Estudo internacional com 500 executivos aponta avanços na preparação criptográfica, mas 61% das organizações relatam incidentes relacionados a certificados digitais nos últimos 12 meses
A infraestrutura de chaves públicas (PKI), responsável por sustentar mecanismos de autenticação, assinaturas digitais e comunicações criptografadas em diferentes ambientes tecnológicos, deverá passar por transformações significativas para acompanhar a adoção da criptografia pós-quântica.
Essa é a percepção de 78% dos líderes de tecnologia e cibersegurança consultados pela Sectigo em seu relatório 2026 State of Crypto Agility, divulgado em 28 de outubro de 2026.
A pesquisa, realizada com 500 executivos de diferentes setores e regiões, mostra que a preparação para a computação quântica deixou de ser apenas uma preocupação futura. As organizações já estão destinando recursos, avaliando vulnerabilidades e modernizando processos de gestão criptográfica.
Entretanto, os resultados também revelam dificuldades operacionais importantes.
Apesar dos avanços na identificação e automação de certificados digitais, 61% dos entrevistados afirmaram que suas organizações enfrentaram ao menos um incidente ou indisponibilidade relacionado a certificados nos últimos 12 meses.
O contraste evidencia um desafio central: investir em novas tecnologias criptográficas não significa, necessariamente, estar preparado para administrá-las com segurança e continuidade operacional.
Os principais resultados da pesquisa
| Indicador | Resultado |
|---|---|
| Consideram necessárias mudanças profundas na PKI para suportar PQC | 78% |
| Já avaliaram completamente seus sistemas vulneráveis a ataques quânticos | 38% |
| Possuem orçamento destinado à preparação pós-quântica | 83% |
| Mantêm inventário completo e atualizado de certificados SSL/TLS públicos | 62% |
| Enfrentaram incidentes ou indisponibilidades relacionados a certificados | 61% |
| Pretendem ampliar a automação da gestão de certificados | 73% |
| Consideram-se muito preparados para renovações mensais, com sistemas automatizados | 40% |
A migração pós-quântica exigirá mais do que substituir algoritmos
A adoção de algoritmos resistentes a ataques de computadores quânticos representa uma transformação que ultrapassa a simples substituição dos mecanismos criptográficos utilizados atualmente.
Certificados digitais, aplicações, bibliotecas criptográficas, módulos de segurança de hardware (HSMs), sistemas de autenticação e equipamentos de rede podem exigir adaptações para trabalhar com novas estruturas de chaves e assinaturas.
Algoritmos pós-quânticos também podem apresentar características diferentes das soluções tradicionais, incluindo tamanhos maiores de chaves, assinaturas e outros elementos utilizados nas operações criptográficas.
Essas mudanças podem afetar o desempenho, a interoperabilidade e a compatibilidade entre sistemas.
O levantamento da Sectigo mostra que 38% dos participantes afirmam ter concluído a avaliação dos sistemas potencialmente vulneráveis a ataques quânticos, enquanto outros 44% consideram essa avaliação majoritariamente concluída.
Em 2025, o percentual de organizações que declaravam ter completado essa avaliação era de 14%.
O avanço é expressivo, mas precisa ser interpretado com cautela, porque os resultados refletem declarações dos entrevistados e não auditorias técnicas independentes.
Além disso, a amostra de 2026 foi ampliada geograficamente, o que limita comparações diretas com a edição anterior.
O orçamento está disponível, mas a transformação ainda está em andamento
Outro indicador relevante é a disposição das organizações para investir na transição criptográfica.
Segundo a pesquisa, 83% dos entrevistados afirmaram que suas empresas reservaram orçamento para iniciativas de preparação para a computação quântica nos próximos 12 meses.
Entre aqueles que possuem recursos destinados a essas iniciativas, 93% esperam ampliar os investimentos em criptografia pós-quântica nos próximos dois ou três anos.
O resultado demonstra que a transição começa a ocupar espaço nas decisões de planejamento tecnológico e financeiro.
