Festival ocupa o Parque Ibirapuera até 16 de agosto e coloca inteligência artificial, agentes de IA, confiança digital e novas arquiteturas financeiras entre os debates sobre o futuro dos negócios
O SP2B – São Paulo Beyond Business estreia neste domingo, 9 de agosto, transformando o Parque Ibirapuera em uma grande plataforma de debates sobre tecnologia, empreendedorismo, negócios, cultura e comportamento. A primeira edição segue até 16 de agosto, com mais de 750 painéis, mais de 2 mil palestrantes e mais de mil horas de conteúdo distribuídas por mais de 20 palcos. A organização projeta cerca de 700 mil visitantes ao longo dos oito dias.
No recorte que interessa particularmente aos leitores do Crypto ID, a extensa programação permite acompanhar algumas das transformações que já estão alterando a infraestrutura dos negócios digitais: inteligência artificial, agentes de IA, blockchain, tokenização, computação quântica, cibersegurança e confiança. Identidade também está presente, embora, como veremos, em uma abordagem predominantemente humana e cultural, e não como uma trilha específica de identidade digital.
A programação também mostra como a inteligência artificial começa a deslocar o debate tecnológico para questões de confiança, reputação e infraestrutura. Nesta segunda-feira, 10 de agosto, Drauzio Varella participa do Summit Globo de uma conversa sobre os impactos da IA na percepção de credibilidade e reputação profissional. Ao lado da jornalista Poliana Abritta, de Pamela Vaiano, diretora de Comunicação do Itaú Unibanco, e de Marie Santini, diretora do Laboratório de Estudos Digitais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o médico participa de uma discussão que inclui segurança de marca, confiança institucional e o valor da credibilidade na economia da atenção.
Outro eixo importante aparece quando a discussão sai das aplicações da IA e chega à infraestrutura necessária para sustentá-la. No dia 11, Fábio Cozman, diretor do Centro de Inteligência Artificial e Aprendizado da Máquina da Universidade de São Paulo (USP), e Milena Leal, country manager do Google Cloud, participam do painel “Sem infraestrutura, não há soberania: o Brasil está pronto para construir sua independência?”. O debate coloca no centro a dependência brasileira de capacidade de processamento e de tecnologias controladas no exterior, em um cenário no qual data centers, energia, redes e semicondutores passam a integrar a discussão sobre soberania digital.
Antes da tecnologia, as relações humanas
A escolha para abrir o SP2B ajuda a explicar a proposta do festival. A Opening Night deste domingo terá como keynote a psicoterapeuta belga Esther Perel, reconhecida internacionalmente pelo trabalho sobre relações humanas, vínculos, confiança e relações no ambiente de trabalho. Perel desenvolve sua carreira nos Estados Unidos e tornou-se uma das vozes mais conhecidas no debate sobre como as relações pessoais e profissionais mudam em uma sociedade cada vez mais mediada pela tecnologia. A abertura está marcada para as 19h e é destinada à credencial Platinum.
A presença de Perel em um festival de inovação não é um desvio do tema tecnológico. É justamente uma de suas provocações. Em março, quando sua participação no SP2B foi anunciada durante o SXSW, em Austin, o debate colocou empatia, escuta, confiança e capacidade de lidar com conflitos como competências que ganham importância à medida que a inteligência artificial assume mais tarefas.
É um ponto de partida interessante para uma semana na qual a IA aparecerá repetidamente não apenas como ferramenta, mas como infraestrutura, agente de decisão e participante cada vez mais ativo das organizações.
IA deixa de ser apenas uma ferramenta
A inteligência artificial ocupa parte significativa da trilha Transformação, instalada no Beyond, no Pavilhão das Culturas Brasileiras, a Pacubra. A própria curadoria define esse espaço como dedicado a IA, novas tecnologias, conscientização digital, cidades inteligentes, futuro do trabalho, saúde e outras fronteiras tecnológicas.
No dia 11, o painel “Brasil na corrida da IA: onde estamos e para onde vamos?” colocará em discussão se o país reúne condições para atuar como protagonista da nova economia ou permanecer principalmente como consumidor de tecnologia. Participam Márcio Aguiar, da Nvidia, e Carolina Sevciuc, da PepsiCo, com mediação do jornalista Luiz Pacete. A sessão está marcada para 11h30.
A discussão se conecta a outra questão central da corrida pela IA: infraestrutura. Um dos painéis previstos para o dia 11 reunirá Fábio Cozman, da Universidade de São Paulo, e Milena Leal, do Google Cloud, para discutir soberania tecnológica, capacidade de processamento e a dependência de infraestrutura controlada no exterior.
No dia 12, a conversa avança para a IA física, com sistemas capazes de atuar no mundo real. Samuel Salomão, fundador da Speedbird Aero, participa de uma sessão dedicada à integração de máquinas inteligentes em fábricas, hospitais, centros logísticos e cidades e aos desafios operacionais, éticos e estratégicos dessa convivência entre humanos e máquinas.
E chegam os agentes de IA
Talvez um dos pontos mais interessantes da programação seja a passagem da IA usada por pessoas para a IA que passa a executar atividades em nome delas ou das organizações.
Já no dia 10, o Summit LinkedIn terá um painel sobre IA agêntica no recrutamento, abordando agentes que fazem triagem de currículos, agendam entrevistas e participam das etapas iniciais de interação com candidatos. A própria descrição do painel coloca governança e confiança entre os problemas que surgem quando sistemas automatizados passam a participar de decisões que afetam carreiras.
