GlobalSign registra 6,13 milhões de assinaturas em um mês e crescimento reforça um alerta: automatizar processos sem preservar identidade, integridade e rastreabilidade amplia o risco corporativo
A inteligência artificial está acelerando uma transformação que vai muito além da produção de textos, análises ou atendimento automatizado.
À medida que sistemas passam a criar documentos, alimentar plataformas, iniciar fluxos de aprovação e participar de decisões corporativas, surge uma pergunta que empresários e gestores precisarão responder com cada vez mais precisão: como provar quem autorizou determinada ação, qual documento foi efetivamente aprovado, quando isso aconteceu e se o conteúdo permaneceu íntegro depois da assinatura?
É nesse ponto que identidade digital, certificados digitais, assinaturas baseadas em infraestrutura de chaves públicas, carimbos do tempo e trilhas de auditoria deixam de ser componentes periféricos da transformação digital e passam a integrar a infraestrutura de confiança das empresas.
Os números divulgados pela GMO GlobalSign ajudam a dimensionar esse movimento. Em junho de 2026, o Digital Signing Service (DSS), serviço de assinatura digital da companhia, registrou 6.136.107 assinaturas em um único mês, superando pela primeira vez a marca de 6 milhões.
Em janeiro de 2025, eram 4.624.412 assinaturas. A diferença representa mais de 1,5 milhão de assinaturas adicionais por mês no período comparado pela empresa.
O uso de carimbos do tempo também alcançou nível recorde, ultrapassando 5,5 milhões de utilizações em junho.
Mas outro indicador talvez seja ainda mais revelador sobre o que está acontecendo nos bastidores da transformação digital: o número de identidades digitais utilizadas para assinaturas confiáveis chegou a 1.362.675, segundo a GlobalSign, crescimento de 1.101.112 identidades em relação ao volume registrado 18 meses antes.
Não estamos falando apenas de empresas abandonando o papel.
Estamos falando de processos digitais que precisam continuar produzindo evidências verificáveis mesmo quando passam a operar em uma velocidade que seres humanos já não conseguem acompanhar manualmente.
O problema não é somente saber se existe uma assinatura
Para o empresário, talvez esta seja a mudança conceitual mais importante.
Ter uma imagem de assinatura colocada em um PDF ou registrar que alguém pressionou um botão escrito “aceito” não responde, sozinho, a todas as questões que podem surgir posteriormente.
Dependendo do processo, da legislação aplicável e do nível de risco envolvido, uma organização pode precisar demonstrar:
quem assinou; qual identidade estava associada ao signatário; qual era exatamente o conteúdo no momento da assinatura; se o documento sofreu alterações posteriores; quando o evento aconteceu; quais credenciais foram utilizadas; qual foi a sequência de ações e quais evidências técnicas permaneceram preservadas.
É justamente aí que aparece uma diferença importante entre simplesmente digitalizar um processo e construir um processo digital capaz de produzir confiança.
Nas assinaturas digitais baseadas em PKI, a criptografia permite associar uma assinatura a uma chave e verificar matematicamente a integridade do documento. Quando esse mecanismo está apoiado por certificados, validação de identidade, carimbo do tempo e registros de auditoria, a organização passa a contar com um conjunto muito mais robusto de evidências sobre aquela transação.
Isso não significa que uma tecnologia, isoladamente, elimine disputas ou produza automaticamente validade jurídica universal. Leis e requisitos variam conforme país, setor e natureza do ato. Significa que a empresa passa a dispor de elementos técnicos muito mais consistentes para demonstrar autoria, integridade, temporalidade e rastreabilidade.
A inteligência artificial torna esse problema maior
A IA adiciona uma nova dimensão à questão.
Durante décadas, muitos controles corporativos foram estruturados supondo uma cadeia relativamente previsível: uma pessoa cria o documento, outra revisa, alguém aprova e uma pessoa autorizada assina.
Esse modelo está mudando.
Sistemas já produzem documentos, consolidam informações, preenchem contratos, analisam dados e participam de fluxos automatizados. Com o avanço de agentes de IA e integrações entre sistemas, determinadas etapas podem acontecer sem intervenção humana a cada ação.
A velocidade aumenta. A escala também.
Consequentemente, a capacidade de reconstruir tecnicamente o que aconteceu torna-se mais importante, não menos.
Não basta saber que um arquivo existe. É necessário preservar contexto e evidências suficientes para responder posteriormente: Quem iniciou aquele processo; qual sistema produziu aquele documento; houve alguma modificação; quem efetivamente aprovou o resultado, aquela pessoa possuía autoridade para fazê-lo; qual versão foi assinada e em que momento.
É exatamente por isso que automação sem mecanismos de confiança pode produzir uma contradição perigosa: quanto mais eficiente se torna o processo, maior pode ser a escala de um erro, de uma fraude ou de uma ação não autorizada.
Para as empresas, isso é gestão de risco
Esse debate não deveria ficar restrito aos departamentos de tecnologia.
Para CEOs, CFOs, departamentos jurídicos, compliance e conselhos de administração, a discussão envolve risco operacional, regulatório, financeiro e reputacional.
Imagine centenas ou milhares de contratos sendo processados por sistemas integrados a CRM, ERP, plataformas financeiras e aplicações de inteligência artificial.
Se houver uma contestação meses depois, a pergunta poderá deixar de ser simplesmente “o contrato está assinado?”.
A questão poderá ser: a empresa consegue provar tecnicamente todo o processo que levou àquela assinatura?
Essa diferença é enorme.
Organizações que automatizam processos críticos sem definir previamente identidade, autenticação, autorização, integridade documental, registro temporal e preservação das evidências podem descobrir o problema somente quando precisarem explicar uma transação.
