Em ID Talk na Fenalaw 2026, Getúlio Santos, CEO da ZapSign fala sobre certificados digitais para agentes de IA, inovação, atração de talentos internacionais e novos negócios
O Brasil precisa reconhecer sua capacidade de desenvolver e exportar tecnologia, em vez de simplesmente reproduzir soluções criadas em outros países. Essa foi uma das principais reflexões de Getúlio Santos, CEO e cofundador da ZapSign, durante entrevista concedida a Regina Tupinambá e Susana Taboas, do Crypto ID, na Fenalaw 2026, realizada em São Paulo.
Ao longo da conversa, o executivo apresentou uma visão de negócios que combina internacionalização, segurança digital, experimentação tecnológica e um modelo de gestão capaz de atrair profissionais de grandes empresas globais.
A ZapSign, fundada em 2020 e integrante do grupo latino-americano Truora, reúne atualmente mais de 8 milhões de usuários, ultrapassou 120 milhões de documentos assinados e informa presença em 81 países.
Brasil deve exportar tecnologia, não apenas importar modelos
Um dos momentos mais relevantes da entrevista foi a avaliação de Getúlio sobre a maturidade tecnológica brasileira, especialmente no uso de certificados digitais.
“O Brasil é talvez o país que faz o melhor uso de um certificado digital”, afirmou.
Para o executivo, o conhecimento acumulado no país em certificação e identidade digital representa uma vantagem que deveria ser mais explorada comercialmente nos mercados internacionais.
“A gente deveria estar exportando isso para o mundo e não tentando copiar tecnologias desenvolvidas em outros países.”
Sua avaliação está associada à experiência brasileira com a infraestrutura de certificação digital e ao desenvolvimento de soluções voltadas às necessidades do mercado nacional.
O posicionamento não significa desconsiderar padrões internacionais, mas defender uma participação mais ativa das empresas brasileiras na construção de soluções tecnológicas.
“A gente não precisa seguir um padrão determinado por outro país.”
Uma empresa brasileira com os olhos voltados para o mundo
A internacionalização, segundo Getúlio, exige mais do que presença comercial no exterior. É necessário conhecer outros mercados, compreender novas tecnologias e observar como empresas de diferentes culturas desenvolvem produtos e conquistam consumidores.
“Não adianta eu falar que eu tenho ambições globais e ficar só aqui no Brasil olhando pro meu pé.”
Durante 2026, integrantes da equipe participaram de experiências internacionais que incluíram Barcelona, na Espanha, além de Estônia, Finlândia, China, Coreia do Sul e Dinamarca.
Essas viagens fazem parte de uma estratégia de aprendizado que ultrapassa os limites do desenvolvimento de software. Envolvem design, marketing, segurança, modelos de negócios e até questões geopolíticas.
“A gente precisa ter contato com outras tecnologias. Na verdade, não só tecnologia, mas como vender e como causar desejo.”
Getúlio também relatou que profissionais com desempenho destacado podem participar dessas experiências, incluindo eventos internacionais, como forma de reconhecimento e desenvolvimento.
A proposta é ampliar o repertório das equipes e compartilhar internamente o conhecimento adquirido.
Trabalho remoto permite disputar talentos com Google e Facebook
Outro aspecto da estratégia empresarial da ZapSign é a manutenção de um modelo de trabalho integralmente remoto, adotado durante a pandemia e preservado como característica da organização.
Com uma equipe de aproximadamente 120 profissionais, segundo o relato apresentado na entrevista, a empresa mantém colaboradores distribuídos geograficamente e utiliza encontros presenciais periódicos para fortalecer a integração.
“Somos uma empresa remota e não é da boca pra fora”.
Na avaliação de Getúlio, essa política cria uma oportunidade de competir pela contratação de profissionais experientes que não desejam retornar ao trabalho presencial.
“Eu consigo trazer engenheiros de Google, Facebook que estão cansados de ter que voltar agora pro presencial.”
A declaração evidencia uma estratégia de atração de talentos baseada na flexibilidade e na possibilidade de trabalhar independentemente da localização geográfica.
Identidade digital de agentes de IA entra no debate
Ao abordar os desafios de segurança digital, Getúlio trouxe uma reflexão diretamente relacionada à evolução dos sistemas de autenticação e à crescente autonomia dos agentes de inteligência artificial.
“No cerne da questão, a gente sempre vai voltar para onde? A identidade.”
Para o executivo, o certificado digital permanece entre os mecanismos mais robustos de vinculação de uma identidade a operações eletrônicas.
“Quem sabe se os agentes de IA não deveriam ter o seu certificado digital como forma de vincular sua identidade a alguém?”
A provocação amplia uma discussão técnica importante: como identificar agentes de IA que executam operações em nome de pessoas ou organizações, estabelecer seus limites de atuação e produzir evidências verificáveis sobre as ações realizadas?
A utilização de certificados digitais e de mecanismos criptográficos pode contribuir para autenticar sistemas e agentes, proteger a integridade de mensagens e estabelecer vínculos com entidades responsáveis.
Entretanto, a identidade criptográfica de um agente não resolve, isoladamente, questões de autorização, responsabilização ou legitimidade de suas decisões. Essas operações também exigem políticas de acesso, controle de permissões, registros auditáveis e governança.
