
Usernames e BSUID alteram a forma como consumidores são reconhecidos em operações de relacionamento, vendas e suporte via WhatsApp Business
O WhatsApp prepara uma mudança relevante na forma como usuários poderão ser identificados em interações com empresas. A adoção de usernames, no formato @nome, e do BSUID, sigla para Business-Scoped User ID, altera a lógica usada por operações de atendimento, vendas, relacionamento e automação para reconhecer clientes dentro da plataforma.
Até agora, o número de telefone funcionou como principal referência de identidade no WhatsApp. Em muitas empresas, ele é usado como chave para associar conversas a cadastros em sistemas de CRM, recuperar histórico de atendimento, acionar chatbots, personalizar ofertas e manter a continuidade da jornada do consumidor.

Segundo Gilsinei Hansen, VP de Negócios da Zenvia, as mudanças previstas para o WhatsApp em 2026 não devem ser vistas apenas como uma atualização técnica de API.
A Zenvia é uma empresa de tecnologia especializada em soluções de inteligência artificial para experiência do cliente. A companhia atua com plataformas voltadas à comunicação, automação e relacionamento entre empresas e consumidores em canais digitais.
Para o executivo, a adoção de usernames e do BSUID sinaliza uma transformação na forma como a plataforma organiza identidade, privacidade e relacionamento corporativo, com impacto direto sobre retenção, custo de aquisição de clientes e eficiência operacional.
Com os novos usernames, usuários poderão interagir com empresas sem necessariamente expor o próprio número de telefone. Para preservar a identificação técnica da conversa e, ao mesmo tempo, reforçar a privacidade, a Meta passa a utilizar o BSUID, um identificador gerado para representar o usuário dentro de um portfólio de negócios.
Na prática, um mesmo usuário poderá ter identificadores diferentes ao se relacionar com empresas distintas. Isso reduz a possibilidade de rastreamento massivo entre organizações e acompanha uma tendência mais ampla das plataformas digitais: substituir identificadores diretamente vinculados à pessoa por chaves técnicas restritas ao contexto de uso.
O que muda para as empresas
A principal mudança está na dependência do número de telefone como identificador único do cliente. Empresas que estruturaram suas operações de WhatsApp Business exclusivamente com base nesse dado podem enfrentar falhas em integrações, histórico de atendimento, automações e campanhas caso o telefone deixe de estar disponível em determinados fluxos.
O impacto tende a ser mais sensível em operações de alto volume, como varejo, e-commerce, serviços financeiros, saúde, educação e atendimento recorrente ao consumidor. Nesses ambientes, a perda de contexto pode afetar a identificação do cliente, a continuidade da conversa e a capacidade de oferecer atendimento personalizado sem fricção.
A mudança também exige revisão da arquitetura de dados. O BSUID precisará ser capturado, armazenado e associado aos identificadores internos da empresa, como ID de cliente, e-mail, CPF, número de pedido ou outros registros mantidos em CRM e plataformas de atendimento.
CRM e automações precisam ser revistos
O ponto crítico está nos sistemas que ainda tratam o telefone como chave primária da identidade do cliente. Essa lógica funcionou enquanto o número era sempre visível, mas se torna limitada em um ambiente no qual o usuário pode optar por ocultá-lo.
Empresas precisarão revisar em quais pontos o número de telefone ainda sustenta processos críticos. Isso inclui fluxos de atendimento, jornadas de venda, disparos automatizados, recuperação de carrinho, suporte pós-venda, programas de fidelidade e integrações com bases internas.
A pergunta central é: o cliente é reconhecido por uma estratégia estruturada de identidade ou apenas pelo número de telefone?
Se a resposta for a segunda opção, a operação pode estar vulnerável a duplicidade de cadastros, perda de histórico, falhas em campanhas, dificuldade de personalização e aumento de atrito no atendimento.
