Infraestrutura ganha importância com IA, nuvem e data centers e entra no centro do debate da Anatel sobre segurança, resiliência e soberania digital
Muito antes de uma informação chegar ao celular, alimentar um modelo de inteligência artificial, autorizar uma transação financeira ou conectar uma empresa brasileira a um serviço hospedado em outro continente, os dados percorrem uma infraestrutura que permanece praticamente invisível para a maioria dos usuários.
São os cabos submarinos, responsáveis por aproximadamente 99% do tráfego internacional de dados do Brasil, segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).
A dimensão desse número ajuda a entender por que essa infraestrutura deixou de ser apenas uma questão de telecomunicações.
Serviços financeiros, computação em nuvem, aplicações governamentais, plataformas digitais e, cada vez mais, sistemas de inteligência artificial dependem da capacidade de transportar grandes volumes de dados entre países com disponibilidade, velocidade e segurança.
Para a própria Anatel, os cabos têm importância estratégica para a soberania, a segurança nacional e o desenvolvimento da economia digital brasileira.
IA aumenta a pressão sobre a infraestrutura física da internet
A expansão da inteligência artificial torna ainda mais evidente uma realidade que às vezes desaparece por trás da ideia de “nuvem”: a economia digital continua dependendo de infraestrutura física.
Modelos de IA, data centers, serviços de nuvem e aplicações distribuídas precisam movimentar quantidades crescentes de dados entre instalações, países e continentes. Nesse ambiente, capacidade internacional, baixa latência e rotas redundantes passam a ser componentes importantes da estratégia digital.
A Gartner estima que os gastos mundiais com sistemas de data centers chegarão a US$ 787,99 bilhões em 2026, crescimento de 55,8% sobre 2025. Segundo a consultoria, a expansão está sendo impulsionada principalmente pela infraestrutura necessária para suportar cargas de trabalho de IA e pela demanda dos grandes provedores de nuvem.
É nesse ponto que cabos submarinos, redes terrestres e data centers começam a ser vistos menos como estruturas independentes e mais como partes de um mesmo ecossistema.
A própria Anatel chama atenção para essa crescente integração entre cabos submarinos, data centers e redes terrestres de alta capacidade e considera que essa interdependência pode exigir uma abordagem regulatória coordenada.
Brasil discute novas regras para cabos submarinos
O tema ganhou espaço na Agenda Regulatória 2025-2026 da Anatel.
Em 2026, a agência abriu uma Tomada de Subsídios para avaliar a necessidade de atualizar e consolidar as regras aplicáveis aos cabos submarinos que chegam ao País. Entre os assuntos colocados em discussão estão requisitos mínimos de segurança física e cibernética, governança institucional, operação e manutenção, fiscalização e mecanismos para estimular maior diversificação geográfica dos pontos de aterragem.
Um dos pontos de atenção é justamente a concentração da infraestrutura.
Segundo a Anatel, parte relevante dos pontos de aterragem e da capacidade internacional está concentrada em hubs como Fortaleza, Rio de Janeiro, Praia Grande e Santos, situação que pode aumentar vulnerabilidades sistêmicas para a conectividade nacional.
A discussão regulatória, portanto, não trata apenas de ampliar capacidade. Envolve pensar em redundância, segurança física, proteção cibernética, rotas alternativas e capacidade de recuperação diante de incidentes.
A agência também colocou em debate a possibilidade de maior coordenação entre os diversos órgãos envolvidos na implantação e operação dessas estruturas, inclusive com a discussão sobre mecanismos centralizados para determinados procedimentos. A meta prevista na Agenda Regulatória é concluir a Análise de Impacto Regulatório e a respectiva proposta até o final de 2026.
Onde a Cirion entra nesse ecossistema
É nesse cenário de crescimento do tráfego, expansão da IA e busca por maior resiliência que operadoras de infraestrutura digital ampliam redes terrestres, submarinas e conexões com data centers.
A Cirion Technologies opera uma plataforma de conectividade que atravessa a América Latina e reúne mais de 50 mil quilômetros de fibra submarina, mais de 32 mil quilômetros de redes Long Haul, 22 mil quilômetros de redes metropolitanas e mais de 160 data centers conectados. Os números são divulgados pela própria companhia.
A lógica é aproximar diferentes componentes da infraestrutura digital. Cabos internacionais transportam dados entre países e continentes, redes terrestres levam essa capacidade até os mercados locais e os data centers funcionam como pontos de processamento, armazenamento e interconexão.
Para empresas, hyperscalers, operadoras e provedores de internet, a existência de diferentes rotas também está diretamente relacionada à continuidade operacional.

“Os cabos submarinos deixaram de ser apenas infraestrutura de telecomunicações para se tornarem ativos estratégicos da economia digital. À medida que cresce a demanda por inteligência artificial, computação em nuvem e serviços digitais, o Brasil precisa combinar investimentos em conectividade com um ambiente regulatório moderno, que fortaleça a segurança, a resiliência das redes e a previsibilidade para novos projetos”, afirma Augusto Salomon, presidente Brasil da Cirion.
“Na Cirion, entendemos que conectividade internacional, data centers e infraestrutura de nuvem fazem parte de um mesmo ecossistema. Investir na expansão e na diversificação das rotas internacionais é investir na competitividade do Brasil, na atração de novos negócios e na construção de uma infraestrutura digital preparada para os desafios das próximas décadas”, completa.
A infraestrutura invisível ganha importância estratégica
A discussão sobre cabos submarinos revela uma característica importante da atual transformação digital.
Quanto mais serviços migram para a nuvem e quanto maior o uso da inteligência artificial, mais estratégica se torna a infraestrutura física necessária para fazer os dados circularem.
No caso brasileiro, a combinação entre posição geográfica, mercado consumidor, expansão dos data centers e conexão com diferentes continentes cria oportunidades, mas também aumenta a necessidade de planejar segurança e resiliência no longo prazo.
Afinal, por trás da IA, dos serviços financeiros digitais, do governo eletrônico, das plataformas de conteúdo e das aplicações que utilizamos diariamente existe uma infraestrutura de fibras ópticas atravessando oceanos.
E 99% do tráfego internacional de dados do Brasil passa por ela.
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