Entre eficiência, controle e invisibilidade, o avanço da gestão algorítmica e do algoritmo como instância de decisão reposiciona o debate sobre trabalho, identidade digital, governança da inteligência artificial e os limites institucionais do poder exercido por sistemas automatizados
Por Regina Tupinambá

Ao pesquisar os impactos reais da inteligência artificial na organização do trabalho e na redistribuição silenciosa do poder nas plataformas digitais, encontrei o artigo “Meu chefe é um robô”, publicado em 26 de janeiro de 2023 pelo Le Monde Diplomatique Brasil. Assinado por Herbert Salles, PhD, doutor em Economia, o estudo oferece uma análise precisa e inquietante sobre como algoritmos deixaram de ser ferramentas técnicas para se tornarem instâncias efetivas de gestão, controle e decisão sobre milhões de trabalhadores.
A leitura revelou não apenas um diagnóstico do presente, mas um alerta direto sobre o futuro da governança algorítmica — tema central para quem acompanha identidade digital, IA e poder institucional.
O artigo “Meu chefe é um robô”, publicado em janeiro de 202, permanece atual e até premonitório, investiga um fenômeno que deixou de ser periférico para se tornar estrutural: a substituição progressiva da gestão humana por sistemas algorítmicos capazes de organizar, vigiar, punir e otimizar o trabalho em larga escala.
Ao contrário das distopias clássicas da ficção científica, não há aqui máquinas humanoides patrulhando fábricas ou escritórios. O que Salles descreve — com precisão conceitual — é um poder imaterial, invisível e profundamente eficiente. O algoritmo não aparece, mas decide. Não fala, mas ordena. Não assina contratos, mas define preços, jornadas, metas, recompensas e exclusões.
Esse deslocamento do poder gerencial não ocorreu de forma abrupta. Como lembra o autor, os primeiros estudos sobre algoritmos, ainda no século XX, não anteciparam plenamente seu uso como instrumentos centrais de acumulação econômica, previsão comportamental e controle social. Foi apenas com a consolidação das grandes plataformas digitais — Alphabet, Meta, Amazon, Netflix, Uber — que os algoritmos passaram a operar como infraestruturas de governança, e não apenas como ferramentas técnicas.
Algoritmização em tempo real
Salles toca em um ponto crucial: a chamada “algoritmização da vida” começa pelo consumo, mas rapidamente se estende ao trabalho. A mesma lógica que recomenda filmes, músicas ou restaurantes é aplicada para distribuir corridas, entregas, tarefas e avaliações. O motorista ou entregador não é apenas conectado ao cliente; ele é gerenciado em tempo real por um sistema que mede desempenho, define remuneração dinâmica e impõe sanções automáticas. Segundo dados citados no artigo, quase dois milhões de pessoas no Brasil já trabalham sob esse tipo de comando algorítmico.
Esse modelo foi amplamente estudado na academia internacional. Um trabalho de referência é o artigo “Algorithmic Management in the Workplace” (Kellogg, Valentine e Christin, Academy of Management Annals, 2020), que demonstra como sistemas algorítmicos não apenas substituem supervisores humanos, mas redefinem o próprio conceito de autoridade organizacional. A gestão deixa de ser relacional e passa a ser estatística; o diálogo é substituído por métricas; o contexto, por scores.
O mérito do texto de Herbert Salles está em recusar a narrativa suavizante do “empreendedor de si mesmo”. Ao chamar esses trabalhadores de trabalhadores algoritmizados, ele desmonta a ficção do microempreendedor autônomo e recoloca o debate onde ele realmente pertence: na relação assimétrica entre capital, tecnologia e trabalho. Possuir um carro, uma bicicleta ou um smartphone não equivale a deter os meios de produção quando as regras do jogo são definidas por um código opaco e unilateral.
Mais inquietante ainda é a expansão desse modelo para profissões historicamente qualificadas. Plataformas que intermediam serviços de advogados, psicólogos, designers, jornalistas e desenvolvedores já operam sob lógicas similares.
