Agentes de Inteligência Artificial aceleram uma transformação silenciosa na segurança digital: a identidade deixa de ser humana, persistente e baseada em login para se tornar não humana, efêmera e orientada à ação. O impacto já é real — inclusive no Brasil
Durante décadas, identidade digital foi tratada como sinônimo de usuário. Login, senha, autenticação multifator e, mais recentemente, biometria, definiram o ponto de partida da confiança nos sistemas. Esse modelo funcionou enquanto a maior parte das ações relevantes era executada por pessoas.
Esse cenário mudou.
Hoje, a maioria das operações críticas em ambientes corporativos, financeiros e governamentais é realizada por identidades não humanas (NHIs – Non-Human Identities): aplicações, APIs, contas de serviço, robôs de automação, microserviços em nuvem e, de forma cada vez mais acelerada, agentes de Inteligência Artificial autônomos.
Para o Crypto ID, este não é um tema emergente, mas estrutural. As NHIs deixaram de ser exceção técnica e passaram a ocupar o centro da governança digital.
Agentes de IA e o colapso do modelo baseado em login
Agentes de IA ampliam um problema que já existia, mas agora em outra escala. Eles surgem e desaparecem em segundos, operam sem supervisão humana direta, tomam decisões com impacto operacional e regulatório, acionam outros sistemas e escalam de forma exponencial.
Esse comportamento rompe definitivamente com a lógica da identidade como evento único. Verificar “quem é” no início da sessão e confiar durante toda a execução não funciona quando a identidade não é humana, a sessão é efêmera e a decisão é automatizada.
O resultado é um descompasso perigoso entre a velocidade da automação e a capacidade de controle, auditoria e responsabilização.
NHIs: o ponto cego da segurança moderna
Apesar de já dominarem o volume de acessos e ações, as NHIs ainda são tratadas, na maioria das organizações, como um detalhe técnico. Na prática, isso significa contas técnicas com permissões excessivas, credenciais estáticas e de longa duração, reuso de identidades entre múltiplas funções, baixa visibilidade e pouca auditoria.
Com agentes de IA, essa fragilidade deixa de ser silenciosa e passa a ser sistêmica. Um erro de permissão deixa de afetar um processo isolado e passa a ser replicado automaticamente, em alta velocidade.
Como as IAs têm identidade?
Uma das confusões mais comuns no debate sobre Inteligência Artificial é a ideia de que a IA “não tem identidade”. Na prática, ela sempre tem — apenas não no formato humano tradicional.
Para operar, precisam ser reconhecidas, autenticadas e autorizadas por sistemas digitais. É isso que caracteriza uma identidade não humana.
A identidade de uma IA é o conjunto de elementos técnicos e lógicos que permite que ela seja reconhecida por outros sistemas, prove que é quem diz ser, receba permissões para agir e tenha suas ações registradas e auditáveis.
Essa identidade pode assumir diferentes formas.
Identidade por conta técnica
É o modelo mais comum — e o mais problemático.
A IA opera por meio de contas de serviço, usuários técnicos, credenciais estáticas e permissões amplas.
Esse modelo falha porque mistura múltiplas funções em uma única identidade, não diferencia contexto nem finalidade, dificulta auditoria e responsabilização e não escala para agentes efêmeros.
Identidade por aplicação ou workload
Em arquiteturas mais modernas, a IA se apresenta como uma aplicação autenticada, um microserviço, um container ou um workload em nuvem.
Aqui, a identidade é exclusiva da função, tem escopo bem definido, pode ser temporária e é verificável criptograficamente. A identidade deixa de ser um “usuário disfarçado” e passa a ser uma entidade digital própria.
Identidade orientada à ação
Com agentes de IA, surge um terceiro nível: a identidade passa a ser avaliada em função da ação executada.
Nesse modelo, permissões dependem da tarefa, o acesso depende do contexto, a confiança é contínua e cada ação pode ser validada, limitada ou bloqueada. Identidade, autorização e governança deixam de ser camadas separadas e passam a operar de forma integrada.
A realidade brasileira amplia o risco
No Brasil, o desafio das NHIs ganha contornos ainda mais sensíveis. Ambientes regulados, sistemas legados e integrações massivas convivem com exigências claras de proteção de dados, responsabilização, rastreabilidade e minimização de acesso.
Agentes de IA já começam a apoiar análises no setor público, motores antifraude no sistema financeiro e fluxos sensíveis na saúde. Nesses contextos, não saber qual NHI acessou quais dados, sob qual finalidade e por quanto tempo deixa de ser um problema técnico e passa a ser um problema jurídico e institucional.
Identidade como controle contínuo
O ponto central deste editorial é direto: identidade digital precisa deixar de ser tratada como login e passar a ser tratada como controle contínuo sobre ações automatizadas.
Isso implica NHIs próprias e exclusivas, tempo de vida curto, permissões dinâmicas, verificação em tempo de execução e revogação imediata quando o contexto muda.
Frameworks internacionais já caminham nessa direção ao tratar identidades de máquinas e workloads como entidades criptograficamente verificáveis e descartáveis. No Brasil, esse debate ainda é fragmentado — mas não pode mais ser adiado.
Um princípio inegociável
Se uma IA pode agir, ela precisa ter uma identidade claramente definida, limitada no tempo, associada a uma finalidade, rastreável e revogável.
Sem isso, não há como garantir conformidade com a LGPD, auditar decisões automatizadas ou atribuir responsabilidades.
Resumidamente
- Agentes de IA não estão apenas mudando a forma como o trabalho é feito. Eles estão redefinindo o próprio conceito de identidade digital.
- A identidade deixou de ser login.
Passou a ser governança contínua de ações automatizadas. - Quem ainda tenta controlar IA com modelos pensados apenas para usuários humanos já está operando em atraso.
NHIs: A nova fronteira crítica da segurança cibernética
Quando o acesso ganha autonomia: agentes de IA estão quebrando o modelo clássico de controle
Identidades Não Humanas na Nuvem: Certificados, PKI e o Desafio da Segurança Invisível
Identidade e Cibersegurança: O Que Realmente Importa na Escolha de Soluções IAM
Acompanhe artigos do Brasil e do Mundo sobre

Crypto ID é o maior mídia Online do Brasil e América Latina sobre identificação. Leia e acompanhe.
Acompanhe o melhor conteúdo sobre Inteligência Artificial publicado no Brasil.
































