Comissão Europeia apura se a plataforma adotou medidas suficientes contra anúncios falsos, golpes com dados de reservas e publicidade paga sem identificação clara. Empresa pode enfrentar multa de até 6% de seu faturamento global
A Comissão Europeia abriu, em 21 de outubro de 2026, uma investigação formal contra a Booking.com, uma das principais plataformas de reservas de hospedagem do mundo, para apurar possíveis violações do Regulamento dos Serviços Digitais da União Europeia (Digital Services Act, DSA).
Fundada em 1996, em Amsterdã, nos Países Baixos, a Booking.com completa 30 anos de operação em 2026. A plataforma pertence à empresa holandesa Booking.com B.V., integrante do grupo norte-americano Booking Holdings Inc., controlador também de marcas como Priceline, Agoda, KAYAK e OpenTable.
A empresa começou como uma pequena operação de reservas de hospedagem e se transformou em uma das maiores plataformas digitais de turismo do mundo. Atualmente, mantém mais de 28 milhões de anúncios de acomodações, entre hotéis, apartamentos, casas e outros tipos de hospedagem, segundo informações institucionais da própria companhia.
Os dados da plataforma de inteligência de tráfego digital Semrush mostram que, em setembro de 2026, a Booking.com registrou aproximadamente 475,7 milhões de visitas ao site em todo o mundo. Em agosto, haviam sido estimadas 556,36 milhões e, em julho, 570,69 milhões de visitas.
O levantamento coloca a Booking.com na liderança mundial dos sites da categoria de viagens e turismo em setembro de 2026. Os números correspondem a estimativas de visitas, e não à quantidade de pessoas diferentes que utilizaram o serviço ou de reservas efetivamente realizadas.
União Europeia concentra parte expressiva dos acessos
Entre os cinco países que mais acessaram o site em setembro de 2026, três pertencem à União Europeia: Alemanha, Itália e Espanha. Juntos, esses mercados responderam por aproximadamente 93,6 milhões de visitas no mês, o equivalente a 19,7% do tráfego mundial estimado da Booking.com.
O Reino Unido também figura entre os principais mercados europeus, mas não integra a União Europeia desde 2020.
| País | Visitas em setembro de 2026 | Participação mundial |
|---|---|---|
| Estados Unidos | 61,21 milhões | 12,87% |
| Reino Unido | 36,95 milhões | 7,77% |
| Alemanha (UE) | 36,56 milhões | 7,69% |
| Itália (UE) | 29,74 milhões | 6,25% |
| Espanha (UE) | 27,30 milhões | 5,74% |
A presença de três países da União Europeia entre os cinco maiores mercados da plataforma ajuda a dimensionar o alcance da investigação conduzida pela Comissão Europeia. Os 93,6 milhões de acessos representam apenas a soma dos três países europeus que aparecem nesse ranking, não o total de visitas provenientes dos 27 países da União Europeia.
Além das estimativas de tráfego, a própria Booking.com informa, em sua documentação de conformidade com o Regulamento dos Serviços Digitais (DSA), que o serviço apresentou mais de 45 milhões de destinatários ativos mensais na União Europeia, em média, no primeiro semestre de 2026. A companhia não fornece um número exato nessa declaração pública.
A métrica de destinatários ativos mensais, utilizada pelo DSA, tem metodologia diferente da contagem de visitas ao site e não deve ser confundida com ela.
Comissão Europeia investiga três possíveis falhas na atuação da Booking.com
O procedimento examina se a empresa avaliou adequadamente e adotou medidas eficazes para reduzir riscos relacionados a anúncios fraudulentos, golpes de phishing e utilização indevida de informações de reservas e hóspedes.
A investigação também envolve a transparência dos resultados apresentados aos consumidores, especialmente ofertas que recebem maior destaque porque os estabelecimentos pagam comissões mais elevadas à plataforma.
Segundo o Comunicado oficial da Comissão Europeia, essas práticas podem representar descumprimento das obrigações impostas às grandes plataformas digitais. A abertura do processo, entretanto, não significa que as infrações tenham sido comprovadas.
Golpes exploram dados reais de reservas e canais de comunicação
Um dos pontos mais relevantes da investigação envolve a possibilidade de criminosos utilizarem informações legítimas de reservas para tornar mensagens fraudulentas mais convincentes.
A Comissão Europeia pretende examinar como os dados de hóspedes e reservas são compartilhados com os estabelecimentos e de que maneira o sistema de mensagens da Booking.com pode ser explorado em ataques de engenharia social.
Nesse tipo de fraude, o criminoso pode se passar por um hotel ou outro estabelecimento para solicitar pagamentos adicionais, confirmação de dados bancários ou acesso a páginas fraudulentas.
O conhecimento de informações reais sobre a hospedagem, como datas, nome do estabelecimento e detalhes da reserva, pode aumentar a credibilidade da abordagem e dificultar a identificação do golpe pelo consumidor.
