Em entrevista ao Crypto ID, Daniel Tafelli explica como o Adyen Authenticate utiliza inteligência artificial para equilibrar segurança e conversão e analisa os novos desafios de identidade, consentimento e autorização nas compras realizadas por agentes de IA
A inteligência artificial está transformando a autenticação de pagamentos digitais ao permitir que cada transação seja analisada em tempo real, combinando segurança, prevenção a fraudes e uma experiência de compra com menos obstáculos.
Nesse contexto, a Adyen atualizou o Adyen Authenticate, solução integrada ao Adyen Uplift que utiliza machine learning para determinar quando uma autenticação é necessária, qual método deve ser utilizado e quais informações podem contribuir para a aprovação do pagamento pelo banco emissor.
Segundo a Adyen, o varejo pode perder até 10% das vendas legítimas devido a bloqueios indevidos. Em testes globais com o Authenticate, a companhia informa aumentos relativos de 11% e 12% na conversão de pagamentos da Too Good To Go e da Just Eat Takeaway.com, respectivamente.
Ao mesmo tempo, o avanço do comércio agêntico (Agentic Commerce) introduz novos desafios para a identidade digital. Quando agentes de IA passam a realizar compras em nome dos consumidores, torna-se necessário comprovar não apenas a identidade do titular, mas também a autorização concedida ao agente, seus limites e a legitimidade de cada operação.
O tema está no centro das discussões do Agentic Commerce Summit, realizado em 8 de outubro de 2026, no Rio de Janeiro, com apoio da Adyen, Mastercard e AWS.

Para aprofundar essas questões, o Crypto ID entrevistou Daniel Tafelli, Head of Payments Partnerships Latam da Adyen, sobre o funcionamento da autenticação inteligente, seus resultados para o varejo e a evolução dos mecanismos de identidade, consentimento e autorização necessários ao comércio agêntico.
Sobre o Daniel Tafelli
Daniel Tafelli é Head of Payments Partnerships Latam na Adyen e atua há mais de dez anos no ecossistema de pagamentos e serviços financeiros.
Ao longo de sua carreira, participou do desenvolvimento e da expansão de iniciativas relacionadas à digitalização dos pagamentos no Brasil, incluindo débito no comércio eletrônico, Pix e tap-to-pay.
Sua trajetória reúne experiência em parcerias estratégicas, desenvolvimento de negócios, gestão de produtos e relacionamento com diferentes participantes do setor financeiro e de tecnologia. Na Adyen, atua na ampliação de parcerias e no crescimento da operação na América Latina, com foco em inovação, inclusão financeira e evolução da infraestrutura de pagamentos.
A seguir, Tafelli responde às dez perguntas do Crypto ID.
Como funciona o Adyen Authenticate e qual é seu papel na infraestrutura de pagamentos
Crypto ID: O que exatamente é o Adyen Authenticate e como essa tecnologia atua, na prática, durante uma transação de pagamento? Gostaríamos de entender em que momento da jornada a solução entra, quais componentes participam da decisão e como ela se integra às demais camadas de pagamentos, risco e prevenção a fraudes da Adyen.
Daniel Tafelli: O Adyen Authenticate é a solução de autenticação de pagamentos que integra a suíte de otimização Adyen Uplift. Com base em machine learning, a tecnologia atua em milissegundos durante o processamento do pagamento para tomar três decisões: se a autenticação é necessária, qual método tem maior probabilidade de sucesso para aquele consumidor e quais informações devem ser compartilhadas com o banco emissor para aumentar as chances de aprovação.
A decisão considera os sinais de risco da rede da Adyen e o histórico de desempenho das tecnologias disponíveis. Como a Adyen atua tanto como adquirente quanto como provedora de autenticação, o Authenticate também aprende com os resultados finais de autorização dos pagamentos, otimizando a conversão.
A solução funciona de forma integrada ao Protect, módulo de gestão de fraudes do Uplift, combinando a avaliação de risco à escolha da estratégia de autenticação mais adequada para cada transação.