A reflexão de Getúlio antecipa um desafio crescente para empresas que começam a delegar atividades operacionais a agentes autônomos.
Zlab: experimentar, errar e criar novos negócios
A inovação também recebeu destaque na entrevista, especialmente com a apresentação do laboratório interno de experimentação da ZapSign, referido como Zlab.
A estrutura foi criada para permitir o desenvolvimento e o teste de novas iniciativas sem comprometer o planejamento de evolução do produto principal da empresa.
Getúlio explicou que aproximadamente dez projetos foram desenvolvidos em menos de um ano, embora nem todos tenham chegado ao mercado.
“A gente tem que ter essa fomento ao erro.”
Para o executivo, a experimentação exige aceitar que algumas ideias não terão continuidade. O importante é criar condições para testar hipóteses, identificar oportunidades e aprender rapidamente.
Ele também revelou que a empresa passa por um processo de reorganização tecnológica destinado a sustentar novas funcionalidades e maior escala operacional.
“Às vezes a gente tem que parar, arrumar a casa, refazer a fundação para poder aguentar mais coisa.”
Pombo Digital leva notificações extrajudiciais ao WhatsApp
Entre as novidades apresentadas durante a Fenalaw está o Pombo Digital, solução voltada ao envio de notificações extrajudiciais por aplicativos de mensagens, especialmente o WhatsApp.
Segundo Getúlio, a iniciativa surgiu da observação de uma mudança no comportamento dos usuários, que passaram a utilizar cada vez mais o WhatsApp em processos de assinatura eletrônica, substituindo fluxos tradicionalmente realizados por e-mail.
O produto aplica essa mesma lógica às notificações extrajudiciais, simplificando procedimentos que frequentemente envolvem telegramas e outros meios tradicionais de comunicação.
O uso de aplicativos de mensagens, entretanto, exige cuidados específicos com a identificação do destinatário, a comprovação do recebimento, a integridade das evidências e os requisitos jurídicos aplicáveis a cada tipo de notificação.
A validade de uma comunicação eletrônica não decorre exclusivamente do aplicativo utilizado, mas da possibilidade de demonstrar, conforme o caso, a autenticidade, o conteúdo e a efetiva entrega da mensagem.
Marketing com humor para combater a burocracia
A estratégia de comunicação da ZapSign também foi abordada durante a entrevista, com destaque para a campanha estrelada pelo humorista Rafael Portugal e para o personagem Nex, um alienígena utilizado para representar os processos burocráticos que a empresa pretende superar.
Getúlio explicou que a companhia procura utilizar linguagem acessível e humor para apresentar serviços que tradicionalmente são associados a procedimentos complexos e formais.
A proposta é aproximar a tecnologia de seus usuários e demonstrar que a digitalização pode simplificar atividades cotidianas sem dispensar os requisitos de segurança e conformidade.
A visão comercial do executivo aparece sintetizada em outra declaração:
“Hoje criar não é tão difícil. O problema é distribuir.”
A frase traduz um desafio para empresas de software: transformar capacidade de desenvolvimento tecnológico em produtos que efetivamente alcancem o mercado e conquistem adoção.
Para Getúlio, o setor precisa de mais colaboração
No encerramento da conversa, provocado por Susana Taboas a deixar uma mensagem ao mercado, Getúlio defendeu maior aproximação entre empresas brasileiras que atuam com assinaturas eletrônicas, verificação de identidade e tecnologias de KYC (Know Your Customer).
Em sua avaliação, a concorrência não deveria impedir a colaboração em temas relevantes para o desenvolvimento do setor.
Para ilustrar os riscos de uma gestão excessivamente concentrada nas ameaças externas, recuperou uma frase que considera significativa:
“Eu escutei uma vez uma frase que as empresas normalmente não são assassinadas, elas se suicidam.”
A reflexão remete à necessidade de as organizações reconhecerem seus próprios riscos, revisarem processos e desenvolverem capacidade de adaptação.
Ao longo da entrevista, Getúlio apresentou uma visão na qual segurança, inovação, expansão internacional e gestão de pessoas não são estratégias isoladas, mas componentes de um mesmo projeto empresarial.
E deixou uma mensagem que ultrapassa a experiência da ZapSign: o Brasil dispõe de conhecimento tecnológico que pode ganhar maior presença internacional, mas esse potencial depende de empresas capazes de inovar, desenvolver talentos, colaborar e transformar suas soluções em negócios de alcance global.
Sobre a ZapSign

ZapSign é uma plataforma de assinatura eletrônica que permite a empresas e profissionais formalizar documentos com validade jurídica de forma simples, rápida e 100% digital. Fundada por advogados com o objetivo de democratizar o acesso à formalização digital, a empresa combina segurança jurídica com uma experiência intuitiva, alinhada à forma como as pessoas se comunicam hoje.
Atualmente, a ZapSign conta com mais de 5 milhões de usuários, já viabilizou a assinatura de mais de 70 milhões de documentos e está presente em 81 países, atendendo desde profissionais autônomos até empresas de diferentes portes e setores. Com a evolução para Autoridade Certificadora vinculada à ICP-Brasil, a ZapSign reforça seu posicionamento como uma das principais infraestruturas de confiança digital do Brasil, ampliando continuamente seus padrões de segurança sem abrir mão da simplicidade que a consolidou no mercado.
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