O que a Copa do Mundo FIFA 2026 pode nos ensinar sobre campanhas de curto prazo, jornadas fragmentadas dos clientes e o desafio de proteger os viajantes sem transformar a segurança em fricção?
Por Rafael Costa Abreu

À primeira vista, grandes eventos esportivos parecem seguir uma lógica previsível para a indústria de viagens: mais viajantes significam mais reservas, mais pagamentos e, inevitavelmente, novas oportunidades para fraudadores.
A Copa do Mundo FIFA 2026 aumentou a demanda por viagens internacionais, concentrou decisões de compra em períodos mais curtos e urgentes e criou um ambiente particularmente atraente para golpes envolvendo ingressos para jogos, hospedagem, voos e experiências exclusivas.
Interessante notar que o aumento das viagens ocorreu de maneira desigual entre as cidades-sede. Dados de reservas da International Air Transport Association (IATA) mostram que as reservas de voos para os 16 destinos aumentaram aproximadamente 4,7%, em média, em comparação com junho e julho de 2025, com variações que foram de um aumento de 21% em Monterrey a uma queda de 0,6% em Nova York e Nova Jersey. A média do torneio, portanto, esconde diferenças significativas entre os mercados.
Da mesma forma, as companhias aéreas em toda a América Latina não registraram um aumento uniforme das fraudes durante os meses próximos ao torneio. Uma análise da LexisNexis Risk Solutions de dados anonimizados de companhias aéreas revelou algo mais complexo e talvez mais significativo: picos concentrados e de curta duração nos ataques e padrões distintos ao longo das diferentes etapas da jornada digital.
Essas constatações não tornam o risco menos relevante. Pelo contrário, demonstram porque olhar apenas para as médias pode criar uma falsa sensação de estabilidade. Uma organização pode registrar pouco ou nenhum crescimento geral nas fraudes e, ainda assim, enfrentar uma onda agressiva de ataques em pontos específicos da jornada, como login, criação de contas ou resgate de recompensas de programas de fidelidade.
O risco não chega como uma única onda
O ambiente de ameaças em torno da recente Copa do Mundo foi real. Antes e durante o torneio, autoridades alertaram sobre sites que se passavam por canais oficiais, ofertas fraudulentas de ingressos para jogos e hospitalidade, falsos descontos em passagens aéreas e hospedagem e campanhas destinadas ao roubo de credenciais e informações de pagamento. A Interpol também alertou para um esquema recorrente na indústria aérea: a revenda de passagens adquiridas com cartões de pagamento comprometidos por meio de perfis em redes sociais ou sites que se passam por agências de viagens legítimas.
Uma ameaça crescente, porém, não significa que seu impacto aparecerá simultaneamente ou na mesma proporção em todas as organizações. Em uma jornada de login monitorada no Brasil pela LexisNexis Risk Solutions, os alertas de fraude foram mais de quatro vezes maiores em maio do que em abril, apesar de o volume total de eventos ter aumentado apenas 8%. No mês seguinte, com o início do torneio, a fraude caiu acentuadamente. O padrão observado é mais consistente com uma campanha direcionada do que com uma tendência sustentada impulsionada pelo calendário da Copa do Mundo.
É importante fazer uma distinção: alertas de fraude não representam perdas ou fraudes confirmadas. Eles são sinais comportamentais, de dispositivo, rede e identidade associados a um risco elevado. Observar as variações mês a mês dentro da mesma jornada de login ajuda a distinguir um pico de curta duração na atividade suspeita de uma tendência ampla do setor ou de uma perda financeira confirmada.
Uma segunda jornada de login contou a história oposta. O volume de eventos aumentou enquanto a taxa de fraude diminuiu. Durante a criação de conta, a densidade relativa de fraude apresentou aumento modesto, favorecida por um desempenho de detecção aprimorado e pela redução de falsos positivos. O resgate de produtos seguiu um padrão diferente: o volume de transações aumentou, ao passo que tanto o número de eventos de fraude quanto a taxa de fraude diminuíram.
Essas diferenças reforçam uma lição importante: um mesmo evento pode exercer pressão sobre um canal, ter pouco efeito sobre outro e até coincidir com indicadores melhores em uma terceira jornada. A fraude não segue um calendário institucional, nem se distribui uniformemente por uma organização ou mercado. Ela se adapta à oportunidade, à vulnerabilidade e ao retorno esperado.
Os primeiros sinais podem não parecer fraude
Mudanças relevantes no comportamento de login e sessão podem surgir antes de uma transação fraudulenta. Um aumento nas sessões desconhecidas, taxas mais baixas de reconhecimento de dispositivos ou uma mudança abrupta no comportamento de navegação não comprovam, por si só, uma atividade criminosa.
Essas mudanças podem simplesmente refletir viajantes conectando-se por redes desconhecidas, trocando de dispositivos, utilizando roaming ou adotando novas tecnologias. Mas também podem ser indicadores iniciais de tomada de controle de contas, uso de credenciais comprometidas, automação maliciosa ou tentativas de ocultar uma identidade digital. O desafio está em interpretá-las dentro de um contexto mais amplo e acompanhar sua evolução, em vez de tratá-las automaticamente como evidência suficiente para bloquear uma transação.
