A biometria neonatal utiliza tecnologias avançadas para capturar impressões digitais de recém-nascidos com segurança
Por Maurício Augusto Coelho

A identificação biométrica de recém-nascidos desponta como um dos pilares da modernização da identidade civil brasileira. No entanto, uma pergunta ainda gera dúvidas entre gestores públicos, profissionais de saúde e especialistas em identificação: como coletar impressões digitais confiáveis de um bebê que acaba de nascer?
Embora o desafio seja real, os avanços tecnológicos já permitem realizar essa captura com segurança, precisão e potencial de acompanhar o cidadão ao longo de toda a vida.
Uma das maiores dúvidas sobre a identificação biométrica neonatal é técnica: como captar impressões digitais confiáveis de um bebê que acabou de nascer, com dedos minúsculos, pele extremamente delicada e pouca cooperação?
Este é um dos pontos centrais do Pacto Nacional pela Identificação Neonatal e Infantil. O desafio existe, mas a tecnologia atual já oferece soluções maduras e seguras.
Os principais desafios técnicos
Os dedos dos recém-nascidos são muito pequenos, a pele é macia e flexível, e os bebês não conseguem ficar imóveis. Equipamentos tradicionais de biometria, projetados para adultos, geralmente falham em gerar imagens de qualidade suficiente. Além disso, é necessário garantir que o processo seja rápido, sem causar desconforto ao bebê e familiares, e compatível com a rotina intensa das maternidades.
Como a tecnologia atual supera esses desafios
As soluções modernas utilizam scanners de altíssima resolução, com sensores otimizados e luz suave, capazes de captar as impressões digitais da ponta dos dedos com precisão mesmo em bebês de poucas horas de vida. Esses equipamentos possuem design ergonômico, são portáteis e permitem a coleta em poucos segundos.
O processo é simples:
- captura das impressões digitais do bebê e dos pais;
- processamento biométrico imediato com algoritmos especializados; e
- vinculação ao sistema de identificação civil, que permite a emissão da Carteira de Identidade Nacional (CIN) com biometria integrada.
Um segundo desafio fundamental é a comparabilidade ao longo dos anos

Outro aspecto crítico é a comparabilidade das biometrias com o passar do tempo. À medida que a criança cresce, as mãos aumentam de tamanho e as impressões digitais se expandem. Estudos longitudinais demonstram que isso é viável. Pesquisa publicada na IEEE Transactions on Information Forensics and Security (Jain et al., 2016) concluiu que “fingerprints of young children are reliable and stable over time, with recognition accuracy improving as the child grows” (em tradução livre: “As impressões digitais de crianças pequenas são confiáveis e estáveis ao longo do tempo, apresentando uma precisão de reconhecimento que melhora conforme o crescimento da criança.”).
Mais recentemente, o estudo brasileiro de Southier et al. (2024) reforça que, com algoritmos de escalonamento e modelos de crescimento, “é possível comparar impressões coletadas no nascimento com as obtidas anos depois, mantendo alta confiabilidade”.
A própria Carteira de Identidade Nacional (CIN) foi projetada para apoiar esse processo contínuo. Ela prevê prazos de validade por faixa etária no momento da expedição do documento: 5 anos para pessoas com idade de 0 a 11 anos, 10 anos para pessoas com idade de 12 anos completos a 59 anos e indeterminada para pessoas com idade a partir dos 60 anos, obrigando atualizações periódicas de dados biográficos e biométricos. Essas renovações periódicas permitem recapturas regulares, ajustando o template biométrico ao crescimento natural da criança e garantindo que a identidade permaneça confiável ao longo de toda a vida.

Interoperabilidade com o sistema de identificação civil nacional
Para que a identificação neonatal seja realmente efetiva em escala nacional, os dados biométricos coletados nas maternidades devem ser interoperáveis com os sistemas ABIS (Automated Biometric Identification Systems) responsáveis pela individualização biométrica dos cidadãos.
Os sistemas ABIS funcionam como grandes bancos de dados centralizados que armazenam, processam e comparam templates biométricos (minúcias das impressões digitais) de milhões de pessoas, utilizando algoritmos avançados de matching para identificar indivíduos com alta precisão e velocidade. A segurança é garantida por criptografia robusta, auditoria de acessos e conformidade com a LGPD.
A coleta neonatal deve seguir padrões técnicos rigorosos (alta resolução, formato de template compatível e qualidade mínima das imagens) para que os dados do bebê sejam incorporados diretamente ao ABIS nacional. Essa interoperabilidade permite que a Carteira de Identidade Nacional (CIN) seja emitida com biometria vinculada desde o nascimento, garantindo consistência, segurança, rastreabilidade e proteção contra fraudes ao longo de toda a vida do cidadão.
Por que isso importa para o futuro da criança
Uma vez registrada, essa identidade biométrica vinculada à CIN acompanha a pessoa por toda a vida. Ela facilita a verificação na alta da maternidade, mas também o acesso futuro a direitos, serviços de saúde, educação e proteção em situações de vulnerabilidade.
O Pacto Nacional busca padronizar e expandir o uso dessa tecnologia, transformando desafios técnicos em uma ferramenta poderosa de proteção à infância.
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Fontes consultadas
- Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/1990), artigo 10. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm
- Decreto nº 10.977/2022 (Carteira de Identidade Nacional – prazos de validade). Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/decreto/d10977.htm
- Jain, A. K., et al. “Fingerprint Recognition of Young Children”. IEEE Transactions on Information Forensics and Security, 2016.
- Southier, L. F. P., et al. “A Longitudinal Study on Fingerprint Recognition in Infants, Toddlers and Children”. Preprint, 2024.
- Pacto Nacional pela Identificação Neonatal e Infantil (PDF oficial). Disponível em: https://interid.org/wp-content/uploads/2025/09/pacto-nacional-pela-identificacao-neonatal-e-infantil-3.pdf
Fonte: InterID
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