III Congresso FENACON reuniu lideranças e especialistas para discutir impactos da nova tributação, da IA, da gestão e da segurança de dados sobre empresas e escritórios contábeis
O III Congresso FENACON, realizado em 6 de agosto, na sede do SESCON-SP, em São Paulo, reuniu lideranças do setor contábil e especialistas em tributação, tecnologia, inteligência artificial, segurança de dados, economia e gestão para discutir as transformações que já começam a alterar a rotina das empresas e dos escritórios de contabilidade.
Promovido pela Federação Nacional das Empresas de Serviços Contábeis e das Empresas de Assessoramento, Perícias, Informações e Pesquisas (FENACON), o Congresso contou com a participação de representantes dos 41 sindicatos filiados ao Sistema FENACON no país.Na abertura, o presidente da Federação, Reynaldo Lima Jr., destacou o papel das lideranças empresariais na preparação do setor para as mudanças em curso e anunciou uma nova edição do Programa Internacional da FENACON, prevista para 2027, no Paraguai.
A programação técnica concentrou-se em dois grandes movimentos que se cruzam no ambiente contábil: a implantação da Reforma Tributária, incluindo o Split Payment, e o avanço da tecnologia, especialmente da inteligência artificial e da automação.

Da DACON ao Split Payment: a obrigação virou dadoUm dos destaques da programação foi a palestra da contadora e pesquisadora Justine Arruda, com o tema “Inteligência Tributária Conectada à IA”.
Em um dos slides apresentados durante o Congresso, uma linha do tempo mostrou a evolução da relação digital entre empresas e Fisco, passando pelas obrigações acessórias, pelo Sistema Público de Escrituração Digital (SPED) e chegando ao Split Payment e à Reforma Tributária.
A apresentação foi sintetizada pela frase exibida no telão:“Da DACON ao Split Payment: a obrigação virou dado.”O Split Payment está entre as mudanças estruturais introduzidas pela Reforma Tributária.
O mecanismo prevê a segregação dos valores correspondentes ao Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e à Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) no fluxo financeiro das operações, aproximando o recolhimento tributário do momento em que o pagamento é realizado.
Para empresas e escritórios contábeis, a mudança amplia a importância da integração entre informações fiscais, sistemas de gestão e meios de pagamento.
Durante sua apresentação, Justine abordou também a preparação dos contadores para a transição do sistema tributário e a necessidade de conhecer com maior profundidade a operação dos clientes.
A especialista apontou áreas como precificação, fluxo de caixa e formas de comercialização entre os temas que deverão receber maior atenção durante a transição.
Também recomendou a segmentação das carteiras de clientes por atividades econômicas, como varejo, serviços, transporte, educação e agronegócio, considerando as particularidades tributárias de fornecedores, produtos, compradores e respectivas cadeias produtivas.
Split Payment também coloca tecnologia no centro da Reforma Tributária
A implantação do Split Payment envolve uma infraestrutura que conecta tributação, documentos fiscais, dados e pagamentos.
O tema já foi aprofundado no Crypto ID por Susana de Paula Taboas, no artigo “Split Payment: A Engenharia de Dados e Cibersegurança por Trás da Nova Era Fiscal Brasileira”.No artigo, Susana analisa os requisitos tecnológicos associados ao novo modelo, incluindo engenharia de dados, integração entre sistemas, processamento de transações, disponibilidade da infraestrutura e cibersegurança.
O assunto ganha relevância porque o funcionamento do Split Payment depende da circulação de informações entre diferentes participantes do ecossistema tributário e financeiro.
À medida que documentos fiscais, dados da operação e liquidação financeira passam a fazer parte de processos cada vez mais integrados, disponibilidade, integridade, rastreabilidade e proteção das informações tornam-se componentes da própria operação tributária.
Inteligência artificial entra na agenda da profissão contábil
A transformação tecnológica também esteve presente na primeira palestra do Congresso, apresentada por Joaquim Bezerra, presidente do Conselho Federal de Contabilidade (CFC).
