Brasil amplia rede de comunicação privativa para segurança pública e governo, com 5G, fibra óptica e criptografia de Estado
A necessidade de garantir comunicações independentes e resilientes para forças de segurança pública e órgãos governamentais vem impulsionando a adoção de redes privativas em diferentes países. Nos Estados Unidos, o colapso das comunicações entre bombeiros, policiais e outras instituições durante os atentados de 11 de setembro de 2001, que completam 25 anos este mês, contribuiu para a criação da FirstNet, modelo de rede privativa voltada à segurança pública.
A iniciativa norte-americana foi seguida por países como França, Alemanha e Coreia do Sul, entre outras nações. No Brasil, a Entidade Administradora da Faixa (EAF) executa um projeto que combina uma infraestrutura de telecomunicações de missão crítica para forças de segurança com uma rede fixa governamental protegida por criptografia de Estado 100% nacional.
Enquanto a implantação da FirstNet nos Estados Unidos levou anos até o lançamento oficial, em março de 2018, o projeto brasileiro começou a ser implementado em 2026. A infraestrutura já iniciou operação em alguns locais e segue em expansão, com previsão de cobertura completa em 2027.
Além de iniciativas como a FirstNet, nos Estados Unidos, e a RFF (Réseau Radio du Futur), na França, outros países mantêm projetos de comunicações críticas. Entre eles estão Reino Unido, Alemanha, Bélgica, Países Baixos, Suécia, Noruega, Hungria, Austrália e Coreia do Sul.
Enquanto Alemanha, Bélgica e Países Baixos já operam redes de segurança pública consolidadas no modelo tradicional, países como a Finlândia avançam na migração desses sistemas para arquiteturas baseadas em 4G e 5G.
A mudança acompanha uma tendência internacional de substituição dos sistemas de rádio profissional de voz, conhecidos como push-to-talk, por redes móveis de banda larga. As tecnologias LTE e 5G permitem o tráfego de vídeos em tempo real, dados e informações de geolocalização, ampliando a capacidade de comunicação das equipes em campo.
Em paralelo, países que avançam nesse modelo também substituem conexões comerciais por infraestruturas próprias, com o objetivo de garantir maior disponibilidade e proteção cibernética para comunicações de Estado.
Dois pilares para a comunicação governamental
No Brasil, a Rede de Comunicação Privativa da Administração Pública Federal está estruturada em dois componentes independentes e complementares.
A Rede Privativa Móvel de Missão Crítica (Segurança e Emergências) é destinada à atuação em campo de polícias, bombeiros e agentes de resgate. A infraestrutura utiliza a arquitetura de Operadora Móvel Virtual Segura (SMVNO, na sigla em inglês), em LTE/5G, com prioridade absoluta de tráfego.
O modelo permite manter a estabilidade das comunicações em situações de crise e transportar grandes volumes de dados, incluindo vídeos em alta definição, imagens de drones, informações de geolocalização e consultas a bancos de dados. A estrutura amplia, assim, as possibilidades em relação aos sistemas tradicionais de rádio, restritos principalmente à comunicação por voz.
O segundo componente é a Rede Privativa Fixa (Administração Pública Federal), formada por uma infraestrutura subterrânea de fibra óptica isolada da internet comercial. A rede funciona como uma estrutura exclusiva para o tráfego de dados do Governo Federal.
As obras já implantadas têm capacidade para atender, até o momento, mais de 350 prédios em 24 capitais. São Paulo, Cuiabá e Manaus ainda não integram essa etapa. A previsão é ativar a rede em seis localidades até outubro de 2026, expandi-la para 22 cidades em dezembro e concluir a implantação nas capitais restantes até 2027.
Um dos elementos da infraestrutura é a utilização de criptografia de Estado, preparada para a era pós-quântica.
O projeto é executado pela EAF, sob supervisão da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), por meio do Grupo de Acompanhamento da Implantação das Soluções para os Problemas de Interferência (Gaispi). Com a conclusão das etapas de infraestrutura, a gestão será direcionada ao Ministério das Comunicações.
Brasil busca ampliar escala da infraestrutura crítica
A iniciativa brasileira reúne, em uma mesma arquitetura, conectividade móvel para forças de segurança, uma rede subterrânea de fibra óptica para a administração federal e mecanismos de proteção das informações do Estado.

Segundo a presidente da EAF, Gina Marques, a implantação do ecossistema foi viabilizada a partir de um modelo financeiro e regulatório baseado nas obrigações estabelecidas pelo Leilão do 5G de 2021. Os compromissos foram direcionados para a construção da infraestrutura pública sem utilização de recursos do orçamento da União.
“O grande mérito do projeto brasileiro é não olhar a comunicação crítica apenas como conectividade. Estamos construindo uma infraestrutura estratégica de Estado, combinando fibra óptica, mobilidade, interoperabilidade, alta disponibilidade e criptografia nacional. E fizemos isso a partir de um modelo de financiamento que transformou compromissos do leilão do 5G em um legado permanente para o Brasil”, disse Gina Marques.
Sobre a EAF
A Entidade Administradora da Faixa (EAF) é uma instituição sem fins lucrativos criada por determinação da Anatel e vinculada ao Ministério das Comunicações. Entre suas atribuições estão a limpeza da faixa de 3,5 GHz, essencial para a operação do 5G no país; a execução dos programas Siga Antenado e Brasil Antenado; a implantação das infovias na região amazônica, para expandir a infraestrutura de telecomunicações no Norte do Brasil; e o desenvolvimento das redes privativas de comunicação para o Governo Federal.
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