Relatório oficial detalha como criminosos comprometeram computadores, ferramentas internas de inteligência artificial e serviços de assinatura de transações. Binance afirma ter bloqueado US$ 2,85 bilhões
A Binance publicou nesta terça-feira, 3 de novembro de 2026, em seu blog oficial, o relatório “29 October 2026 Binance Security Incident: Initial Findings and Response Update”, com os primeiros resultados da investigação sobre o ataque cibernético que comprometeu aproximadamente US$ 6,34 bilhões em criptoativos.
O documento revela uma operação iniciada em junho, envolvendo falsas entrevistas de emprego, softwares maliciosos, comprometimento de ferramentas internas de inteligência artificial e exploração de mecanismos de autorização de transações.
Segundo a investigação preliminar, os invasores comprometeram diferentes dispositivos de funcionários até alcançar os sistemas responsáveis pelas carteiras digitais da exchange.
Ataque começou em junho e avançou com falsas entrevistas
A primeira etapa identificada ocorreu em junho, quando um engenheiro da equipe de infraestrutura de carteiras instalou uma versão adulterada do Homebrew ao tentar configurar uma ferramenta de programação com inteligência artificial.
A Binance detectou a anomalia, substituiu o dispositivo e renovou as credenciais relacionadas. Entretanto, os criminosos já haviam obtido informações sobre o funcionário e outros integrantes da equipe.
Em setembro, outro engenheiro foi abordado por um falso recrutador em uma plataforma legítima de empregos. Após duas entrevistas por vídeo, recebeu uma suposta tarefa técnica que continha código malicioso.
O malware conseguiu escapar das ferramentas de proteção do computador.
Em 20 de outubro, os invasores utilizaram o acesso comprometido e uma ferramenta interna de IA para avançar sobre outros dispositivos. Em 29 de outubro, chegaram à infraestrutura crítica de carteiras e executaram transações não autorizadas.
Criminosos exploraram serviço de assinatura de transações
O aspecto mais relevante do incidente para a segurança digital está no comprometimento da infraestrutura responsável por autorizar movimentações financeiras.
Segundo a Binance, os atacantes utilizaram acessos indevidos ao serviço interno de assinatura de carteiras e exploraram o mecanismo EIP-7702 da rede Ethereum para delegar permissões a um contrato inteligente sob seu controle.
Com essas autorizações, conseguiram movimentar ativos mesmo depois da suspensão dos saques.
A empresa explicou que a utilização de computação multipartidária (MPC) na proteção das carteiras exigiu procedimentos específicos para revogar as autorizações maliciosas.
O ataque não demonstrou uma quebra dos algoritmos criptográficos. Os criminosos exploraram sistemas, credenciais e mecanismos de autorização que sustentam a operação das carteiras digitais.
O episódio evidencia a importância da proteção de dispositivos, da gestão de identidades e acessos, da governança das chaves criptográficas e dos controles aplicados aos serviços de assinatura.
Binance relata 57 tentativas associadas à Coreia do Norte
No relatório, a Binance também informou que sua equipe de segurança identificou e impediu, ao longo de 2026, 57 tentativas de ataques cibernéticos suspeitos de ligação com a Coreia do Norte.
Entre as técnicas observadas estavam entrevistas de emprego fraudulentas, malware disfarçado de ferramentas para desenvolvedores, extensões de navegador comprometidas e campanhas de engenharia social voltadas ao roubo de credenciais.
O FBI atribuiu o ataque de outubro a operadores ligados à Coreia do Norte. O governo norte-coreano negou envolvimento. A atribuição integra uma investigação ainda em andamento.
Empresa informa bloqueio de US$ 2,85 bilhões
A Binance afirma ter conseguido congelar ou interceptar aproximadamente US$ 2,85 bilhões em ativos digitais, com a colaboração de outras plataformas.
Segundo a empresa, até 31 de outubro, 98% dos ativos afetados já haviam sido recompostos com recursos próprios, e os fundos reservados para cobrir as perdas superavam o valor total do incidente.
Esses números representam informações divulgadas pela própria Binance, cuja investigação ainda será submetida à avaliação independente.
Saques são retomados em mais redes
Também nesta terça-feira, a Binance ampliou a retomada gradual dos saques para novos tokens e redes blockchain, a partir das 4h UTC, equivalente à 1h de Brasília.
A liberação ocorre progressivamente, conforme a conclusão das verificações de segurança. Os depósitos permanecem disponíveis.
Para quarta-feira, 4 de novembro, está prevista uma nova captura de dados (snapshot) para ampliar a cobertura da prova de reservas da plataforma.
A Binance informou que reconstruiu os sistemas afetados, substituiu dispositivos comprometidos, desativou credenciais e reforçou controles de segurança. Também anunciou uma revisão independente e investimentos adicionais em proteção de ambientes de desenvolvimento e ferramentas de inteligência artificial.
O caso demonstra como uma campanha de engenharia social pode comprometer a infraestrutura de confiança responsável pela movimentação de bilhões de dólares, sem que seja necessário quebrar os algoritmos criptográficos que protegem os ativos.
Kevin Mitnick, um dos hackers mais conhecidos da história, já explorava esse conceito em seu livro A Arte de Enganar (The Art of Deception), publicado em 2002 com William L. Simon. Sua principal lição permanece atual: os controles tecnológicos podem ser sofisticados, mas a manipulação humana continua oferecendo caminhos para comprometer sistemas protegidos.
Mais de duas décadas depois, a inteligência artificial amplia as possibilidades de engenharia social, tornando ataques mais elaborados e convincentes.
E como os próprios hackers enxergam essa transformação?
O documentário Midnight in the War Room, apresentado no Brasil pela Semperis, reúne especialistas em segurança cibernética, pesquisadores e hackers para revelar os bastidores das guerras digitais e os desafios enfrentados na defesa das organizações.
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