Essa complexidade é particularmente relevante na indústria de viagens porque viajantes legítimos naturalmente apresentam comportamentos que podem parecer incomuns. Eles acessam contas a partir de diferentes países, fazem compras em moedas estrangeiras, conectam-se a redes desconhecidas, reservam próximo à data de partida, alteram itinerários e realizam transações diferentes de seus padrões habituais. Em outras palavras, algumas das características que podem indicar risco elevado também fazem parte de uma experiência de viagem perfeitamente legítima. O desafio é distinguir uma anomalia que representa risco de uma anomalia explicada pelo contexto da viagem.
Os fraudadores veem toda a jornada
Para os criminosos, a jornada de viagem representa uma sequência conectada de oportunidades. Um site de viagens fraudulento pode capturar informações pessoais, credenciais de contas e outros dados de vítimas desavisadas.
Essas informações podem ser utilizadas posteriormente para acessar contas legítimas de viagens, alterar itinerários, resgatar pontos de fidelidade, comprar passagens aéreas ou redirecionar reembolsos. Em alguns casos, os viajantes recebem o que parece ser uma reserva válida e só descobrem a fraude depois do pagamento ou quando a companhia aérea cancela a passagem.
Do ponto de vista organizacional, no entanto, essas ações dos clientes frequentemente pertencem a diferentes equipes operacionais, sistemas e métricas de desempenho. As equipes de autenticação, pagamentos, programas de fidelidade, atendimento ao cliente, cibersegurança e prevenção a fraudes podem enxergar apenas partes de um mesmo ataque. Os criminosos, por outro lado, não estão sujeitos a essas divisões internas e podem explorar justamente as lacunas entre elas.
Essa falta de colaboração está custando caro à indústria. A International Air Transport Association (IATA) estima que a fraude com cartões de pagamento custe à indústria aérea mais de US$ 1 bilhão por ano e aponta sobreposição de eventos de fraude entre diferentes participantes do setor. Identidades, dispositivos, cartões de pagamento e padrões de ataque que circulam entre organizações podem oferecer sinais relevantes para a prevenção. O desafio é que nenhuma empresa, isoladamente, consegue alcançar essa visão de 360 graus do risco.
Mais bloqueios não significam mais segurança
Diante de eventos de grande visibilidade, uma reação possível é tornar as regras mais rígidas e aumentar os requisitos de verificação. Embora essa abordagem possa reduzir determinados riscos, ela também pode transformar uma experiência legítima de viagem em uma sequência de recusas, desafios de autenticação e interações com o atendimento ao cliente. Durante períodos de alta demanda, os viajantes estão motivados, mas impacientes, e cada etapa adicional se converte diretamente em reservas abandonadas e perda de receita.
Uma estratégia de segurança mais eficaz não consiste em tratar todo comportamento incomum como suspeito, mas em avaliar se ele faz sentido dentro do contexto da jornada do cliente. Alcançar esse nível de precisão exige uma combinação de inteligência de identidade e dispositivo, histórico da conta, análise comportamental, contexto da transação e inteligência de rede, para que as decisões reflitam melhor o risco associado à jornada individual de cada cliente.
As organizações também precisam reduzir a distância entre as equipes internas. Quando autenticação, pagamentos, programas de fidelidade, reembolsos e atendimento ao cliente compartilham inteligência de risco, uma anomalia aparentemente pequena pode ganhar significado quando relacionada a outros sinais. O objetivo não é simplesmente detectar a fraude na etapa final da transação, mas reconhecer a progressão de um possível ataque antes que ele resulte em perdas para a empresa ou para o viajante.
A lição da Copa do Mundo
A Copa do Mundo FIFA ampliou a superfície global de ataque e proporcionou aos criminosos um ambiente definido por urgência, escassez e forte apelo emocional. Mas a principal lição não é que todo grande evento desencadeie automaticamente um aumento regional das fraudes. Esses eventos funcionam como testes de estresse que expõem a falta de visibilidade, controles e conexões, e nos quais as médias ocultam desvios significativos.
A indústria de viagens precisa ir além da expectativa de que uma única linha de tendência possa explicar o risco. A fraude moderna se desenvolve por meio de campanhas de rápida evolução, muda rapidamente entre canais e explora jornadas fragmentadas dos clientes. A verdadeira maturidade está em detectar esses movimentos sem tratar viajantes legítimos como criminosos.
Quando a média parece estável, o risco não necessariamente desapareceu. Ele pode estar oculto sob a forma de um vetor de ataque de curto prazo. O desafio para as organizações é identificar isso antes que ocorram perdas.
Sobre a LexisNexis® Risk Solutions
A LexisNexis® Risk Solutions fornece aos clientes análises baseadas em informações e ferramentas de decisão que combinam conteúdo público e específico do setor com tecnologia e algoritmos avançados para auxiliá-los na avaliação e previsão de riscos e no aprimoramento da eficiência operacional. Com sede na região metropolitana de Atlanta, Geórgia, a empresa possui presença global, atende clientes em mais de 190 países e territórios e faz parte da RELX.
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