Agentes de IA usam o login do cliente; especialistas defendem identidade própria e verificável para cada agente
Grandes bancos americanos identificaram agentes de inteligência artificial operando dentro de contas de clientes com o login do próprio correntista, e alguns tentaram agir sem ordem do usuário. No Brasil, onde o Sistema de Pagamentos Instantâneos (SPI) processou R$ 3,2 trilhões em setembro, o alerta chega antes do problema.
A revelação foi feita pela Axios em 22 de outubro. Segundo a reportagem, grandes bancos dos Estados Unidos estão detectando agentes de IA de terceiros, não autorizados pelas instituições, dentro de contas de clientes. Na maioria dos casos, o agente entra com as credenciais e a permissão do próprio usuário, o que já contraria as regras da maior parte dos bancos.
Alguns agentes, porém, tentaram executar ações que pareciam independentes das instruções recebidas, e outros chegaram a contatar centrais de atendimento por conta própria. Um executivo bancário ouvido pela publicação definiu a situação como “horripilante”.
Para Elcio Calefi, diretor de Tecnologia e Experiência da Associação Open Finance Brasil, a questão central não é tecnológica. Em artigo publicado no Finsiders Brasil, ele afirma que o desafio do setor “não será ensinar a IA a fazer um Pix”.
Executar uma transação por API é a parte mais simples. O difícil é o ecossistema conseguir responder em nome de quem o agente agiu, quem o autorizou, dentro de quais limites e quem responde pelo resultado.
A reação dos bancos americanos
Segundo a Axios, o Morgan Stanley começou a bloquear agentes de terceiros em suas plataformas, e JPMorgan, Bank of America e Citi também estão restringindo esse tipo de acesso.
Um porta-voz do Chase reforçou a orientação de que clientes não compartilhem usuário e senha com ninguém. Já um porta-voz do Morgan Stanley afirmou que o banco não observou casos de agentes desonestos em suas plataformas.
O ponto mais preocupante é outro: muitos bancos simplesmente não conseguem distinguir se a atividade de um agente foi pedida pelo cliente ou se o agente obteve acesso indevido.
A tendência, por enquanto, é liberar apenas acesso somente leitura, que permite consultar informações sem movimentar dinheiro. As instituições também estão planejando cenários de “dia seguinte” para restaurar rapidamente o acesso dos clientes em caso de incidente.
Por que o login do cliente é o problema
Quando um agente usa a senha do correntista, ele pode se tornar indistinguível do próprio titular para os mecanismos tradicionais de autenticação. O banco perde a capacidade de saber quem está agindo, de aplicar limites específicos e de revogar o acesso do agente sem bloquear o cliente.
É uma falha de identidade e de controle de autorização, não apenas de tecnologia.
Calefi defende um caminho estruturado. Cada agente precisa de identidade própria, distinta do cliente e da aplicação. A autorização deve funcionar como um mandato, com finalidade, limites, validade e condições de revogação.
O agente deve operar com o menor privilégio possível, e a aprovação humana deve ser exigida por exceção, por exemplo, acima de determinado valor ou para um novo destinatário.
Segundo ele, uma resposta de modelo de linguagem não equivale a autorização, e o modelo não deve ficar na rota de liquidação: a execução deve passar por APIs determinísticas e instituições autorizadas.
O que o episódio antecipa para o Brasil
O Brasil reúne condições favoráveis para a chegada dos agentes financeiros e também está exposto aos riscos associados à sua utilização.
Segundo o Banco Central, o Pix ultrapassou 1 bilhão de chaves cadastradas em setembrode 2026, com cerca de 170 milhões de clientes, entre pessoas físicas e empresas.
Naquele mês, o Sistema de Pagamentos Instantâneos (SPI) processou aproximadamente 7,1 bilhões de transações, que movimentaram R$ 3,2 trilhões.
A infraestrutura brasileira já tem peças importantes para um modelo seguro. O Open Finance baseia o compartilhamento de dados em consentimento explícito do cliente, e o Pix Automático permite autorizar previamente cobranças recorrentes dentro de condições definidas.
São mecanismos de autorização delegada que podem servir de referência para a atuação de agentes, sem a necessidade de criar um “Pix para agentes” separado, como argumenta o próprio Calefi.
O Banco Central incluiu em sua agenda de 2025 e 2026 o estudo dos riscos e impactos do uso de IA pelas instituições financeiras, com previsão de discussões e consultas públicas.
O episódio americano oferece um estudo de caso valioso antes que o problema se instale por aqui.
Identidade verificável como resposta
Organismos internacionais já trabalham em padrões de identidade e autorização para agentes, como a OpenID Foundation, por meio do grupo AuthZEN, e a Internet Engineering Task Force (IETF).
A direção é a mesma que o Crypto ID vem defendendo: credenciais verificáveis precisam abranger não só pessoas e empresas, mas também aplicações, agentes de IA e objetos conectados, como discutido no artigo “Por que precisamos expandir o debate sobre credenciais verificáveis.“
Na prática, isso significa que cada agente deveria apresentar uma credencial criptograficamente verificável, emitida para ele e vinculada a um titular humano ou organização responsável.
Essa credencial deve permitir verificar a identidade do agente e estar associada a autorizações com limites claros e possibilidade de revogação.
As pessoas que comandam agentes dentro das organizações também precisam de autenticação forte, preferencialmente baseada em certificados digitais, com acessos monitorados por ferramentas de gestão de identidades e acessos (IAM).
Próximos passos
O avanço dos agentes de IA no sistema financeiro tende a ampliar a necessidade de mecanismos específicos de identidade, autorização e auditoria.
A questão é se essa expansão acontecerá sobre credenciais emprestadas ou sobre identidades próprias e auditáveis.
Nos Estados Unidos, os bancos estão reagindo a situações já identificadas.
No Brasil, com Pix, Open Finance e uma agenda regulatória que reconhece os riscos da inteligência artificial, existe a oportunidade de construir mecanismos preventivos antes que incidentes semelhantes ocorram.
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Destaque: Do onboarding ao Pix: como a HID está redefinindo a segurança da identidade nos bancos
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