Segundo o Departamento de Justiça, criminosos teriam utilizado vozes e imagens sintéticas para convencer funcionários a autorizar transferências financeiras fraudulentas.
O Departamento de Justiça dos Estados Unidos anunciou ontem, 5 de novembro de 2026, o indiciamento de três pessoas acusadas de participar de um esquema internacional de fraude que teria causado prejuízos superiores a US$ 129 milhões a empresas de diferentes setores.
Os acusados são Jacob Soall, Sharon Hazan e Guy Sheetrit. Segundo os promotores federais do Distrito Sul de Nova York, o grupo teria utilizado recursos de inteligência artificial para reproduzir vozes e imagens de executivos e advogados, induzindo funcionários a realizar transferências bancárias para contas controladas pelos integrantes da organização.
As acusações incluem fraude eletrônica, roubo de identidade agravado e lavagem de dinheiro. Os três foram presos na Europa entre junho e setembro de 2026 e aguardam procedimentos de extradição.
As acusações ainda não foram julgadas, e os envolvidos são presumidos inocentes até eventual condenação.
Como funcionava a fraude
Segundo a acusação, o esquema operou entre 2024 e 2026.
Os criminosos entravam em contato com funcionários de empresas, apresentando-se como seus principais executivos. Durante as comunicações, utilizavam recursos de inteligência artificial para imitar a voz ou a imagem dos dirigentes.
O falso executivo informava que estava conduzindo uma operação financeira confidencial e solicitava a colaboração do funcionário.
Em seguida, a vítima era orientada a entrar em contato com supostos advogados de grandes escritórios internacionais, que também eram personificados pelos integrantes do esquema.
Essa segunda etapa reforçava a aparência de legitimidade da operação.
Depois de estabelecer a confiança da vítima, os criminosos forneciam instruções para a transferência de valores a contas bancárias controladas pela organização.
Hospitais, bancos e fintechs entre as vítimas
Entre as organizações atingidas, segundo os documentos judiciais, estão hospitais, uma instituição bancária dos Estados Unidos, uma fintech britânica e empresas de outros segmentos.
A diversidade das vítimas demonstra que o esquema não dependia de uma vulnerabilidade específica de determinado setor econômico.
O elemento central era a exploração dos procedimentos de autorização financeira e da confiança depositada na identidade de executivos e representantes jurídicos.
O dinheiro era convertido em criptoativos
Segundo o Departamento de Justiça, depois de receberem os valores transferidos pelas empresas, os integrantes do esquema convertiam os recursos em criptomoedas para tentar ocultar sua origem, propriedade e controle.
As transferências foram direcionadas a contas bancárias em diferentes países, incluindo Estados Unidos, Espanha, Portugal, Grécia, Emirados Árabes Unidos, Singapura, Áustria, Eslováquia e China.
A utilização de criptoativos teria integrado a etapa de lavagem de dinheiro, posterior à fraude de identidade e à autorização indevida das transferências.
O desafio da autenticação em operações corporativas
O caso evidencia uma mudança importante no cenário das fraudes de identidade.
A reprodução de uma voz ou de uma imagem, que anteriormente poderia funcionar como elemento informal de reconhecimento, tornou-se insuficiente para comprovar que uma solicitação realmente partiu de determinada pessoa.
Em operações financeiras de alto valor, a identificação do solicitante precisa estar associada a mecanismos independentes de autenticação e autorização.
Entre as medidas que podem reduzir esse tipo de risco estão a autenticação multifator resistente a phishing, a confirmação de operações por canais previamente estabelecidos, a segregação de funções e os procedimentos de dupla aprovação.
Assinaturas digitais e mecanismos criptográficos também podem contribuir para verificar a autoria e a integridade de instruções eletrônicas, desde que integrados a processos adequados de controle de acesso e proteção das credenciais.
O episódio demonstra que a segurança das transações corporativas não depende apenas de reconhecer quem aparece em uma chamada de vídeo ou quem parece estar falando ao telefone.
É necessário comprovar a identidade, a legitimidade da solicitação e a autorização efetiva para movimentar recursos.
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