Artigo da jornalista Adriana Vasconcellos Soares mostra como o avanço da IA e do “zero clique” está desconstruindo a lógica do tráfego orgânico e exigindo conteúdo autoral, relevante e estrategicamente publicado
O artigo publicado a seguir, a jornalista e assessora de imprensa Adriana Vasconcellos, analisa uma mudança que já afeta empresas, marcas, veículos e profissionais de comunicação: o fim da dependência do tráfego grátis como principal métrica de sucesso digital. A partir do avanço da inteligência artificial e do crescimento do chamado “zero clique”, a autora mostra que a velha lógica de produzir conteúdo apenas para aparecer no Google e gerar visitas está sendo desconstruída.
O novo ambiente digital exige outra leitura. A IA tende a priorizar conteúdos autorais, inteligentes, bem contextualizados, com informações relevantes e publicados em ambientes que transmitam autoridade e naturalidade. Não basta mais empilhar palavras-chave, disputar posições no buscador ou tentar “enganar” algoritmos. É hora de entender como pensam os agentes de IA, como eles selecionam fontes, como reconhecem autoridade e por que reputação, consistência editorial e contexto passam a pesar tanto quanto, ou mais, que o clique.
Leia o artigo.
O fim do tráfego grátis exige uma nova estratégia digital

Por Adriana Vasconcellos Soares
Durante mais de duas décadas, boa parte das estratégias digitais foi construída sobre uma premissa simples. Produzir conteúdo, aparecer bem-posicionado no Google e transformar cliques em oportunidades de negócio, essa lógica não desapareceu, mas está mudando rapidamente. O crescimento da inteligência artificial está alterando a forma como as pessoas pesquisam, consomem informações e tomam decisões. Cada vez mais, o usuário encontra a resposta antes mesmo de acessar um site. O resultado é um fenômeno que vem preocupando profissionais de marketing, veículos de comunicação e empresas de diferentes setores. O chamado “zero clique”.
Dados recentes divulgados por Rand Fishkin, cofundador da SparkToro, mostram a dimensão dessa transformação. Entre janeiro e abril de 2026, apenas 32% das pesquisas realizadas no Google nos Estados Unidos geraram algum clique, os outros 68% terminaram sem visita a sites externos. Os números revelam uma mudança significativa de comportamento, cerca de 39% das buscas são encerradas após a leitura da resposta apresentada pelo próprio Google, outros 29% resultam em uma nova pesquisa realizada imediatamente pelo usuário. Apenas uma parcela segue para algum tipo de clique e mesmo dentro desse grupo, os sites externos recebem uma fatia cada vez menor da atenção.
Dos cliques realizados, aproximadamente 66% foram direcionados para a chamada web aberta, incluindo sites, blogs e lojas virtuais. Isso representa apenas 23,2% do total das buscas realizadas, o restante ficou concentrado dentro do próprio ecossistema do Google, incluindo YouTube, Google Maps, AI Mode e anúncios pagos. A mudança é expressiva. Em 2024, cerca de 41% das buscas geravam cliques, em 2026, esse índice caiu para 32%, uma redução superior a 20%.
A inteligência artificial acelerou uma tendência que já existia
Embora a chegada dos AI Overviews tenha acelerado esse movimento, a transformação não começou agora. Há anos o Google vem reduzindo a necessidade de o usuário sair da plataforma para encontrar informações básicas. Resultados esportivos, previsão do tempo, endereços, definições, conversões e respostas rápidas já eram apresentados diretamente na página de resultados. A inteligência artificial ampliou essa capacidade, agora, o usuário pode receber resumos completos, comparações, recomendações e análises sem visitar uma única página.
Em muitos casos, a resposta aparece pronta, isso reduz o volume de cliques disponíveis e aumenta a competição pela atenção. O problema não é apenas perder tráfego, durante muito tempo, o sucesso digital foi medido principalmente pelo número de visitas. Hoje, essa métrica isolada se tornou insuficiente. A questão não é apenas quantas pessoas acessam um site, é quem acessa, por que acessa e qual o valor daquela audiência.