Quais sinais a inteligência artificial analisa para determinar o nível de autenticação
Crypto ID: A Adyen utiliza inteligência artificial para definir a estratégia de autenticação mais adequada para cada transação. Como essa decisão é tomada tecnicamente?
Daniel Tafelli: A decisão é tomada através de modelos de machine learning, treinados com o volume global de transações da Adyen, e que utilizam os sinais de risco da empresa e o histórico de desempenho das diferentes tecnologias de autenticação.
A análise considera fatores como o consumidor, o banco emissor, o valor da transação e os requisitos aplicáveis. Como há mais de 90% de chance de já termos processado uma transação relacionada a um novo consumidor de uma marca, nossos modelos utilizam esse efeito de rede para tomar decisões precisas.
Analisamos centenas de sinais simultaneamente, que incluem o contexto da transação (valor, horário, categoria do lojista), dados do dispositivo, sinais comportamentais e o histórico de risco.
Se os sinais indicam um usuário legítimo e confiável, a plataforma opta por rotas de menor fricção (como fluxos invisíveis). Se o risco for mais elevado ou houver uma exigência regulatória, o sistema aciona dinamicamente a exigência de uma autenticação adicional (o chamado step-up).
O que diferencia o Authenticate das tecnologias tradicionais de autenticação
Crypto ID: O mercado já utiliza 3D Secure, risk-based authentication e mecanismos de análise de risco há vários anos. O que diferencia tecnicamente o Adyen Authenticate das soluções já disponíveis no mercado? Onde estão as principais inovações da ferramenta e de que maneira tecnologias como passkeys, biometria e novos métodos de autenticação entram nessa arquitetura?
Daniel Tafelli: O diferencial do Authenticate está na orquestração dinâmica e na integração de diferentes tecnologias de autenticação em uma única solução, permitindo escolher o método mais adequado para cada transação, em vez de aplicar a mesma estratégia a todos os pagamentos.
Nós alternamos em tempo real entre diferentes tecnologias, desde fluxos data-only (apenas troca de dados nos bastidores), passando pelo 3DS dinâmico, até tecnologias de autenticação como Google Secure Payment Authentication (SPA) e Visa e Mastercard Payment Passkeys.
Nos fluxos compatíveis, as passkeys permitem confirmar pagamentos por meio de recursos do dispositivo, como impressão digital ou reconhecimento facial, substituindo senhas de uso único.
Além de escolher a rota, o Authenticate otimiza os dados para o emissor: no 3DS, a solução avalia mais de 150 campos para entender quais combinações geram maior taxa de aprovação e otimizar a conversão final do pagamento.
Como reduzir a fricção sem aumentar a exposição a fraudes
Crypto ID: Para o varejo, um dos principais desafios é reduzir abandono sem ampliar a exposição a fraudes. Como o Adyen Authenticate equilibra conversão, segurança e experiência do consumidor? Quais controles impedem que uma estratégia de menor fricção aumente o risco das transações?
Daniel Tafelli: O segredo está em concentrar a segurança apenas onde ela é genuinamente necessária. Como apontamos em nosso Relatório de Fraude deste ano, o varejo chega a perder até 10% das vendas legítimas por conta de bloqueios indevidos, os chamados de “falsos positivos”.
O Authenticate resolve esse dilema trabalhando em conjunto com o Adyen Protect, nossa solução de gestão de fraudes.
Enquanto o Protect avalia o risco das transações e contribui para identificar possíveis fraudes, o Authenticate avalia a melhor forma de validar a identidade de quem é legítimo.
Como a análise é baseada nos sinais de risco e no histórico disponíveis na rede, que é atualizada a cada milissegundo, conseguimos aplicar uma estratégia de baixa fricção sem abrir mão de controles rigorosos de risco.
Quais resultados concretos já foram alcançados no comércio digital
Crypto ID: Quais benefícios concretos a solução já demonstrou para varejistas e empresas de comércio digital? Além do aumento da taxa de aprovação, gostaríamos de entender os impactos sobre abandono de carrinho, falsos positivos, fraude, tempo de conclusão da compra e experiência do cliente. Como esses resultados são medidos e comparados?
