De acordo com a Modelagem da Centrii estima 92% de probabilidade de um grande ataque contra sistemas de armazenamento de energia no Reino Unido até 2031 e coloca a cibersegurança da infraestrutura elétrica no centro da discussão
A crescente digitalização do setor elétrico, a conexão remota de ativos e a expansão dos sistemas de armazenamento de energia estão criando uma nova dimensão para o risco cibernético em infraestruturas críticas. Um estudo divulgado nesta quarta-feira, 2 de setembro, pela Centrii tenta quantificar esse risco.
Batizado de GRIDLOCK: What a Coordinated Battery Attack Would Cost the Grid, o trabalho modela as consequências de um ataque cibernético coordenado contra sistemas de armazenamento de energia por baterias, conhecidos pela sigla BESS (Battery Energy Storage Systems).
No cenário que considera práticas médias de segurança adotadas atualmente pelo setor, o modelo produzido pela Centrii chega a uma probabilidade de 92% de ocorrência de pelo menos um grande ataque até 2031.
O número, no entanto, precisa ser interpretado corretamente. Não se trata da previsão de que há 92% de certeza de um apagão no Reino Unido. É o resultado de uma modelagem de risco, construída a partir das premissas utilizadas pelos pesquisadores e de milhares de simulações de possíveis cenários de ataque.
Dez mil simulações para medir o risco
O GRIDLOCK utiliza uma metodologia de análise de risco por Monte Carlo, com 10 mil simulações em três diferentes níveis de maturidade de segurança: um cenário-base, um intermediário e outro com medidas mais rigorosas de proteção.
No primeiro deles, correspondente ao que a Centrii considera práticas médias de segurança do mercado, o modelo resulta nos 92% de probabilidade de um grande ataque nos próximos cinco anos. Quando são consideradas melhorias voluntárias e graduais de segurança, a probabilidade modelada cai para 78%. No cenário mais rigoroso, baseado na adoção obrigatória da IEC 62443 e na realização periódica de exercícios de preparação para ataques, ela cai para 61%.
A janela de maior risco também se deslocaria. No cenário-base, o estudo aponta 2027 e 2028 como o período mais provável para um incidente relevante. Com as proteções mais robustas, essa janela passaria para 2029 a 2031.
A Centrii afirma ainda que a modelagem leva em consideração fatores como crescimento da capacidade dos atacantes, expansão do parque de baterias e possibilidades de comprometimento por ambientes em nuvem, acessos remotos e cadeia de suprimentos. Todos esses valores, portanto, são estimativas produzidas pelo modelo, e não dados observados em ataques reais.
O ataque não precisaria desligar uma usina
Talvez a conclusão tecnicamente mais relevante do estudo seja justamente essa. Um invasor não precisaria necessariamente destruir equipamentos nem interromper diretamente a geração de energia para provocar uma crise de grandes proporções.
O ataque estudado atua sobre a função de balanceamento da rede. Baterias conectadas ao sistema elétrico ajudam a compensar as variações entre produção e consumo, absorvendo energia em determinados momentos e devolvendo-a à rede em outros. Essa capacidade é particularmente importante em sistemas com participação crescente de fontes renováveis, como solar e eólica.
O problema surge quando muitos desses ativos podem ser comandados remotamente e um atacante consegue fazê-los responder de maneira coordenada. Rafael Narezzi, cofundador e CEO da Centrii, explica que um ataque poderia obrigar diferentes baterias a carregar ou descarregar simultaneamente ou retardar sua reação aos sinais emitidos pela rede. Em vez de atacar diretamente a geração de energia, o invasor passaria a comprometer justamente o mecanismo utilizado para manter o sistema equilibrado.
Na avaliação de Narezzi, o mecanismo se aproxima mais de um ataque distribuído de negação de serviço, o conhecido DDoS, do que de um apagão convencional. A diferença é que, nesse caso, em vez de inundar um servidor com tráfego, o atacante pressionaria a capacidade da rede de permanecer estável utilizando a própria energia como força de desestabilização.
Cerca de 400 unidades poderiam ser suficientes no cenário modelado
Para o Reino Unido, o GRIDLOCK calcula que o comprometimento coordenado de aproximadamente 29% da capacidade nacional de armazenamento — algo próximo de 400 unidades no cenário analisado — poderia ser suficiente para provocar uma falha de alcance nacional.
A modelagem estima que uma sequência desse tipo poderia evoluir para um apagão em menos de dois minutos, potencialmente atingindo cerca de 67 milhões de pessoas. O prejuízo econômico de um grande incidente foi estimado entre £2 bilhões e £10 bilhões.
O estudo também procura colocar em perspectiva o custo da prevenção. Segundo a Centrii, elevar a infraestrutura britânica de armazenamento ao Security Level 2 da IEC 62443 exigiria investimentos entre £400 milhões e £1 bilhão. Na lógica econômica apresentada pelo relatório, o valor gasto na proteção seria significativamente menor do que a perda potencial associada a um único ataque bem-sucedido.