O próprio Google vem sinalizando essa mudança por meio de novos recursos voltados para retenção e relacionamento. Ferramentas como Fontes Preferenciais, Perfis de Busca e Vinculação de Assinaturas mostram uma direção clara, a plataforma está priorizando a conexão entre usuários e fontes que já conquistaram confiança e credibilidade. Em outras palavras, o foco deixa de ser volume e passa a ser relacionamento.
A era da lealdade digital e o que as empresas precisam fazer
O novo cenário favorece empresas, marcas e veículos capazes de construir audiência própria. O usuário que busca diretamente pelo nome de uma empresa, assina um newsletter, acompanha um perfil ou retorna regularmente para consumir conteúdo tem muito mais valor do que uma visita ocasional originada por uma busca genérica. Essa é uma mudança profunda, já que durante anos, muitas estratégias foram orientadas exclusivamente para aquisição de tráfego. Agora, cresce a importância de indicadores como retenção, recorrência, engajamento e relacionamento. O clique continua importante, mas deixa de ser o objetivo final.
O SEO continua relevante, o que mudou foi a forma de extrair valor dele.
Empresas que desejam manter competitividade precisam fortalecer suas marcas para estimular buscas institucionais. Quando o usuário procura diretamente pelo nome da empresa, da marca ou do profissional, a influência dos resumos gerados por IA diminui.
Também ganham importância os conteúdos de fundo de funil, voltados para comparação, validação, tomada de decisão e intenção de compra. São justamente esses temas que ainda tendem a gerar cliques mais qualificados. Outro movimento importante é a diversificação dos canais de comunicação.
Dependência excessiva do Google se tornou um risco estratégico. Portanto, Newsletter, LinkedIn, Instagram, YouTube, podcasts, imprensa e comunidades próprias passam a ter papel ainda mais relevante na construção de audiência e autoridade.
Nesse contexto, a assessoria de imprensa também ganha uma nova dimensão. Além de ampliar visibilidade, ela fortalece a reputação da marca em fontes consideradas confiáveis por buscadores e inteligências artificiais. Entrevistas, reportagens e artigos ajudam a construir autoridade que pode ser reutilizada pelos sistemas de IA na formação de respostas.
A nova métrica da relevância
A inteligência artificial não decretou o fim do SEO nem do marketing de conteúdo, mas acelerou uma mudança que já estava em curso. O volume de cliques deixa de ser a única medida de sucesso e a construção de confiança, lealdade e reconhecimento passa a ocupar um espaço central nas estratégias digitais. Empresas que continuarem perseguindo apenas tráfego podem enfrentar resultados cada vez menores. Já aquelas que investirem em marca, autoridade, relacionamento e conteúdo original terão mais chances de permanecer relevantes em um ambiente onde a decisão acontece antes mesmo do clique.
No novo ecossistema digital, vencer não significa apenas ser encontrado, significa ser lembrado, reconhecido e escolhido.
Adriana Vasconcellos Soares é jornalista, assessora de imprensa e sócia da Six Comunicação Integrada. Com 26 anos de experiência na área da comunicação, atua na criação e gestão de estratégias voltadas ao fortalecimento de marcas, posicionamento institucional e geração de visibilidade para empresas, produtos e serviços.
Para o Crypto ID, essa transformação confirma uma mudança que o mercado ainda precisa assimilar com mais maturidade. Quem ainda acredita que pode economizar em comunicação contratando uma assessoria de imprensa apenas para “ganhar espaço orgânico” não entendeu o contexto em que estamos vivendo. A disputa não é mais só por tráfego. É por autoridade, confiança, recorrência e reconhecimento.
No novo ecossistema digital, os anunciantes também precisarão rever seus investimentos em comunicação. Conteúdo relevante, presença editorial qualificada, reputação construída em fontes confiáveis e relacionamento consistente com audiências reais deixam de ser apoio à estratégia e passam a ser a própria estratégia.
No ambiente das inteligências artificiais, vencer não significa apenas ser encontrado. Significa ser lembrado, reconhecido, citado e escolhido.
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