Daniel Tafelli: Os resultados são medidos através do impacto direto na receita do lojista, observando métricas de aumento de conversão, além de indicadores de desempenho dos diferentes fluxos de autenticação.
Por meio do relatório dedicado à autenticação na Dashboard da Adyen, os clientes podem acompanhar, por exemplo, quantas transações foram concluídas sem desafios adicionais e identificar motivos de erros técnicos ou rejeições dos emissores.
Durante os testes globais em ambientes reais, a plataforma de impacto social Too Good To Go registrou um aumento relativo de 11% na conversão de pagamentos.
Já a Just Eat Takeaway.com registrou um aumento de 12% na conversão no tráfego elegível, e tudo isso com uma única integração de sistema e sem necessidade de manutenção contínua. É a prova de que segurança inteligente se traduz em receita.
Quais operações do varejo podem se beneficiar mais da autenticação dinâmica
Crypto ID: Existem segmentos do varejo, mercados, perfis de consumidor ou tipos de transação em que o Adyen Authenticate apresenta resultados mais expressivos? Quais características de uma operação fazem com que esse tipo de autenticação dinâmica tenha maior impacto sobre conversão e segurança?
Daniel Tafelli: Embora a tecnologia beneficie qualquer vertical do e-commerce, o impacto depende das características da operação, do perfil das transações e das condições de autenticação aplicáveis em cada mercado.
Nesses setores, uma fração de segundo a mais ou a exigência de uma senha esquecida é o suficiente para o cliente abandonar o carrinho e ir para o concorrente.
Portanto, operações que dependem intrinsecamente da velocidade do checkout e da fluidez na jornada do cliente são as que mais convertem a redução de fricção em volume imediato de vendas.
Qual é o papel da identidade digital na autenticação inteligente
Crypto ID: Qual é o papel da identidade do consumidor nessa tomada de decisão? A plataforma analisa predominantemente o contexto da transação ou também utiliza sinais comportamentais, informações do dispositivo, histórico e outros elementos capazes de aumentar a confiança sobre quem está realizando a compra?
Daniel Tafelli: A identidade é central, mas ela deixou de ser baseada apenas em “o que o usuário sabe” (como uma senha) para se basear em “quem o usuário é” e em “como ele se comporta”.
Nossos modelos avaliam predominantemente essa identidade enriquecida. Em vez de apenas olhar para o número do cartão, a plataforma analisa a visão abrangente do contexto: a reputação do dispositivo, a localização e o histórico de compras dentro da nossa rede global.
É a combinação do contexto da transação, do histórico disponível e da tecnologia de autenticação adequada que contribui para reduzir verificações adicionais desnecessárias, sem deixar de atender aos requisitos de segurança.
Como comprovar que um agente de IA está autorizado a comprar em nome do consumidor?
Crypto ID: Com o avanço do Agentic Commerce, uma compra poderá ser iniciada ou conduzida por um agente de IA em nome do consumidor. Como isso altera os conceitos atuais de identidade, consentimento, autenticação e autorização no comércio digital? Como o ecossistema poderá comprovar que determinado agente realmente recebeu permissão para agir e até onde vai essa autorização?
Daniel Tafelli: O Comércio Agêntico representa um novo modelo operacional: além de verificar a identidade do consumidor, será necessário comprovar que o agente de IA está autorizado a agir em seu nome e dentro de quais limites. Isso transforma a autenticação.
O consentimento e a autorização também mudam. Em determinadas jornadas, eles poderão ser definidos previamente pelo consumidor, em vez de depender de uma aprovação a cada compra.
Para o ecossistema comprovar essa permissão, serão necessários mecanismos seguros e verificáveis de delegação, associados às credenciais e aos dados da transação.
O sistema não vai mais validar necessariamente se o humano está ali clicando no botão de comprar, mas sim ler a credencial para garantir que o agente de IA está operando estritamente dentro do consentimento ou das fronteiras pré-aprovadas pelo dono da conta, avaliando limites de valor, restrições de lojistas e validade daquela permissão.
