Operação Economic Outcast aponta transações relacionadas à evasão de sanções internacionais, ransomware, crimes cibernéticos e movimentações envolvendo entidades do Irã, Rússia e Coreia do Norte; Identificação de clientes e monitoramento de transações estão no centro do caso
O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou, nesta sexta-feira, 6 de novembro de 2026, uma medida contra a corretora internacional de criptomoedas MEXC Global, após identificar movimentações de pelo menos US$ 16,7 bilhões associadas a atividades potencialmente ilícitas, entre maio de 2021 e maio de 2026.
A determinação foi emitida pela Financial Crimes Enforcement Network (FinCEN), órgão americano de inteligência financeira responsável pelo combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento de atividades ilícitas.
A medida integra a Operação Economic Outcast, iniciativa do governo americano voltada à interrupção de redes financeiras utilizadas para contornar sanções econômicas internacionais, especialmente aquelas relacionadas ao Irã.
A ordem estabelece a proibição de transferências de recursos entre instituições financeiras abrangidas pela legislação americana e a MEXC Global. A restrição inclui transferências de moedas virtuais conversíveis e entrará em vigor 30 dias após sua publicação no Federal Register, o diário oficial federal dos Estados Unidos.
A decisão não representa, por si só, a interrupção mundial das operações da corretora, mas restringe seu acesso ao sistema financeiro americano.
Uma das maiores corretoras de criptomoedas do mundo
Fundada em 2018 e constituída nas Seychelles, a MEXC Global opera internacionalmente por meio de diferentes entidades e estruturas corporativas.
Segundo a documentação da FinCEN, em junho de 2026 a plataforma processava mais de US$ 1 bilhão em transações diárias, mantinha aproximadamente US$ 5 bilhões em ativos de reserva e figurava entre as 20 maiores corretoras de moedas virtuais conversíveis do mundo em volume negociado.
A plataforma disponibilizava operações em mais de 50 moedas e acesso a mais de 3 mil criptoativos e ativos tokenizados.
Embora seus termos de utilização estabeleçam restrições para clientes de determinadas jurisdições, incluindo Irã e Coreia do Norte, a FinCEN identificou movimentações envolvendo entidades e indivíduos relacionados a países sujeitos a sanções internacionais.
Para a autoridade americana, os controles de prevenção à lavagem de dinheiro e de identificação de clientes adotados pela plataforma não foram suficientes para impedir essas operações.
US$ 16,7 bilhões em movimentações associadas a atividades ilícitas
O documento oficial apresenta informações obtidas por meio de análises de transações em blockchain e de outros dados públicos e não públicos utilizados pela FinCEN.
Entre os principais resultados estão:
- US$ 16,7 bilhões em movimentações classificadas pela FinCEN como provavelmente relacionadas a atividades ilícitas, entre maio de 2021 e maio de 2026.
- Quase US$ 1,5 bilhão em exposição direta e indireta a operações relacionadas à evasão de sanções russas.
- US$ 232 milhões em transações diretas com entidades sancionadas pelos Estados Unidos, União Europeia e/ou Reino Unido.
- Aproximadamente US$ 1,87 bilhão em transações com exposição ao Irã.
- Cerca de US$ 1,99 bilhão em movimentações associadas a agentes envolvidos em crimes cibernéticos.
Os valores correspondem a diferentes categorias de exposição identificadas pela autoridade americana e não devem ser somados, pois podem existir sobreposições entre as operações analisadas.
Também não representam necessariamente recursos furtados ou prejuízos financeiros comprovados. São movimentações classificadas pela FinCEN segundo os critérios utilizados em sua investigação.
Relações com corretoras russas sancionadas
Uma das constatações mais relevantes envolve a continuidade de operações com entidades russas anteriormente incluídas nas listas de sanções internacionais.
A FinCEN identificou transações entre a MEXC Global e as corretoras Garantex e Grinex.
A Garantex foi sancionada pelo Office of Foreign Assets Control (OFAC), órgão do Tesouro americano responsável pela administração de sanções econômicas, em abril de 2022.
Mesmo após a imposição das restrições, a MEXC Global teria realizado aproximadamente US$ 129 milhões em operações diretas com a Garantex e US$ 4,1 milhões com a Grinex, identificada pelas autoridades americanas como sua sucessora.
Segundo a documentação, as transações continuaram até junho de 2026.
A análise também identificou pelo menos US$ 26 milhões em operações que beneficiaram a rede A7, utilizada, segundo as autoridades americanas, para viabilizar movimentações financeiras destinadas a contornar sanções.
Outras transações, próximas de US$ 200 milhões, foram relacionadas ao token A7A5, uma stablecoin vinculada ao rublo e utilizada nesse ecossistema financeiro.
Identificação de clientes e monitoramento de transações estão no centro do caso
Além das implicações geopolíticas e financeiras, a decisão coloca em evidência a capacidade das plataformas de criptoativos de identificar seus clientes, verificar restrições regulatórias e acompanhar a destinação dos recursos movimentados.
A documentação da FinCEN mostra que a existência formal de políticas de Know Your Customer (KYC), identificação e conhecimento do cliente, e de Anti-Money Laundering (AML), prevenção à lavagem de dinheiro, não foi considerada suficiente diante das movimentações detectadas.
O caso evidencia a importância de controles capazes de verificar identidades, identificar beneficiários de operações, consultar listas de sanções e detectar padrões suspeitos ao longo do relacionamento com os clientes.
No ambiente das criptomoedas, esse processo envolve também o monitoramento de endereços blockchain e a análise das conexões entre carteiras, corretoras e entidades sujeitas a restrições internacionais.
A decisão americana demonstra que a avaliação regulatória não se limita à existência de mecanismos de conformidade, mas considera sua efetividade diante das transações efetivamente processadas.
Uma decisão com repercussões para o mercado internacional
A aplicação da medida contra uma corretora que movimentava mais de US$ 1 bilhão diariamente coloca o relacionamento entre instituições financeiras tradicionais e plataformas de criptoativos no centro da discussão regulatória.
O documento da FinCEN esclarece que a proibição de transferências foi considerada necessária porque medidas menos restritivas, como exigências adicionais de registros e controles sobre contas correspondentes, não seriam suficientes para proteger o sistema financeiro americano.
Embora a decisão tenha alcance jurídico específico, seus efeitos poderão ser considerados por instituições financeiras e prestadores de serviços de ativos virtuais que mantenham relacionamentos operacionais com a plataforma.
Para o setor de identidade digital, segurança e prevenção a fraudes, o episódio reforça uma questão central: identificar formalmente um cliente não é suficiente quando os controles de monitoramento não conseguem impedir movimentações envolvendo agentes sancionados e recursos associados a atividades ilícitas.
A decisão também amplia o debate sobre a responsabilidade das plataformas que intermediam recursos digitais e sua capacidade de demonstrar conformidade com exigências de identificação, rastreabilidade e prevenção à lavagem de dinheiro.