Com o tema “O Novo Ciclo da Contabilidade Brasileira: Preparação, Liderança e Legado”, Bezerra abordou as mudanças provocadas pela tecnologia e pela inteligência artificial e a necessidade de capacitação dos profissionais.O presidente do CFC afirmou que a entidade pretende ampliar iniciativas de preparação dos contadores para o uso da inteligência artificial e defendeu que os profissionais se antecipem às mudanças tecnológicas.A discussão sobre IA continuou com Adriano Ferreira, na apresentação “O que fica quando a IA faz tudo?”, oferecida pela SIEG.
A palestra discutiu o espaço do trabalho humano em um ambiente no qual tarefas operacionais podem ser cada vez mais automatizadas.Ferreira destacou elementos como relacionamento, confiança, conhecimento do cliente e capacidade de aconselhamento entre os atributos que permanecem associados à atuação do profissional contábil.
A questão se relaciona diretamente à Reforma Tributária
Com maior automação dos processos fiscais, escritórios contábeis passam a encontrar novas demandas em atividades como análise, interpretação de dados, planejamento e orientação empresarial.Segurança de dados também esteve entre os temas centraisA proteção das informações armazenadas pelos escritórios contábeis foi abordada por Elinton Marçal, diretor-fundador da SCI Sistemas.
A apresentação tratou da segurança dos bancos de dados das empresas contábeis, que concentram informações fiscais, contábeis, trabalhistas e pessoais de clientes.Marçal alertou para os riscos associados à manipulação direta das bases de dados para alimentar sistemas de Business Intelligence (BI) e ferramentas de inteligência artificial.Integrações inadequadas, scripts não validados e acessos indiscriminados às tabelas podem provocar inconsistências, comprometimento das informações, dificuldades de rastreabilidade e problemas relacionados à proteção de dados.
Entre as recomendações apresentadas esteve a utilização de mecanismos controlados de integração, como Interfaces de Programação de Aplicações (APIs).
A discussão se conecta ao avanço da inteligência artificial e da própria digitalização tributária: a qualidade dos resultados produzidos por sistemas automatizados depende da qualidade, integridade e governança dos dados utilizados.
Reforma Tributária amplia discussão sobre gestãoA Reforma Tributária voltou ao centro da programação no encerramento do Congresso, com Wagner Xavier, diretor de Contas Estratégicas da Omie.
Na palestra “Reforma Tributária: Estruturação e Oportunidades para o Mercado Contábil”, Xavier abordou os impactos das mudanças sobre a gestão das empresas e as possibilidades de ampliação dos serviços oferecidos pelos escritórios.
Entre as áreas mencionadas estiveram precificação, BPO de tesouraria, análise societária, consultoria estratégica, estruturação de holdings e elaboração de planos de negócios.
A apresentação organizou os impactos da reforma em quatro frentes: gestão financeira, gestão de dados, gestão de compras e vendas e conformidade fiscal.
Economia e produtividade completaram a programação
A programação contou ainda com a participação de João Vitor Dias Gonçalves, economista da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).Sua apresentação trouxe um panorama da economia brasileira, do mercado de trabalho, da produtividade e dos segmentos econômicos representados pela FENACON.
Entre os números apresentados, as atividades de contabilidade chegaram a 318.404 estabelecimentos em 2025, enquanto as atividades de consultoria em gestão empresarial somaram 207.886 estabelecimentos.
O economista também tratou da participação das micro e pequenas empresas no setor de serviços e dos efeitos que mudanças econômicas e regulatórias podem produzir sobre essas organizações.Reforma Tributária e tecnologia avançam juntas
As apresentações do III Congresso FENACON mostraram diferentes dimensões de uma mesma transformação enfrentada atualmente pelo setor contábil.
A Reforma Tributária modifica regras, tributos e processos
O Split Payment altera a relação entre pagamento e recolhimento. A inteligência artificial amplia a automação das atividades. E o crescimento da circulação e utilização de dados exige novas práticas de integração, governança e segurança.Para escritórios contábeis e empresas, esses movimentos passam a ocorrer simultaneamente.A frase apresentada durante a palestra de Justine Arruda resume uma das mudanças discutidas no encontro: “a obrigação virou dado”.No novo ambiente tributário e tecnológico, esse dado passa a integrar sistemas, pagamentos e processos de decisão que estarão cada vez mais presentes na rotina das empresas e dos profissionais da contabilidade.
Split Payment: A Engenharia de Dados e Cibersegurança por Trás da Nova Era Fiscal Brasileira
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