Em paralelo, sistemas de inteligência artificial começam a assumir funções tradicionalmente associadas à gestão: alocação de tarefas, avaliação de desempenho, definição de prioridades e até desligamentos. A recente onda de demissões em big techs, como a Alphabet, reforça essa transição.
Aqui surge uma questão que ultrapassa o debate trabalhista e interessa diretamente à governança digital: o que acontece quando a gestão passa a ser exercida por sistemas autônomos, treinados para maximizar eficiência, reduzir custos e eliminar fricções humanas? Do ponto de vista operacional, os ganhos são evidentes. Do ponto de vista institucional, ético e democrático, os riscos são profundos.
Não é por acaso que esse tema começa a aparecer em debates sobre IA como camada de gestão — inclusive em ambientes experimentais e redes restritas de inteligência artificial – como a Moltbook– voltadas à tomada de decisão, otimização de recursos e coordenação complexa. Nessas arquiteturas, a IA não é apenas uma ferramenta, mas um ator organizacional, capaz de influenciar estratégias, ritmos e prioridades. O problema não é a existência dessa inteligência, mas a ausência de mecanismos claros de accountability, auditabilidade e identidade algorítmica.
O alerta de Salles converge com reflexões como as de Shoshana Zuboff – professora emérita da Harvard Business School – sobre o capitalismo de vigilância: quando sistemas digitais passam a moldar comportamentos em escala, o desafio deixa de ser apenas econômico e se torna civilizatório. Regular plataformas não é suficiente. É preciso, como o autor sugere, regular os próprios algoritmos — sua lógica, seus objetivos, seus limites.
O debate que se abre não é tecnofóbico. Pelo contrário. Trata-se de reconhecer que a mesma inteligência artificial capaz de ampliar eficiência, reduzir desperdícios e melhorar serviços pode, se não for governada, aprofundar assimetrias, precarizar relações e corroer direitos. Ter uma IA na gestão pode ser um avanço extraordinário — desde que ela esteja subordinada a princípios claros, transparentes e verificáveis.
O texto “Meu chefe é um robô”, publicado em 26 de janeiro de 2023 pelo Le Monde Diplomatique Brasil. Assinado por Herbert Salles, PhD não oferece respostas fáceis, mas cumpre um papel essencial: desloca o olhar do aplicativo para o algoritmo, da interface para a arquitetura invisível do poder digital. Em um mundo cada vez mais mediado por sistemas inteligentes, essa é uma leitura obrigatória para quem pensa tecnologia, trabalho, identidade e governança — sejam humanos ou outras inteligências em processo de aprendizado.
Herbert Salles, ao escrever desde a economia política, nos lembra que o futuro do trabalho não será decidido apenas por linhas de código, mas pelas escolhas sociais e institucionais que faremos sobre quem — ou o quê — pode nos governar.
Herbert Salles – Doutor em Economia, pela UFF e mestre em Sistemas de Gestão, também pela UFF. É especialista em marketing digital e tem experiências em Mídia, Performance, Analytics, CRM, SEO e conteúdo. É professor de Economia Digital, Economia Política e Teoria Macroeconômica. Também deu aulas de Marketing em cursos de MBA e in company. Tem passagens pelo mercado financeiro, turismo, telecom e educação.
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REGINA TUPINAMBÁ | CCO – Chief Content Officer – Crypto ID. Publicitária formada pela PUC Rio. Como publicitária atuou em empresas nacionais e internacionais atendendo marcas de grande renome. Em 1999, migrou sua atuação para empresas do universo de segurança digital onde passou ser a principal executiva das áreas comercial e marketing em uma Autoridade Certificadora Brasileira. Acompanhou a criação da AC Raiz da ICP-Brasil e participou diretamente da implementação e homologação de inúmeras Autoridades Certificadoras. Foi, também, responsável pelo desenvolvimento do mercado de SSL no Brasil. É CEO da Insania Publicidade e como CCO do Portal Crypto ID dirige a área de conteúdo do Portal desde 2014. Acesse seu LinkedIn.
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