A investigação busca determinar se a plataforma adotou salvaguardas suficientes para impedir o uso indevido dessas informações e reduzir o risco de solicitações fraudulentas de pagamento.
A Comissão Europeia não afirmou que houve um vazamento generalizado de dados na Booking.com. O que está sob análise são os riscos associados ao compartilhamento e à utilização das informações, além da segurança e do funcionamento dos canais de comunicação.
Anúncios de imóveis inexistentes também estão sob investigação
Outro eixo do processo envolve a publicação de ofertas fraudulentas, incluindo imóveis inexistentes, anúncios feitos por pessoas que se apresentam falsamente como proprietárias e acomodações que não cumprem as exigências aplicáveis.
A Comissão pretende verificar se a Booking.com identifica adequadamente esses riscos e dispõe de procedimentos eficazes para retirar anúncios fraudulentos ou irregulares.
O problema ultrapassa a possibilidade de prejuízo financeiro imediato. Um consumidor pode realizar pagamentos, organizar uma viagem internacional e descobrir apenas ao chegar ao destino que a acomodação reservada não existe ou não está disponível nas condições anunciadas.
Nesse contexto, a investigação examina a capacidade da plataforma de prevenir, identificar e mitigar fraudes em escala, conforme as obrigações estabelecidas pelo DSA.
Publicidade paga pode estar sendo apresentada como resultado comum
A terceira frente da investigação envolve a forma como os estabelecimentos aparecem nos resultados de busca da Booking.com.
De acordo com a Comissão Europeia, fornecedores de hospedagem podem obter maior visibilidade pagando comissões mais elevadas à plataforma.
O problema regulatório surge quando o consumidor não consegue distinguir claramente uma oferta posicionada por critérios de relevância de outra que recebeu destaque mediante pagamento.
O DSA determina que os usuários devem conseguir identificar quando estão visualizando publicidade, quem está por trás do anúncio, quem financiou sua exibição e por que ele está sendo apresentado.
Bruxelas pretende verificar se a Booking.com cumpre essas exigências, previstas no artigo 26 do regulamento.
Investigação considera relatórios apresentados desde 2023
A abertura do procedimento formal foi precedida por uma investigação preliminar que incluiu a análise de relatórios de avaliação de riscos apresentados pela Booking.com em 2026 e nos três anos anteriores.
A Comissão também examinou relatórios de transparência da plataforma e respostas a pedidos formais de informações encaminhados em 23 de setembro de 2025 e 26 de maio de 2026.
Desde abril de 2023, a União Europeia classifica a Booking.com como uma plataforma digital de grande porte (VLOP, na sigla em inglês), o que exige da empresa medidas mais rigorosas para identificar, avaliar e reduzir riscos associados às suas operações.
A fiscalização está concentrada principalmente nos artigos 34 e 35 do DSA, relacionados à avaliação e redução desses riscos, e no artigo 26, que trata da transparência publicitária.
A Comissão Europeia atua em cooperação com a Autoridade Neerlandesa para os Consumidores e os Mercados, uma vez que a Booking.com está sediada nos Países Baixos.
Comissão Europeia cobra responsabilidade das plataformas

Henna Virkkunen, vice-presidente executiva da Comissão Europeia responsável por Soberania Tecnológica, Segurança e Democracia, afirmou:
“Os europeus devem poder reservar as suas férias sem receio de serem enganados. O Regulamento dos Serviços Digitais define claramente as responsabilidades das plataformas para fazer face a estes riscos e temos de assegurar que a principal plataforma de reservas na Europa leva essas responsabilidades a sério”
O posicionamento reforça a preocupação das autoridades europeias com fraudes que utilizam serviços digitais legítimos para alcançar consumidores.
Booking.com afirma que está cooperando com a investigação
Em manifestação divulgada à imprensa internacional, a Booking.com informou que está cooperando integralmente com a investigação.
A empresa afirmou que segurança, confiança e proteção de informações pessoais estão entre suas prioridades e declarou manter o compromisso de trabalhar com governos, órgãos reguladores, autoridades policiais e parceiros do setor para combater o cibercrime e as fraudes online.
Empresa pode enfrentar multa de até 6% do faturamento global
Caso sejam comprovadas violações do DSA, a Booking.com poderá receber sanções financeiras que podem chegar a 6% de seu faturamento anual mundial.
A Comissão Europeia informou que dará prioridade à investigação e poderá realizar novas solicitações de informações, entrevistas e inspeções.
O regulador também poderá determinar medidas provisórias ou aceitar compromissos apresentados pela empresa para solucionar os problemas identificados.
Não existe prazo legal fixo para a conclusão do procedimento.
O caso coloca sob fiscalização três aspectos diretamente relacionados à operação das plataformas de turismo: a prevenção de anúncios fraudulentos, a proteção dos canais utilizados para comunicação com consumidores e a transparência comercial das ofertas apresentadas.
A investigação deverá estabelecer se os mecanismos adotados pela Booking.com atendem às exigências europeias e se serão necessárias mudanças em seus procedimentos de prevenção a fraudes.
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