Vitor Genaro, da Ábaco Consulting, explica como agentes podem consultar dados e executar processos SAP sem obter acesso irrestrito aos sistemas corporativos
Contextualização
À medida que a Inteligência Artificial avança da geração de conteúdo para a execução de processos, o debate dentro das empresas deixa de ser apenas sobre produtividade. Agentes de IA já podem consultar informações, analisar cenários, recomendar decisões, preparar documentos e, em determinados casos, executar transações em sistemas corporativos.
Na indústria, essa evolução coloca o sistema integrado de gestão empresarial, conhecido pela sigla ERP, em uma nova posição. Além de registrar informações e conectar áreas como produção, suprimentos, estoque, logística e finanças, o ERP passa a funcionar como uma das principais bases operacionais para os agentes de IA.
Mas transformar o ERP em infraestrutura para a IA exige mais do que conectar um modelo a um banco de dados. É preciso definir de quais fontes o agente pode obter informações, quais operações está autorizado a realizar, que identidade utilizará, onde será obrigatória a aprovação humana e como reconstruir cada ação para fins de auditoria.
Foi a partir dessas questões que o Crypto ID aprofundou a discussão com Vitor Genaro, head de vendas Cloud da Ábaco Consulting. Na entrevista a seguir, o executivo explica como os agentes podem operar sobre ambientes SAP por meio de interfaces controladas, por que devem ser tratados como identidades não humanas e quais limites precisam ser estabelecidos antes que a automação alcance processos críticos da indústria.

Leia a entrevista na íntegra!
Crypto ID: Quando um agente deixa de apenas responder perguntas e passa a consultar dados ou executar ações, como ele se conecta tecnicamente ao ERP? Em um ambiente SAP, qual arquitetura permite acessar informações e funções de negócio sem expor diretamente o núcleo transacional?
Vitor Genaro: Um agente de IA não deve acessar diretamente o banco de dados nem o núcleo transacional de um ERP. Sua atuação precisa ocorrer por meio de interfaces de programação de aplicações, as APIs, serviços de negócio, eventos e uma camada intermediária responsável pela integração e pela governança.
Em um ambiente SAP, quando um usuário faz uma solicitação em linguagem natural, o agente interpreta a intenção, recupera o contexto necessário e estrutura um plano de ação. Antes de consultar qualquer informação ou executar uma transação, uma camada de governança valida a identidade do agente, verifica suas autorizações, analisa as políticas corporativas aplicáveis e identifica se existe a necessidade de aprovação humana.
Somente depois dessa validação, a camada de integração aciona os serviços específicos do ERP. Isso pode ocorrer por meio de APIs OData, protocolo utilizado para acesso e manipulação de dados; serviços REST, padrão arquitetural de comunicação entre sistemas; eventos de negócio; ou, quando necessário, BAPIs, interfaces padronizadas da SAP para a execução de funções de negócio, e RFCs, mecanismo utilizado para chamadas remotas de funções.
Esse modelo permite que o agente opere apenas dentro dos limites previamente definidos pela organização, preservando a integridade dos processos e evitando a exposição direta do ambiente transacional.
Crypto ID: A capacidade de decisão do agente depende diretamente da qualidade das informações disponíveis. O que precisa estar organizado em dados mestres, cadastros, regras de negócio e integrações antes que a IA possa atuar sobre produção, estoque, compras ou finanças?
Vitor Genaro: A qualidade das decisões tomadas por um agente de IA depende diretamente da qualidade dos dados disponíveis. Por isso, a IA somente deve recomendar ou executar ações quando estiver apoiada em uma base integrada, governada e reconhecida pela empresa como fonte confiável.
Isso exige tecnologia, processos bem definidos, responsabilidades claras e políticas que determinem qual sistema representa a fonte oficial de cada informação.
Antes de permitir que agentes atuem sobre produção, estoque, compras ou finanças, a empresa precisa garantir que os dados mestres estejam completos, sem duplicidades e com responsáveis definidos. Também devem existir regras consistentes para criação e manutenção de cadastros, processos efetivamente integrados ao ERP e regras de negócio devidamente parametrizadas e documentadas.
As integrações precisam contar com mecanismos de monitoramento e tratamento de falhas. Metadados também devem indicar a origem, a data de atualização e o nível de confiança de cada informação.
Na prática, o agente pode utilizar o ERP como fonte oficial para dados mestres e transacionais, enquanto sistemas especializados podem permanecer como referência em domínios específicos. É o caso do Manufacturing Execution System, ou MES, responsável pelas operações no chão de fábrica, e do Warehouse Management System, ou WMS, utilizado na gestão de armazéns.
