Operação Economic Outcast aponta falhas nos controles de conformidade da corretora, movimentações ligadas a sanções internacionais e crimes cibernéticos. Plataforma anunciou expansão no Brasil em 2025
O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou, nesta sexta-feira, 6 de novembro de 2026, uma medida contra a corretora internacional de criptomoedas MEXC Global, após identificar movimentações de pelo menos US$ 16,7 bilhões relacionadas a atividades consideradas provavelmente ilícitas, entre maio de 2021 e maio de 2026.
A determinação foi emitida pela Financial Crimes Enforcement Network (FinCEN), órgão de inteligência financeira do Departamento do Tesouro americano responsável pelo combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento de atividades ilícitas.
A medida integra a Operação Economic Outcast, voltada à interrupção de canais financeiros utilizados para contornar sanções econômicas internacionais, especialmente aquelas relacionadas ao Irã.
A ordem estabelece a proibição de determinadas transferências de recursos envolvendo a MEXC Global por instituições financeiras abrangidas pela legislação americana, incluindo operações com moedas virtuais conversíveis.
A restrição entrará em vigor 30 dias após a publicação da ordem no Federal Register, o diário oficial federal dos Estados Unidos. A decisão não representa, por si só, a interrupção mundial das operações da corretora, mas restringirá seu acesso ao sistema financeiro americano.
Identificação de clientes e monitoramento de transações entram no centro da discussão
Além das implicações financeiras e internacionais, o caso coloca em evidência a eficácia dos mecanismos utilizados pelas plataformas de criptoativos para identificar clientes, verificar restrições regulatórias e monitorar a movimentação de recursos.
Segundo a FinCEN, embora a MEXC Global declarasse adotar políticas de Know Your Customer (KYC), identificação e conhecimento do cliente, e de Anti-Money Laundering (AML), prevenção à lavagem de dinheiro, seus controles não foram suficientes para impedir transações envolvendo entidades sancionadas e recursos associados a atividades ilícitas.
A documentação aponta que determinadas operações ocorreram inclusive com participantes localizados em jurisdições nas quais a própria plataforma estabelecia restrições de atendimento.
Para o mercado de segurança e prevenção a fraudes, o episódio evidencia a necessidade de integração entre identificação de clientes, verificação de beneficiários, consulta a listas de sanções e monitoramento contínuo de transações.
No ambiente das criptomoedas, esses procedimentos incluem a análise de endereços blockchain e das relações entre carteiras, corretoras e entidades sujeitas a restrições financeiras.
A questão central não é apenas identificar quem utiliza uma plataforma, mas verificar se os controles conseguem detectar e impedir operações incompatíveis com as exigências regulatórias.
A documentação americana, entretanto, não atribui as movimentações a uma vulnerabilidade técnica específica nos sistemas de identificação ou autenticação da MEXC Global.
As conclusões da FinCEN concentram-se na insuficiência dos mecanismos de conformidade e prevenção à lavagem de dinheiro.
Uma das maiores corretoras de criptomoedas do mundo
Fundada em 2018 e constituída nas Seychelles, a MEXC Global atua internacionalmente por meio de diferentes estruturas corporativas.
Segundo a FinCEN, em junho de 2026 a plataforma processava mais de US$ 1 bilhão em transações diárias, mantinha aproximadamente US$ 5 bilhões em ativos de reserva e figurava entre as 20 maiores corretoras de moedas virtuais conversíveis do mundo em volume negociado.
A corretora disponibilizava operações em mais de 50 moedas e acesso a mais de 3 mil criptomoedas e ativos tokenizados.
Apesar de estabelecer restrições de atendimento para determinadas jurisdições, incluindo Irã e Coreia do Norte, a FinCEN identificou operações envolvendo entidades e indivíduos relacionados a países submetidos a sanções internacionais.
MEXC anunciou chegada ao Brasil em 2025
A decisão americana também tem relevância para o mercado brasileiro.
Em agosto de 2025, a MEXC anunciou sua chegada ao Brasil como parte de uma estratégia de expansão na América Latina.
Em entrevista publicada pela revista Exame em 27 de agosto daquele ano, André Sprone, então gerente de crescimento da MEXC para a América Latina, apresentou os planos da corretora para ampliar sua presença no país, incluindo o apoio a projetos e desenvolvedores do setor de criptoativos.
A decisão da FinCEN coincide com uma mudança importante na regulamentação brasileira.
A partir de 6 de novembro de 2026, o artigo 91 da Resolução BCB nº 520/2025, com redação dada pela Resolução nº 589/2026, proíbe que instituições financeiras, instituições de pagamento e demais instituições autorizadas pelo Banco Central realizem ou viabilizem operações no mercado de ativos virtuais com prestadoras não autorizadas a funcionar no país, ressalvadas as exceções previstas na regulamentação.
Até o momento, não foi possível confirmar a situação da MEXC perante o processo de autorização do Banco Central do Brasil, nem se a determinação americana terá consequências diretas sobre as operações da corretora destinadas ao mercado brasileiro.