Entretanto, o orçamento representa apenas uma etapa.
A migração exige identificar onde os algoritmos atuais são utilizados, avaliar dependências tecnológicas, estabelecer prioridades e realizar testes de compatibilidade antes de substituir componentes criptográficos.
A participação dos fornecedores também será determinante, especialmente em ambientes que dependem de equipamentos, softwares e serviços de terceiros.
Certificados TLS com validade menor ampliam a pressão operacional
Enquanto a criptografia pós-quântica exige planejamento estrutural, outra mudança já está produzindo efeitos concretos: a redução progressiva da validade máxima dos certificados TLS publicamente confiáveis.
O cronograma aprovado no âmbito do CA/Browser Forum estabelece:
| Data de início | Validade máxima dos certificados TLS |
|---|---|
| 15 de março de 2026 | 200 dias |
| 15 de março de 2027 | 100 dias |
| 15 de março de 2029 | 47 dias |
A redução dos prazos exige ciclos de emissão, validação, instalação e renovação mais frequentes.
Processos que anteriormente podiam ser administrados com intervenções manuais ocasionais passam a exigir maior automação, monitoramento e integração entre sistemas.
Na pesquisa, 73% dos participantes afirmaram que pretendem ampliar a automação da gestão de certificados em razão da redução de sua validade.
Apesar disso, apenas 40% se consideram muito preparados para renovações mensais por já possuírem sistemas automatizados.
O problema não está restrito à renovação propriamente dita.
Um certificado pode ser emitido corretamente e, ainda assim, provocar indisponibilidade se não for instalado no servidor adequado, se uma aplicação não reconhecer a atualização ou se alguma etapa de validação não for concluída.
Por isso, a automação precisa abranger todo o ciclo de vida dos certificados digitais.
Inventários avançam, mas incidentes continuam acontecendo
Um dos resultados mais relevantes do estudo é a evolução dos inventários de certificados SSL/TLS públicos.
Em 2025, 28% dos entrevistados declaravam possuir inventários completos e atualizados. Na edição de 2026, esse percentual chegou a 62%.
Embora o crescimento indique maior atenção à visibilidade dos ativos criptográficos, a pesquisa mostra que a existência de inventários não é suficiente para evitar falhas.
Seis em cada dez participantes relataram incidentes ou indisponibilidades relacionados a certificados digitais no período de 12 meses anterior à pesquisa.
Isso demonstra a importância de associar o inventário a mecanismos de monitoramento, renovação, distribuição e revogação.
Também é necessário distinguir o inventário de certificados TLS públicos de um inventário criptográfico corporativo completo.
Uma organização pode conhecer todos os certificados utilizados em seus websites e, ao mesmo tempo, não ter visibilidade adequada sobre chaves criptográficas, certificados internos, conexões VPN, assinaturas de software e mecanismos de autenticação de dispositivos.
Essa distinção será particularmente importante durante a transição pós-quântica, que alcançará sistemas e aplicações muito além dos certificados utilizados na navegação web.
Novas arquiteturas de certificados entram na discussão
O relatório também aborda os Merkle Tree Certificates (MTCs), uma proposta de arquitetura de certificados em desenvolvimento no âmbito da Internet Engineering Task Force (IETF).
O modelo utiliza estruturas criptográficas baseadas em árvores de Merkle para permitir a comprovação da inclusão de certificados em registros verificáveis.
A proposta busca enfrentar desafios relacionados ao tamanho das assinaturas pós-quânticas e à eficiência dos mecanismos de autenticação utilizados na web.
Embora ainda esteja em desenvolvimento, a tecnologia demonstra que a transição pós-quântica pode provocar mudanças não apenas nos algoritmos, mas também na própria arquitetura dos certificados digitais.
Entre os entrevistados familiarizados com a proposta, somente 40% afirmaram compreender claramente quais adaptações seriam necessárias em seus sistemas, processos e ambientes para suportá-la.