Ou seja, a identidade e a autenticação precisarão considerar não apenas o consumidor, mas também a legitimidade do agente e os limites da autorização concedida, com mecanismos de segurança e rastreabilidade para comprovar essa relação.
Tokens e credenciais programáveis poderão estabelecer limites para as compras realizadas por IA?
Crypto ID: Será necessário criar sinais, credenciais ou mecanismos de delegação específicos para distinguir uma compra realizada diretamente pelo consumidor de uma transação executada por um agente autorizado? Como questões como limite de valor, categoria de produto, recorrência e escopo da autorização poderão ser incorporadas à infraestrutura de pagamentos?
Daniel Tafelli: Sem dúvida. A infraestrutura de pagamentos terá que evoluir para suportar credenciais programáveis.
Isso envolverá a tokenização avançada, onde o token de pagamento não carregará apenas os dados do cartão, mas também as “regras de negócio” da delegação, como limites de valor diário, categorias de produtos permitidas (ex: autorizar o agente a comprar em supermercados, mas não eletrônicos) e escopo de tempo.
A infraestrutura precisará reconhecer esses sinais de delegação e verificar se a transação respeita os limites estabelecidos pelo consumidor.
Também será importante aprimorar a integração entre agentes, comerciantes, adquirentes e emissores para que as transações autorizadas sejam identificadas e avaliadas adequadamente pelos mecanismos de risco e prevenção a fraudes.
O que a Adyen pretende levar ao debate do Agentic Commerce Summit?
Crypto ID: A Adyen é uma das apoiadoras do Agentic Commerce Summit, ao lado de Mastercard e AWS. O que motivou a empresa a participar deste debate agora e o que pretende apresentar durante o evento? Quais tecnologias, experiências ou perspectivas a Adyen pretende levar ao encontro e quais desafios de pagamentos, autenticação, segurança e prevenção a fraudes considera mais urgentes para o avanço do comércio agêntico?
Daniel Tafelli: A nossa participação na primeira edição do Agentic Commerce Summit reflete o compromisso da Adyen em antecipar o futuro dos pagamentos.
Entendemos que o Comércio Agêntico não vai apenas mudar a forma como as pessoas compram, mas exigirá uma reformulação completa da arquitetura de risco.
Ao lado de parceiros como Mastercard e AWS, nosso objetivo é compartilhar a visão de quem já processa bilhões de transações globais e ajudar a guiar as discussões sobre padrões de autenticação delegada.
O desafio mais urgente que levaremos ao debate é justamente como a indústria vai conseguir distinguir uma transação agêntica legítima de uma fraude automatizada por inteligência artificial, garantindo que a infraestrutura financeira continue sendo um motor de crescimento seguro e sem fricções.
A autenticação passa a considerar também quem recebeu autorização para agir
A entrevista com Daniel Tafelli evidencia duas frentes na evolução dos pagamentos digitais: o uso de inteligência artificial para aprimorar a autenticação e reduzir fraudes e a necessidade de criar mecanismos de autorização para transações realizadas por agentes de IA.
No comércio agêntico, não bastará verificar a identidade do consumidor. Será necessário comprovar que o agente recebeu autorização para agir, quais são seus limites e se a transação respeita as permissões concedidas.
Essa transformação coloca identidade, autenticação, autorização e rastreabilidade no centro da infraestrutura de pagamentos. Para viabilizá-la, serão necessários padrões, credenciais e mecanismos verificáveis de delegação, capazes de distinguir operações legítimas de fraudes automatizadas.
Sobre a Adyen
A Adyen (AMS: ADYEN) é uma plataforma global de tecnologia financeira que reúne processamento de pagamentos, recursos de gestão de risco, autenticação e ferramentas de otimização de transações.
A companhia oferece soluções para operações comerciais físicas e digitais e atende empresas como Uber, 99, HDI Seguros, iFood e Globo, entre outras.
O Adyen Authenticate integra inteligência artificial à infraestrutura de autenticação de pagamentos.
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