% implantaram criptografia pós-quântica ou soluções híbridas na maioria de seus certificados.
50% realizaram avaliações de risco quântico.
44% elaboraram planos de transição e inventários criptográficos.
O estudo também identificou que 25,6% dos participantes consideram a complexidade dos sistemas legados o principal obstáculo à implantação.
Outro resultado relevante é que 39% estimam que a transição para a criptografia resistente à computação quântica levará de três a cinco anos.
Em comparação com a edição anterior, o percentual de organizações que implantaram essas tecnologias na maior parte dos certificados avançou apenas dois pontos percentuais.
Os dados sugerem que o principal desafio já não está exclusivamente no conhecimento sobre os riscos quânticos, mas na capacidade de transformar planejamento em execução.
O risco de armazenar hoje para descriptografar no futuro
A necessidade de antecipar a transição também está relacionada à estratégia conhecida como harvest now, decrypt later, ou capturar agora para descriptografar posteriormente.
Nesse cenário, agentes maliciosos podem armazenar comunicações criptografadas atualmente na expectativa de que computadores quânticos futuros permitam recuperar informações protegidas por mecanismos vulneráveis.
O risco é particularmente relevante para dados que precisam permanecer confidenciais durante muitos anos, como registros financeiros, informações governamentais e documentos empresariais sensíveis.
Na pesquisa da DigiCert, 84% dos entrevistados consideram que pelo menos parte dos dados criptografados já está exposta a esse tipo de ameaça.
Essa percepção não constitui evidência de que os dados dessas organizações tenham sido efetivamente capturados.
Ela demonstra, entretanto, por que a proteção de informações de longa duração passou a integrar as estratégias de preparação pós-quântica.
A transição depende de todo o ecossistema de confiança digital
A modernização criptográfica não poderá ocorrer isoladamente em cada organização.
Autoridades certificadoras, fabricantes de equipamentos, fornecedores de sistemas operacionais, desenvolvedores, prestadores de serviços em nuvem e responsáveis pela infraestrutura de segurança precisarão coordenar seus cronogramas.
A padronização internacional será um elemento importante desse processo.
O National Institute of Standards and Technology (NIST), dos Estados Unidos, já publicou padrões para mecanismos pós-quânticos, incluindo o ML-KEM, destinado ao estabelecimento de segredos compartilhados, e o ML-DSA, voltado às assinaturas digitais.
A disponibilidade desses padrões, entretanto, não significa que todas as aplicações, protocolos e infraestruturas de certificação estejam preparados para utilizá-los imediatamente.
A transição depende de atualizações de software, equipamentos, bibliotecas criptográficas e mecanismos de validação.
Essa diversidade reforça a necessidade de arquiteturas capazes de incorporar diferentes algoritmos e acompanhar a evolução dos requisitos técnicos.
Para as organizações, o desafio será manter a interoperabilidade sem comprometer a segurança, a disponibilidade e a validade operacional dos mecanismos de confiança digital.
A preparação precisa começar antes do prazo
O contraste entre os 87% de organizações envolvidas em iniciativas pós-quânticas e os 7% que já avançaram na implantação em larga escala revela a dimensão do trabalho ainda necessário.
A redução da validade dos certificados TLS, os compromissos de fornecedores como a Microsoft e a evolução dos padrões criptográficos indicam que a modernização da PKI e a preparação pós-quântica deverão avançar de maneira coordenada.
Mais do que substituir RSA ou algoritmos de curvas elípticas, será necessário desenvolver processos capazes de acompanhar mudanças tecnológicas contínuas.
A capacidade de identificar dependências criptográficas, automatizar o ciclo de vida dos certificados e substituir algoritmos com segurança poderá determinar quais organizações estarão preparadas para a próxima geração da infraestrutura de confiança digital.
Fontes institucionais
DigiCert: Quantum Readiness Outlook 2026, pesquisa realizada pela Propeller Insights, divulgada em julho de 2026.
https://www.digicert.com/news/quantum-security-deployment-remains-stuck
Microsoft: Microsoft advances quantum-safe security as the risk timeline shifts
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