Redbelt Security identifica novas tentativas de uma fraude corporativa já conhecida. Alertas internacionais revelam como deepfakes e contas de mensagens comprometidas ampliam os riscos para empresas
O golpe do falso executivo, fraude em que criminosos se passam por dirigentes de empresas para induzir funcionários a realizar transferências financeiras, voltou a chamar a atenção de especialistas em cibersegurança. A modalidade, conhecida internacionalmente como CEO fraud ou boss scam, agora incorpora aplicativos de mensagens, recursos de inteligência artificial e técnicas de comprometimento de contas legítimas.
A Redbelt Security, consultoria brasileira especializada em cibersegurança, informa que sua equipe de Threat Intelligence identificou, nos últimos dias, tentativas recorrentes desse tipo de fraude pelo WhatsApp, especialmente contra profissionais dos departamentos financeiro, compras, contas a pagar e assistência executiva.
O alerta brasileiro acompanha uma preocupação crescente no exterior. Em julho de 2026, a Securities and Exchange Board of India (SEBI), órgão regulador do mercado de capitais da Índia, publicou um comunicado sobre o aumento das ocorrências do chamado boss scam. A advertência foi divulgada pela Reuters e também repercutiu na imprensa internacional.
Embora a fraude seja antiga, a combinação de engenharia social com recursos tecnológicos capazes de reproduzir vozes, imagens e comunicações corporativas cria novas dificuldades para identificar solicitações fraudulentas.
Como funciona a abordagem pelo WhatsApp
Segundo a Redbelt Security, o criminoso geralmente inicia o contato a partir de um número desconhecido, muitas vezes com DDD da mesma região da vítima, utilizando o nome e a fotografia autêntica de um diretor ou integrante da alta administração.
A mensagem pode começar de maneira informal, com uma pergunta como “Bom dia, está ocupado?”, sem apresentar imediatamente qualquer solicitação financeira.
Depois de estabelecer a conversa, o golpista passa a exigir um pagamento urgente, normalmente fora da programação habitual da empresa. Os dados bancários do suposto beneficiário são fornecidos posteriormente.
Para aumentar a pressão, o falso executivo pode alegar que está em uma reunião, que não pode atender a uma chamada ou que a operação envolve informações confidenciais.
Essas justificativas procuram impedir que o funcionário confirme a solicitação por outros canais antes de efetuar a transferência.
A investigação de casos desse tipo mostra que os valores desviados costumam ser rapidamente distribuídos entre diversas contas bancárias, uma estratégia que dificulta o rastreamento dos recursos e a recuperação do dinheiro.
Um exemplo recente foi alvo da Operação Interface, deflagrada pela Polícia Civil do Rio Grande do Sul. Segundo o G1, criminosos se passaram pelo presidente de uma indústria de Canoas (RS) e convenceram uma gerente financeira a realizar transferências bancárias para contas controladas pelo grupo. O prejuízo foi de cerca de R$ 200 mil. A operação cumpriu mandados de prisão e de busca e apreensão nos estados de Mato Grosso e Rio Grande do Norte, onde estavam suspeitos de integrar a organização criminosa investigada
Uma fraude antiga que se adapta às novas tecnologias
A prática de utilizar o nome de dirigentes para solicitar pagamentos fraudulentos não começou com a inteligência artificial.
Tradicionalmente, esses ataques eram realizados principalmente por e-mails falsificados ou contas corporativas comprometidas, em uma modalidade conhecida como Business Email Compromise (BEC).
O Crypto ID já havia abordado esse tipo de fraude em reportagem sobre ataques BEC, destacando a utilização da identidade aparente de CEOs e fundadores para enganar funcionários.
A mudança mais recente está na diversificação dos canais utilizados pelos criminosos, que passaram a explorar aplicativos de mensagens instantâneas, plataformas corporativas de comunicação e recursos de inteligência artificial para tornar as abordagens mais convincentes.
Deepfake já provocou prejuízo de US$ 25 milhões em multinacional
Um dos exemplos internacionais mais expressivos ocorreu com a multinacional britânica de engenharia Arup, que confirmou ter sido vítima de uma fraude de aproximadamente US$ 25 milhões em Hong Kong, em 2024.