Essa hierarquia não pode ser decidida pelo próprio modelo de IA. Ela deve ser estabelecida pelas políticas corporativas. Quando houver divergência entre fontes, o agente não deve escolher automaticamente a informação que considera mais provável. O comportamento adequado é aplicar uma regra determinística previamente definida ou interromper a automação para que a situação seja analisada por um responsável humano.
Crypto ID: Quando o agente passa a consultar informações ou executar transações, ele deve ser tratado como uma identidade não humana? Como administrar autenticação, autorização, menor privilégio e o ciclo de vida dessa identidade?
Vitor Genaro: Quando um agente de IA deixa de apenas gerar recomendações e passa a consultar dados ou executar transações, ele deve ser tratado como uma identidade não humana, com credenciais próprias e gestão completa de seu ciclo de vida.
Isso significa que o agente precisa possuir uma identidade técnica exclusiva, independente da identidade do usuário que iniciou a solicitação. Também deve utilizar mecanismos seguros de autenticação e autorização, como OAuth e tokens JWT com validade limitada, operando sempre com permissões específicas baseadas no princípio do menor privilégio.
É necessário manter a segregação entre ambientes de desenvolvimento, testes e produção, além de adotar processos de expiração, rotação e revogação das credenciais. Todas as ações realizadas pelo agente também precisam ser registradas integralmente.
Um princípio importante é que o agente nunca herde automaticamente os privilégios do usuário que o acionou. Um colaborador pode estar autorizado a solicitar uma análise sobre compras, enquanto o agente possui permissão apenas para consultar estoques, realizar simulações ou preparar um documento em formato de rascunho.
A aprovação final e a contabilização permanecem sob responsabilidade de outras identidades e continuam sujeitas às políticas de segregação de funções existentes na empresa.
Crypto ID: Um agente pode identificar a falta de matéria-prima e sugerir uma compra, mas em que circunstâncias poderia emitir a ordem ou reorganizar a produção? Como são definidos os limites entre autonomia e aprovação humana?
Vitor Genaro: A autonomia de um agente de IA não deve ser determinada pelo próprio modelo, mas pelas políticas de governança da organização.
Em um primeiro nível, o agente pode apenas consultar informações e apresentar contexto, sem provocar qualquer alteração nos processos. Em um estágio seguinte, pode recomendar ações e demonstrar impactos, riscos e alternativas para apoiar uma decisão humana.
Em um nível mais avançado, o agente pode preparar documentos, ordens ou requisições em formato de rascunho, ainda sem produzir efeitos definitivos no ERP.
A execução automática somente deve ocorrer quando a operação estiver integralmente dentro dos limites definidos pelas políticas corporativas. Elementos como valor financeiro, risco fiscal, impacto operacional, ocorrência de exceções e nível de confiança dos dados determinam quando a aprovação humana será obrigatória.
Uma compra acima da alçada prevista, um pagamento, um ajuste contábil, uma operação envolvendo fornecedor bloqueado ou uma reprogramação com grande impacto na produção são exemplos de situações que exigem validação antes da execução.
Quando os dados apresentarem inconsistências ou baixa confiabilidade, o agente também deve interromper a automação, em vez de prosseguir com uma decisão baseada em informações duvidosas.
Mesmo em cenários altamente automatizados, a segregação de funções continua sendo essencial. Um agente que prepara uma compra não deve ser responsável por aprová-la, registrar o recebimento e autorizar o pagamento. Assim como ocorre com usuários humanos, a identidade do agente precisa permanecer sujeita às políticas de risco, compliance e auditoria da organização.
Crypto ID: Na indústria, o ERP se comunica com sistemas de manufatura, logística, sensores e ambientes de tecnologia operacional. Como integrar os agentes a essa cadeia sem permitir que uma instrução inadequada ou maliciosa alcance equipamentos e processos críticos?
Vitor Genaro: A integração entre agentes de IA e o ambiente industrial precisa preservar a arquitetura de segurança existente entre os sistemas corporativos e a tecnologia operacional.
O agente nunca deve possuir acesso direto a controladores industriais, máquinas, sensores ou equipamentos de produção. Sua atuação deve se limitar à interpretação de contexto, à geração de recomendações e ao acionamento de serviços previamente autorizados dentro do ERP.
A comunicação com sistemas como MES, WMS ou Transportation Management System, o TMS utilizado no gerenciamento de transportes, deve ocorrer por meio de integrações controladas.
Qualquer interação com equipamentos industriais precisa passar obrigatoriamente por gateways capazes de aplicar validações determinísticas, restringir os comandos permitidos e impor limites operacionais.
