Presidente da Alterdata, Ladmir Carvalho, avalia como a automação de tarefas operacionais abre espaço para atividades de consultoria, análise de dados e planejamento tributário
A inteligência artificial está provocando mudanças na rotina dos escritórios de contabilidade e no perfil dos profissionais que atuam no setor. Atividades como lançamentos contábeis, conciliações financeiras, processamento de documentos e elaboração de relatórios já podem ser parcialmente automatizadas, enquanto a interpretação de dados, a consultoria empresarial e o planejamento tributário tendem a ganhar importância.
Para Ladmir Carvalho, presidente e cofundador da Alterdata, empresa brasileira especializada no desenvolvimento de softwares de gestão empresarial e contábil, a transformação não significa necessariamente o desaparecimento da profissão, mas uma mudança na forma como os serviços serão prestados e no valor que os contadores poderão oferecer aos clientes.
“A inteligência artificial não precisa substituir o contador para transformar a profissão. Ela pode assumir uma parte importante do trabalho operacional e permitir que o profissional dedique mais tempo àquilo que exige análise, experiência e entendimento do negócio. O contador que souber usar a tecnologia para entregar mais valor ao cliente tende a ocupar um espaço diferente dentro das empresas”, afirma.
Da execução de tarefas à supervisão dos processos
Grande parte da rotina contábil envolve informações estruturadas, cumprimento de regras e procedimentos de conferência. São características que favorecem a adoção de sistemas automatizados, especialmente quando as atividades exigem o processamento de grandes volumes de documentos e dados financeiros.
Na prática, ferramentas que utilizam inteligência artificial podem apoiar a classificação de informações, identificar divergências entre registros, organizar documentos fiscais e produzir relatórios operacionais. Também podem detectar inconsistências que, em processos tradicionais, dependeriam de conferências manuais.
O avanço dessas soluções não significa, porém, que todas essas atividades serão eliminadas. O que tende a diminuir é a necessidade de intervenção humana em determinadas etapas de execução, transferindo parte do trabalho para a supervisão dos sistemas e a validação dos resultados.
“Quando uma tarefa é previsível, repetitiva e segue um padrão, existe uma oportunidade clara de automação. O profissional deixa de gastar tempo executando a tarefa e passa a supervisionar, validar e interpretar o resultado. Isso muda a rotina, mas não elimina a necessidade de conhecimento técnico”, explica Carvalho.
Essa mudança também altera a organização dos escritórios. Processos que antes exigiam equipes dedicadas à digitação, classificação e conferência de informações podem passar a funcionar com maior participação de sistemas, exigindo dos profissionais competências diferentes das tradicionalmente associadas às atividades operacionais.
Contabilidade consultiva ganha espaço nas empresas
À medida que a tecnologia assume parte das tarefas repetitivas, cresce a possibilidade de o contador atuar mais diretamente na gestão dos negócios.
Em vez de concentrar sua atividade na preparação de documentos e no cumprimento de obrigações fiscais, o profissional pode dedicar mais tempo à análise da situação financeira dos clientes, à identificação de riscos tributários e ao acompanhamento de indicadores relevantes para decisões empresariais.
O planejamento tributário é uma das áreas em que essa combinação entre tecnologia e conhecimento especializado pode ganhar importância. Sistemas conseguem organizar informações e apoiar simulações, mas a avaliação dos resultados exige interpretação da legislação, compreensão das características de cada empresa e análise das consequências das decisões.
O mesmo ocorre com a consultoria financeira. A disponibilidade de dados não garante, por si só, que uma empresa saiba utilizá-los para melhorar sua gestão. É nesse espaço que o conhecimento contábil pode contribuir para decisões relacionadas a custos, investimentos, expansão e sustentabilidade financeira.
“Durante muito tempo, o contador foi visto principalmente como o profissional responsável por cumprir obrigações. A tecnologia pode ajudar a mudar essa percepção. Se boa parte do trabalho operacional for automatizada, sobra mais espaço para o contador mostrar ao empresário o que os números estão dizendo e como eles podem ajudar na tomada de decisão”, afirma o presidente da Alterdata.
A perspectiva é particularmente relevante para pequenos e médios empresários, que frequentemente recorrem aos escritórios contábeis não apenas para atender às exigências fiscais, mas também para obter orientação sobre a administração dos negócios.
Quem responde pelas informações produzidas pela IA?
A ampliação do uso da inteligência artificial também traz uma questão importante para o exercício profissional: a necessidade de conferir os resultados gerados pelos sistemas.
Embora essas ferramentas possam identificar padrões, produzir análises e apontar possíveis irregularidades, suas respostas não são necessariamente corretas. Informações incompletas, interpretações equivocadas e falhas de processamento podem comprometer conclusões utilizadas em atividades contábeis e tributárias.
Por isso, a automação não elimina a necessidade de mecanismos de controle, revisão e supervisão humana. Dependendo da aplicação, também será necessário assegurar a rastreabilidade das operações, a integridade dos registros e a proteção das informações financeiras e fiscais dos clientes.
O uso de IA em processos contábeis também exige atenção à confidencialidade dos dados empresariais, especialmente quando informações são processadas por plataformas de terceiros.
Nesse ambiente, conhecer as possibilidades e limitações das ferramentas digitais passa a fazer parte das competências esperadas do contador. Isso não significa necessariamente dominar o desenvolvimento de modelos de inteligência artificial, mas compreender como os sistemas são utilizados, quais resultados podem produzir e em que situações é indispensável a intervenção profissional.
O futuro da profissão depende da capacidade de adaptação
A contabilidade já passou por importantes mudanças tecnológicas, desde a substituição dos registros manuais por sistemas informatizados até a digitalização das obrigações fiscais. A inteligência artificial amplia esse processo ao alcançar atividades que envolvem não apenas o processamento de informações, mas também a produção de análises.
Para Carvalho, a transformação exige que os profissionais acompanhem as novas demandas do mercado, sem perder de vista a responsabilidade técnica que caracteriza a profissão.
“O maior risco não é a IA acabar com a profissão. É o profissional não acompanhar a mudança enquanto o mercado passa a exigir outras competências. A tecnologia pode fazer o trabalho operacional mais rápido, mas ainda precisamos de pessoas capazes de fazer as perguntas certas, interpretar os resultados e assumir a responsabilidade pelas decisões”, conclui Ladmir.
Para os escritórios contábeis, a oportunidade está em utilizar a produtividade proporcionada pela automação para ampliar o atendimento consultivo e fortalecer o relacionamento com os clientes.
A mudança central, portanto, não está apenas na velocidade com que os sistemas conseguem processar documentos, mas na capacidade dos profissionais de transformar os resultados da tecnologia em orientações confiáveis para a gestão empresarial.
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