A presença anunciada da plataforma no país, portanto, amplia o interesse da investigação para o mercado nacional, sem que isso permita concluir que houve descumprimento da regulamentação brasileira.
US$ 16,7 bilhões em movimentações associadas a atividades ilícitas
A ordem americana apresenta resultados de análises de transações em blockchain e de outras informações públicas e não públicas utilizadas pela FinCEN.
Entre os principais valores identificados estão:
- US$ 16,7 bilhões em movimentações associadas a atividades consideradas provavelmente ilícitas entre maio de 2021 e maio de 2026.
- Quase US$ 1,5 bilhão em exposição direta e indireta a transações relacionadas à evasão de sanções russas.
- US$ 232 milhões em transações diretas com entidades sancionadas pelos Estados Unidos, União Europeia e/ou Reino Unido.
- Aproximadamente US$ 1,87 bilhão em operações com exposição ao Irã.
- US$ 1,99 bilhão em movimentações associadas a agentes envolvidos em crimes cibernéticos.
Os valores correspondem a diferentes categorias de transações analisadas e não devem ser somados, pois podem existir sobreposições.
Também não representam necessariamente recursos furtados ou prejuízos financeiros comprovados. São movimentações classificadas pela autoridade americana segundo os critérios utilizados em sua investigação.
Rússia, Irã, Coreia do Norte e crimes cibernéticos entre as operações investigadas
A investigação identificou movimentações envolvendo corretoras e entidades sancionadas na Rússia, no Irã e na Coreia do Norte, além de recursos associados a ransomware, golpes digitais e mercados clandestinos.
Na Rússia, a MEXC Global teria realizado aproximadamente US$ 129 milhões em transações diretas com a Garantex, sancionada pelo Departamento do Tesouro americano em abril de 2022, e US$ 4,1 milhões com a Grinex, identificada pelas autoridades americanas como sua sucessora. Segundo a FinCEN, as operações continuaram até junho de 2026.
A análise também identificou pelo menos US$ 26 milhões em operações que beneficiaram a rede A7 e quase US$ 200 milhões relacionados à stablecoin A7A5, utilizada, segundo as autoridades americanas, em mecanismos para contornar sanções financeiras.
No Irã, foram identificadas mais de US$ 1 bilhão em transações diretas com mais de 40 corretoras de criptoativos, entre maio de 2021 e maio de 2026. A FinCEN também apontou aproximadamente US$ 22 milhões em operações associadas ao Banco Central iraniano, à Guarda Revolucionária Islâmica e à sua Força Quds, entidades submetidas a sanções internacionais.
Em relação à Coreia do Norte, a autoridade identificou movimentações envolvendo indivíduos sancionados, incluindo aproximadamente US$ 350 mil recebidos por Sim Hyon Sop, associado pelas autoridades americanas a atividades financeiras relacionadas ao país.
No campo dos crimes cibernéticos, a FinCEN apontou US$ 1,99 bilhão em movimentações envolvendo agentes associados a atividades criminosas, incluindo mais de US$ 37,9 milhões em recebimentos suspeitos de ransomware entre janeiro de 2022 e julho de 2024.
Esses valores correspondem às conclusões apresentadas pela autoridade americana e não comprovam, isoladamente, participação deliberada da corretora nas atividades criminosas atribuídas aos envolvidos.
O que determina a ordem contra a MEXC Global?
Com fundamento na Seção 9714(a) da legislação americana de combate à lavagem de dinheiro relacionada a atividades financeiras ilícitas russas, a FinCEN classificou a MEXC Global como uma instituição financeira estrangeira que representa preocupação prioritária em matéria de lavagem de dinheiro ligada ao financiamento ilícito russo.
A ordem proíbe que instituições financeiras abrangidas pela regulamentação americana realizem determinadas transferências de recursos envolvendo a MEXC Global, incluindo operações com moedas virtuais conversíveis.
A medida entrará em vigor 30 dias após a publicação no Federal Register, sem prazo determinado para seu encerramento.
O descumprimento poderá resultar em sanções civis ou criminais, permanecendo válidas as obrigações de prevenção à lavagem de dinheiro e comunicação de atividades suspeitas previstas na legislação americana.
Uma decisão com repercussões para o mercado internacional
A adoção de uma medida dessa natureza contra uma corretora que movimentava mais de US$ 1 bilhão diariamente coloca o relacionamento entre instituições financeiras tradicionais e plataformas de criptoativos no centro da discussão regulatória.
A FinCEN considerou que medidas menos restritivas não seriam suficientes para proteger o sistema financeiro americano dos riscos identificados.
Embora a determinação tenha alcance jurídico específico, ela poderá afetar relacionamentos operacionais e decisões de conformidade de instituições que mantenham vínculos com a plataforma.
Para o setor de segurança digital e prevenção a fraudes, o episódio reforça a importância de mecanismos de identificação, verificação e monitoramento capazes de acompanhar as operações durante todo o relacionamento com os clientes.
A investigação também evidencia que a existência de políticas formais de conformidade não substitui a necessidade de demonstrar sua efetividade na prevenção à lavagem de dinheiro, ao financiamento ilícito e à evasão de sanções internacionais.
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