No dia 13, o futurista Neil Redding, CEO da Redding Futures, vai um passo adiante. Sua sessão discute organizações nas quais humanos deixam de ser os únicos participantes dos processos empresariais e passam a trabalhar ao lado de agentes de IA. O debate trata da mudança de um modelo tradicional de comando para outro baseado na coordenação conjunta entre pessoas e sistemas inteligentes.
Essa discussão merece atenção especial porque, quando agentes deixam de apenas recomendar e começam a agir, surgem novas perguntas sobre quem pode autorizar uma transação, quais poderes foram delegados a uma máquina, como comprovar essa autorização e como registrar a responsabilidade por cada ação.
São perguntas que aproximam IA diretamente das disciplinas de identidade, gestão de acesso, autenticação e governança.
Blockchain e tokenização voltam à infraestrutura
Blockchain também aparece de maneira objetiva na programação.
No dia 13, das 11h30 às 12h30, o palco Beyond – New Currencies recebe o painel “Nova arquitetura do valor: tokenização, blockchain e a reprogramação das finanças”, com Arthur Coelho, CEO da Tokeniza, e Bruno Samora, Chief Product Officer da Matera, e mediação de Claudia Mancini.
A descrição oficial do SP2B parte de uma premissa significativa: blockchain deixou de ser apresentada apenas como promessa para ser discutida como infraestrutura de uma economia digital, abrangendo emissão e custódia de ativos, liquidação de transações, tokenização e descentralização financeira.
É uma abordagem importante porque desloca a discussão do ativo especulativo para a arquitetura tecnológica e operacional utilizada para representar, movimentar e liquidar valor.
Na própria organização temática do festival, o palco New Currencies reúne tokenização, confiança e economia, sinalizando justamente essa aproximação entre tecnologia financeira e infraestrutura de confiança.
Cibersegurança entra pela confiança
A confiança também aparece diretamente associada à segurança.
Em 12 de agosto, o painel “A nova fronteira da confiança: cibersegurança e crimes financeiros no mundo digital” terá José Luiz Santana, CISO do C6 Bank, discutindo estratégias de redução de risco diante da evolução dos crimes financeiros digitais.
O tema completa uma conexão que atravessa diferentes sessões do SP2B. IA aumenta a automação. Agentes aumentam a capacidade de execução autônoma. Blockchain e tokenização criam novas formas de movimentação de ativos.
Quanto maior a capacidade de sistemas digitais agirem e transacionarem, maior a necessidade de estabelecer confiança, autorização, rastreabilidade e responsabilidade.
E a identidade?
Aqui é importante fazer uma distinção.
A programação que consultamos não apresenta uma trilha específica de identidade digital. Não seria correto afirmar o contrário.
O termo identidade aparece formalmente na trilha Reconhecimento, associado a ancestralidade, memória, cultura, autoconhecimento, moda, arte, design e criação. No Museu Afro Brasil e no Planetário, a proposta é discutir como origens, narrativas e identidade participam da construção de novas visões de mundo e de inovação.
Justamente por isso o tema identificação civil e digital merecesseriam um espaço mais explícito em um festival dedicado à inovação: o Brasil vive hoje uma transformação concreta nessa área com a Carteira de Identidade Nacional (CIN), que reorganiza a identificação do cidadão a partir de um número único nacional e cria novas possibilidades para o uso seguro da identidade também no ambiente digital e nunca se falou tanto de proteção de identidade digital como atualmente.
Mas existe outra camada que merece ser acompanhada pelo setor de identidade digital mesmo quando essa expressão não aparece no título dos painéis.
Quando o SP2B discute agentes de IA tomando parte em processos corporativos, confiança em ambientes digitais, crimes financeiros, contratos inteligentes, tokenização e sistemas autônomos, ele se aproxima de uma questão que será cada vez mais importante: como estabelecer quem ou o que está agindo em um ambiente digital e quais poderes foram concedidos a essa identidade.
Uma das sessões mais futuristas do evento torna essa convergência particularmente clara. No dia 13, Lala Deheinzelin discutirá organizações formadas por coletivos coordenados, agentes de IA e contratos inteligentes, imaginando modelos empresariais nos quais a tecnologia participa da própria estrutura de geração e circulação de valor.
O futuro tecnológico continua dependendo de confiança
Talvez esteja justamente aí uma das conexões mais interessantes entre a abertura de Esther Perel e os debates tecnológicos que ocuparão o Ibirapuera durante a semana.
De um lado, relações humanas, confiança, escuta e colaboração. Do outro, inteligência artificial, agentes autônomos, blockchain, tokenização, cibersegurança e novas formas de organização.
São universos que podem parecer distantes, mas estão se aproximando rapidamente.
Porque, seja entre duas pessoas, entre uma pessoa e uma empresa, entre duas organizações ou entre humanos e agentes de IA, a transformação digital continua esbarrando na mesma pergunta fundamental: em quem, ou em quê, podemos confiar?
E, para quem acompanha identificação, autenticação, credenciais, assinaturas e infraestruturas de confiança digital, essa talvez seja uma das perguntas mais importantes do SP2B 2026.
Eventos que moldam o futuro da confiança digital
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