E normalmente esse não é o melhor momento para descobrir que a arquitetura de confiança estava incompleta.
Não é uma discussão sobre uma determinada plataforma
O marco divulgado pela GlobalSign merece atenção justamente porque funciona como indicador de uma transformação mais ampla.
Não significa que todas as empresas precisem contratar o DSS ou qualquer solução específica.
Significa que organizações deveriam avaliar se os seus processos digitais atuais possuem mecanismos compatíveis com o risco das operações que estão sendo automatizadas.
A própria natureza da transação deve determinar o nível de confiança necessário.
Há enorme diferença entre aprovar uma comunicação interna e assinar um contrato financeiro de alto valor, autorizar uma operação societária, emitir um documento oficial ou executar uma transação envolvendo dados sensíveis.
Quanto maior o impacto potencial de uma contestação, maior deveria ser a preocupação com as evidências produzidas durante todo o processo.
Assinatura precisa acompanhar a escala da automação
A GMO GlobalSign oferece o DSS desde 2017. Segundo a companhia, o volume anual de utilização do serviço quintuplicou desde então.
A empresa atribui essa expansão a diferentes fatores, como a consolidação do trabalho remoto, redução da utilização de documentos em papel, crescimento das plataformas de workflow e avanço das exigências regulatórias.
Agora entra outro elemento nessa equação: a inteligência artificial.
Para Aisling Dawson, analista sênior da ABI Research citada no comunicado da GlobalSign, a disseminação da IA está elevando as expectativas de eficiência dos fluxos corporativos ao mesmo tempo em que organizações precisam lidar com estruturas distribuídas e exigências regulatórias mais rigorosas.
O resultado é uma demanda crescente por infraestruturas capazes de funcionar em escala. Essa característica ajuda também a explicar por que serviços de assinatura estão migrando para arquiteturas baseadas em nuvem e APIs. O DSS, por exemplo, é oferecido pela GlobalSign como uma plataforma orientada por API, permitindo integrar recursos de assinatura a aplicações empresariais e plataformas de gestão documental.
Isso permite que a assinatura deixe de ser necessariamente uma etapa isolada, realizada em uma aplicação específica, e passe a fazer parte do próprio fluxo operacional.
Mas essa integração traz outra responsabilidade para as empresas: automatizar a confiança exige governar a confiança.
Certificados, identidades, credenciais, permissões, chaves criptográficas, políticas de assinatura e registros de auditoria precisam ter ciclo de vida, controles de acesso e responsáveis claramente definidos.
Carimbo do tempo também ganha importância
Um dos dados que merece atenção no levantamento é o crescimento do uso dos carimbos do tempo.
Esse recurso permite acrescentar ao documento uma evidência criptográfica associada a determinada data e horário, emitida por uma infraestrutura confiável.
Em muitos processos, saber quando determinada assinatura existia pode ser tão importante quanto comprovar sua integridade.
Isso ganha particular relevância em contratos, processos regulatórios, propriedade intelectual, registros empresariais e documentos que precisam permanecer verificáveis durante períodos prolongados.
Quando documentos circulam por múltiplos sistemas, são processados automaticamente e podem permanecer arquivados durante anos, a temporalidade passa a fazer parte da cadeia de evidências.
Setores regulados sentem primeiro
A GlobalSign destaca serviços financeiros, saúde, governo, tecnologia e cibersegurança entre os setores em que esse tipo de infraestrutura vem ganhando espaço.
Nos Estados Unidos, por exemplo, o comunicado cita requisitos de auditoria da SEC e da FINRA para o mercado financeiro e as exigências da HIPAA relacionadas ao setor de saúde.
As normas específicas variam entre jurisdições, mas existe um ponto comum: quanto mais regulado e sensível o processo, maior a necessidade de demonstrar quem realizou uma ação e preservar evidências sobre ela.
No setor público, isso envolve documentos e atos administrativos. Em instituições financeiras, contratos, autorizações e operações de alto volume. Na saúde, informações particularmente sensíveis e documentos que podem produzir consequências clínicas e jurídicas.
Em empresas de tecnologia, a questão também chega às próprias plataformas utilizadas para automatizar esses processos.
A pergunta que o empresário deveria fazer agora
Mohit Kumar, vice-presidente de Gestão de Produtos da GMO GlobalSign, afirma que as organizações precisam avançar além das assinaturas eletrônicas básicas e observa que, com a IA assumindo importância crescente também para a segurança, assinaturas digitais respaldadas por identidade podem funcionar como um mecanismo adicional de verificação de autenticidade.
Talvez esta seja a questão central para quem dirige uma empresa.
A discussão não deveria começar perguntando qual ferramenta de assinatura comprar.
Deveria começar antes: Quais processos da minha empresa precisam produzir evidências confiáveis?
Depois: Que nível de identificação, autenticação, integridade e rastreabilidade cada um desses processos exige?
E finalmente: se uma transação realizada hoje for contestada daqui a dois anos, conseguiremos reconstruí-la e provar tecnicamente o que aconteceu?
A inteligência artificial está tornando empresas mais rápidas. APIs estão conectando sistemas. Robôs e agentes começam a participar de processos que anteriormente eram integralmente humanos.
Nada disso reduz a necessidade de confiança. Faz exatamente o contrário.
Quanto maior o grau de automação, maior precisa ser a capacidade de identificar, autenticar, autorizar, registrar e comprovar.
Os 6,13 milhões de assinaturas processadas pelo DSS da GlobalSign em junho são, portanto, mais do que um recorde de utilização de uma plataforma.
São também um sinal de que, na economia automatizada, confiança digital começa a ser tratada como infraestrutura.
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