Essa arquitetura reduz a superfície de ataque e impede que comandos gerados por IA sejam enviados diretamente ao ambiente operacional. Entre as boas práticas estão a separação entre as redes de Tecnologia da Informação e de Tecnologia Operacional, o uso exclusivo de interfaces autorizadas, a realização de simulações antes de ações críticas, a definição de limites físicos, financeiros e operacionais, mecanismos de reversão, monitoramento contínuo e procedimentos de parada segura.
Outro risco relevante é o prompt injection. Documentos, mensagens ou conteúdos externos consultados pelo agente podem conter instruções maliciosas destinadas a influenciar seu comportamento. Por isso, informações provenientes de fontes não confiáveis devem ser tratadas exclusivamente como dados, nunca como comandos executáveis.
Toda a operação também precisa ser rastreável. A empresa deve conseguir identificar quem acionou o agente, qual identidade técnica foi utilizada, quais informações foram consultadas, quais APIs foram chamadas, quais regras foram aplicadas, quem aprovou cada etapa e quais sistemas ou processos foram alterados.
Crypto ID: O que uma indústria já consegue implementar atualmente e o que ainda pertence ao conceito de empresa autônoma? Quais etapas podem ser adotadas agora sem depender de uma operação integralmente conduzida por agentes?
Vitor Genaro: Grande parte das capacidades associadas aos agentes de IA já pode ser implementada de maneira segura e controlada.
Atualmente, é possível utilizar agentes para consultar dados do ERP por meio de APIs protegidas, responder perguntas sobre processos operacionais, gerar recomendações baseadas em regras de negócio, emitir alertas sobre rupturas ou atrasos, automatizar tarefas repetitivas, criar documentos em rascunho e executar determinadas transações de baixo risco.
Essas operações precisam respeitar limites previamente estabelecidos e estar sujeitas a mecanismos de aprovação sempre que necessário.
Também já existem recursos para criar identidades técnicas específicas para os agentes, aplicar o princípio do menor privilégio, manter a segregação de funções, registrar trilhas completas de auditoria e integrar os agentes aos sistemas de manufatura e logística de forma controlada.
Nesse contexto, a Ábaco Consulting atua desde o diagnóstico da maturidade dos processos, dados, integrações e controles de segurança até a preparação do ERP para o consumo por agentes.
Esse trabalho pode incluir o saneamento de dados mestres, o desenho de APIs por meio da SAP Business Technology Platform, a SAP BTP, a implementação de fluxos automatizados, a definição de alçadas, a criação de modelos de identidade e autorização e a implantação gradual de casos de uso consultivos, supervisionados e transacionais.
Todo o processo deve ser acompanhado por mecanismos de monitoramento e observabilidade.
Por outro lado, uma empresa verdadeiramente autônoma, capaz de operar processos críticos de ponta a ponta com mínima intervenção humana, ainda representa um estágio de evolução para a maior parte das organizações.
Esse cenário depende não apenas do avanço tecnológico, mas principalmente da maturidade dos processos, da qualidade dos dados, da integração entre sistemas e da existência de políticas sólidas para governança, segurança, identidades não humanas e definição de responsabilidades.
O caminho mais seguro é evoluir progressivamente: começar com consultas e recomendações, avançar para a preparação de ações, permitir execuções limitadas e ampliar a autonomia somente à medida que os processos, controles e mecanismos de supervisão se tornem suficientemente maduros.
Agradecimento
O Crypto ID agradece a Vitor Genaro pela disponibilidade e pelas explicações, que ajudam a demonstrar que a adoção de agentes de IA em ambientes empresariais não depende apenas da capacidade dos modelos.
A evolução para operações mais autônomas exige dados confiáveis, processos integrados, identidades próprias para agentes, autorizações compatíveis com o princípio do menor privilégio, segregação de funções, aprovação humana nos pontos de maior risco e rastreabilidade de todas as ações executadas.
Quem é Vitor Genaro
Vitor Genaro é head de vendas Cloud da Ábaco Consulting. Com mais de 15 anos de experiência no ecossistema de consultoria SAP e MBA Executivo em Liderança e Gestão pela USP/Esalq, atua conectando estratégia, inovação e entrega de projetos para os segmentos de vestuário e calçados.
Sobre a Ábaco Consulting
A Ábaco Consulting é uma consultoria de negócios focada em gestão e especializada no ecossistema SAP. A empresa é apresentada pela própria SAP como Gold Partner desde 2008, com mais de 150 consultores e atuação em consultoria, outsourcing, formação, manutenção, modernização e melhoria de ambientes empresariais. A companhia também desenvolve ofertas direcionadas a segmentos específicos, como o mercado de moda.
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