O mesmo estudo olha para os Estados Unidos
A Centrii também aplicou a metodologia à rede elétrica do Texas, administrada pelo ERCOT. Nesse cenário, a empresa estima prejuízos de US$ 12 bilhões a US$ 65 bilhões em um ataque de grandes proporções.
O modelo aponta que o comprometimento de cerca de 5,4% da frota de baterias — aproximadamente 1.500 unidades — poderia ser suficiente para desestabilizar a rede texana e atingir potencialmente 30 milhões de pessoas. O custo estimado para elevar essa infraestrutura ao IEC 62443 Security Level 2 ficaria entre US$ 800 milhões e US$ 2,8 bilhões.
Rafael Narezzi ganha espaço na imprensa internacional
As conclusões do GRIDLOCK repercutiram nesta quarta-feira em veículos internacionais especializados. A Security Journal UK destacou a estimativa de 92% para o Reino Unido e ouviu Rafael Narezzi sobre a possibilidade de ataques que explorem a própria função de balanceamento dos sistemas de armazenamento.
A Data Centre News UK também tratou da modelagem e destacou a comparação feita pelo especialista brasileiro entre a manipulação coordenada das baterias e um ataque DDoS levado do ambiente puramente digital para a infraestrutura física de energia.
Para Narezzi, existe ainda uma dificuldade econômica importante por trás do problema. Conselhos de administração já reconhecem a existência do risco cibernético, mas têm mais dificuldade em mensurar financeiramente uma ameaça que, quando a proteção funciona, simplesmente não se concretiza.
A proposta do GRIDLOCK, segundo ele, é justamente traduzir exposição técnica em impacto econômico e permitir que investimentos em segurança de tecnologia operacional sejam comparados ao custo potencial de uma interrupção.
A conectividade que melhora a operação também amplia a superfície de ataque
O crescimento dos sistemas de armazenamento não é apenas uma questão de capacidade energética. As baterias modernas integram cada vez mais plataformas de controle remoto, sistemas em nuvem, interfaces de gerenciamento, redes industriais e tecnologias operacionais conectadas.
Essa arquitetura torna possível administrar milhares de ativos distribuídos de maneira eficiente, mas também cria a possibilidade de que uma vulnerabilidade deixe de afetar apenas uma instalação e passe a alcançar simultaneamente uma frota inteira.
A própria Centrii reconhece essa mudança. A empresa atua em segurança de ambientes de tecnologia operacional (OT) voltados para infraestruturas energéticas como solar, eólica, armazenamento, geração e sistemas híbridos. Em sua análise sobre o setor, vem alertando que a digitalização do armazenamento avança em ritmo mais rápido que a maturidade de segurança de muitos desses ambientes.
Não é apenas um cenário teórico
O novo estudo surge pouco depois de episódios concretos que voltaram a colocar a segurança da infraestrutura energética europeia em evidência.
Em agosto, foi revelado que uma pequena usina britânica ficou quatro dias fora de operação após um ataque cibernético, atribuído por fontes ouvidas pela imprensa britânica a hackers suspeitos de ligação com o Irã. O incidente foi comunicado ao National Cyber Security Centre (NCSC) e não provocou impacto perceptível no fornecimento nacional de energia.
Na Polônia, ataques ocorridos em dezembro de 2025 atingiram dezenas de instalações de energia renovável. Uma investigação posterior do CERT Polska identificou inclusive um caso em que invasores alcançaram uma rede de tecnologia operacional por meio de uma APN privada, utilizada na comunicação de infraestrutura energética distribuída.
Nenhum desses episódios equivale ao cenário extremo projetado pelo GRIDLOCK. Mas eles demonstram que ataques contra ativos energéticos distribuídos e seus sistemas de comunicação já fazem parte do ambiente real de ameaças.
Do ataque a uma usina ao risco sistêmico
O Crypto ID já havia chamado atenção para a ampliação da superfície de ataque provocada pela digitalização e pela conectividade do setor elétrico, ao analisar o ataque contra a instalação britânica e os desafios impostos por uma infraestrutura que combina equipamentos físicos, redes, sistemas de controle e acessos remotos.
Naquela reportagem, ouvimos especialistas brasileiros, entre eles Alexandre Siffert, Diretor da CERMOB e Rafael Narezzi, para compreender como a evolução tecnológica do setor também altera a natureza do risco cibernético.
O GRIDLOCK acrescenta agora uma nova dimensão à discussão. O problema deixa de ser apenas saber se um invasor consegue comprometer individualmente uma usina, um controlador ou um equipamento conectado. A questão passa a ser o que acontece quando dezenas ou centenas de ativos legítimos e distribuídos podem ser manipulados simultaneamente contra a própria estabilidade da infraestrutura da qual fazem parte.
E esse talvez seja o principal alerta trazido pelo estudo: em sistemas elétricos cada vez mais digitais, distribuídos e automatizados, a cibersegurança deixa de proteger apenas computadores e equipamentos. Ela passa a fazer parte da própria estabilidade da rede elétrica.
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