Criminosos utilizaram deepfakes durante uma videoconferência para simular a presença de executivos e colegas de trabalho. Convencido da legitimidade das instruções, um funcionário realizou 15 transferências para cinco contas bancárias.
O caso, divulgado pelo Financial Times, tornou-se uma referência internacional sobre a utilização de inteligência artificial em fraudes corporativas. A empresa informou na ocasião que seus sistemas internos não haviam sido comprometidos. O golpe explorou a confiança do funcionário nas pessoas que acreditava estar vendo e ouvindo durante a reunião.
O episódio demonstra que a manipulação de profissionais autorizados a realizar pagamentos pode provocar perdas expressivas mesmo sem uma invasão direta da infraestrutura financeira.
A utilização de deepfakes representa uma evolução em relação às fraudes tradicionais porque permite reproduzir características visuais e vocais de pessoas conhecidas, reduzindo a eficácia de verificações baseadas apenas em reconhecimento de imagem ou voz.
Isso não significa, entretanto, que todas as tentativas relatadas pela Redbelt no Brasil tenham utilizado deepfakes. A consultoria identificou abordagens fraudulentas pelo WhatsApp e destacou o uso de inteligência artificial como um fator adicional de risco.
Como evitar o golpe do falso executivo
Para reduzir a exposição a esse tipo de fraude, a Redbelt Security recomenda que as empresas adotem regras claras para autorização de pagamentos e orientem os funcionários a não executar transferências com base exclusivamente em mensagens ou chamadas.
As principais medidas incluem:
- Confirmar pedidos extraordinários: entrar em contato com o executivo por um telefone previamente cadastrado ou presencialmente, sem utilizar apenas o número que encaminhou a solicitação.
- Respeitar o fluxo financeiro: manter as etapas de aprovação mesmo quando a ordem aparentemente vier da presidência ou da diretoria.
- Verificar alterações de beneficiários: tratar como suspeitos pedidos de mudança de dados bancários, especialmente quando acompanhados de urgência ou sigilo.
- Proteger as contas de mensagens: ativar a verificação em duas etapas do WhatsApp e revisar dispositivos e sessões conectadas.
- Treinar as equipes: incluir profissionais de tesouraria, financeiro, compras, assistência executiva e funcionários recém-contratados nas orientações preventivas.
Os procedimentos também precisam considerar a possibilidade de comprometimento de contas legítimas e de falsificação de voz ou vídeo. A simples confirmação de que uma mensagem partiu de um contato conhecido não deve ser considerada autorização suficiente para movimentar recursos.
O que fazer quando o pagamento já foi realizado
Caso a transferência tenha sido efetuada, a primeira providência é comunicar imediatamente a instituição financeira, apresentando os dados da operação e relatando a suspeita de fraude.
Quando o pagamento é realizado por Pix, a vítima pode solicitar a contestação por meio do Mecanismo Especial de Devolução (MED), criado pelo Banco Central para facilitar a recuperação de valores em situações de fraude, golpe ou crime.
O pedido pode ser registrado em até 80 dias após a transação, mas a rapidez aumenta as possibilidades de recuperação. A devolução depende da análise das instituições envolvidas e da existência de recursos disponíveis, não sendo garantida.
Também é importante preservar as mensagens recebidas, os números utilizados, comprovantes das transferências, dados bancários dos beneficiários e demais evidências.
A empresa deve registrar boletim de ocorrência e comunicar sua equipe de segurança da informação, especialmente quando houver suspeita de comprometimento de dispositivos ou contas corporativas.
Fraude exige revisão dos procedimentos de autorização financeira
O avanço do golpe do falso executivo evidencia uma vulnerabilidade que não depende necessariamente da invasão dos sistemas financeiros das organizações.
A exploração da confiança entre profissionais, associada à pressão por urgência, pode ser suficiente para provocar prejuízos expressivos.
Com ferramentas capazes de falsificar vozes e imagens, até mesmo uma chamada ou videoconferência pode deixar de oferecer uma confirmação confiável.
Nesse cenário, a principal defesa está na combinação de procedimentos formais de autorização, verificação independente das solicitações e treinamento dos profissionais envolvidos nas operações financeiras.
A tecnologia utilizada pelos criminosos evolui, mas o ponto decisivo continua sendo impedir que uma ordem fraudulenta se transforme em um pagamento autorizado.
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