Privacidade passa a influenciar a operação comercial
A alteração também deve ser lida como parte de um movimento mais amplo de privacidade. Ao permitir que usuários utilizem nomes de usuário e ocultem o número de telefone em determinados contextos, o WhatsApp reduz a exposição de um dado pessoal amplamente usado em cadastros, campanhas e abordagens comerciais.
Para as empresas, isso muda a relação entre identificação, consentimento e personalização. A capacidade de reconhecer o cliente continuará existindo, mas dependerá de uma arquitetura mais organizada, com integração entre canais, bases internas e identificadores técnicos fornecidos pela plataforma.
O desafio será manter eficiência operacional sem transformar a jornada em um processo excessivamente burocrático para o consumidor. Em outras palavras, a personalização precisará ser sustentada por dados bem governados, e não apenas pela disponibilidade automática do telefone.
APIs oficiais ganham peso na transição
Outro ponto relevante é a dependência de integrações oficiais. Empresas que utilizam APIs não oficiais ou soluções paralelas podem enfrentar maior risco operacional, especialmente em mudanças que envolvem campos técnicos, webhooks e identificadores gerados pela própria Meta.
Com a transição para usernames e BSUID, a compatibilidade das plataformas de atendimento, automação e CRM passa a ser determinante. A empresa precisará garantir que seus fornecedores estejam preparados para receber os novos identificadores, processá-los corretamente e manter o vínculo entre conversas novas e históricos existentes.
Para facilitar a transição, a Meta também prevê recursos de mapeamento entre o número de telefone e o novo identificador técnico, como o Contact Book, voltado a empresas que já utilizam a API oficial. Ainda assim, a adaptação exigirá governança interna, testes e revisão dos pontos de integração.
Varejo e e-commerce devem sentir impacto direto
No varejo e no e-commerce, o WhatsApp se consolidou como canal de atendimento, venda assistida, recuperação de carrinho, comunicação pós-compra e relacionamento com clientes. Por isso, qualquer mudança na forma de reconhecer o consumidor pode afetar diretamente conversão, experiência e continuidade da jornada.
Operações que dependem exclusivamente do número de telefone para reconhecer consumidores ou acionar automações podem falhar quando o usuário optar por ocultar esse dado. Isso torna necessária a associação entre BSUID, cadastro interno e histórico de relacionamento, para que a empresa consiga preservar contexto sem comprometer a privacidade.
Hansen também avalia que o varejo está entre os setores mais expostos à mudança, porque depende fortemente de contexto, histórico e personalização para sustentar conversão. Na visão do executivo, empresas que insistirem em tratar o telefone como identificador único ou que utilizarem integrações não oficiais poderão enfrentar perda de continuidade na jornada do cliente e maior risco de interrupção operacional.
A mudança também deve pressionar marcas a reverem seus modelos de dados. Em vez de tratar o WhatsApp como um canal isolado, será necessário integrá-lo de forma mais consistente a CRM, plataformas de atendimento, bases de consentimento e sistemas de gestão da jornada do cliente.
O que observar a partir de agora
A mudança não deve ser tratada apenas como uma atualização técnica da API. Ela afeta governança de dados, experiência do cliente, segurança da informação, privacidade e continuidade operacional.
Empresas que utilizam o WhatsApp como canal relevante de atendimento e vendas devem mapear os pontos em que o número de telefone ainda sustenta processos críticos. A prioridade deve ser criar uma camada de identificação capaz de combinar BSUID, dados internos e consentimento, sem perder rastreabilidade e sem expor desnecessariamente dados pessoais.
No centro da transição está uma mudança de lógica: o telefone deixa de ser necessariamente o eixo principal da identificação do cliente, e as empresas passam a depender de identificadores contextuais, governança de dados e integração entre sistemas.
A preparação para esse novo modelo será decisiva para manter atendimento eficiente, histórico preservado e relacionamento personalizado em um ambiente digital cada vez mais orientado por privacidade.
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