Esse resultado reforça a necessidade de acompanhar a evolução dos padrões técnicos e as decisões dos fabricantes de navegadores, autoridades certificadoras e fornecedores de infraestrutura.
Identidades de agentes de inteligência artificial ampliam o desafio
A pesquisa também identifica uma nova dimensão da gestão de identidades digitais: a expansão dos agentes de inteligência artificial capazes de executar tarefas e interagir com sistemas de maneira autônoma.
Esses agentes podem utilizar credenciais, acessar APIs, consultar informações e realizar operações em nome de usuários ou organizações.
Sua adoção amplia a necessidade de mecanismos de autenticação, autorização, monitoramento e revogação de acessos.
Segundo o relatório, 65% dos entrevistados demonstraram preocupação elevada com ataques envolvendo falsificação de identidade, personificação ou uso indevido de credenciais digitais por agentes de IA.
O tema acrescenta complexidade à infraestrutura de confiança digital, que precisará administrar um número crescente de identidades não humanas e credenciais utilizadas por aplicações automatizadas.
O que as empresas precisam avaliar agora
Os resultados da pesquisa apontam para a necessidade de integrar diferentes iniciativas de segurança criptográfica em um planejamento coordenado.
A preparação deve considerar, entre outros aspectos:
- Inventário criptográfico: identificar certificados, chaves, algoritmos e dependências tecnológicas, incluindo ambientes internos e fornecedores.
- Automação de certificados: implementar mecanismos de emissão, validação, instalação, renovação, monitoramento e revogação.
- Preparação pós-quântica: avaliar sistemas vulneráveis, testar novos algoritmos e definir prioridades de migração.
- Compatibilidade tecnológica: verificar a capacidade de softwares, equipamentos, bibliotecas criptográficas e HSMs de suportar novas tecnologias.
- Governança de identidades: estabelecer controles para identidades humanas, dispositivos, aplicações e agentes de inteligência artificial.
- Continuidade operacional: testar procedimentos de substituição de certificados e recuperação de serviços para reduzir riscos de indisponibilidade.
Essas medidas não constituem um roteiro universal de migração. As prioridades dependem da arquitetura, dos riscos e das exigências regulatórias de cada organização.
A criptoagilidade passa a ser uma capacidade operacional permanente
A principal conclusão do levantamento é que a infraestrutura criptográfica não pode mais ser administrada como um conjunto de tecnologias estáticas.
A redução da validade dos certificados TLS, a transição para algoritmos pós-quânticos e a expansão das identidades digitais de máquinas e agentes de IA estão transformando a maneira como as organizações precisam gerenciar seus mecanismos de confiança.
O conceito de criptoagilidade ganha importância justamente nesse contexto.
Trata-se da capacidade de identificar, substituir e atualizar mecanismos criptográficos de maneira controlada, sem comprometer a segurança, a interoperabilidade ou a continuidade dos serviços.
A pesquisa da Sectigo mostra que o mercado está avançando em investimentos e planejamento, mas ainda enfrenta dificuldades para transformar essas iniciativas em processos operacionais consistentes.
Para as organizações, o desafio não será apenas adotar os algoritmos criptográficos do futuro, mas desenvolver uma infraestrutura capaz de acompanhar continuamente as mudanças tecnológicas e os novos requisitos de segurança.
Sobre a pesquisa
O relatório 2026 State of Crypto Agility foi divulgado pela Sectigo em 28 de outubro de 2026, com base em 500 respostas coletadas pela Censuswide entre executivos de nível C, vice-presidentes e diretores das áreas de tecnologia, operações técnicas, cibersegurança e risco.
O levantamento abrange participantes da América do Norte, Europa, Oriente Médio, África e região Ásia-Pacífico.
Os dados refletem as percepções e declarações dos entrevistados. As comparações com 2025 devem ser consideradas indicativas, uma vez que houve mudanças no tamanho e na composição geográfica da amostra.
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