Investigação sobre a eMudhra identifica oito chaves ECC vulneráveis, envolve HSMs utilizados na geração e mobiliza fabricantes de navegadores e fornecedores de software
Por Redação Crypto ID
A atualização emergencial do Go, noticiada pelo Crypto ID em 20 de outubro, ganhou uma explicação técnica. As oito chaves de autoridades certificadoras intermediárias bloqueadas pela linguagem de programação estão relacionadas a um incidente envolvendo a eMudhra, empresa indiana que opera serviços de certificação digital sob a marca emSign.
A investigação revelou que as chaves privadas foram geradas incorretamente durante uma cerimônia realizada em 30 de abril de 2025. Embora utilizassem a curva elíptica P-384, os valores produzidos eram extremamente pequenos e podiam ser recuperados quase instantaneamente a partir das chaves públicas.
Não há evidências de que as chaves tenham sido roubadas dos equipamentos criptográficos. O comprometimento ocorreu porque as chaves geradas eram previsíveis.
A descoberta levou à revogação de oito certificados intermediários, sendo seis destinados a TLS/HTTPS e dois à assinatura de código. Google, Mozilla, Apple, Microsoft e outros fornecedores adotaram medidas para impedir a utilização das chaves comprometidas.
O algoritmo P-384 não foi quebrado
O Indian Computer Emergency Response Team (CERT-In), órgão indiano de resposta a incidentes cibernéticos, esclareceu que o problema não representa uma quebra matemática do algoritmo P-384.
Em condições normais, uma chave privada P-384 deve ser gerada com aleatoriedade criptográfica adequada, dentro de um espaço numérico de aproximadamente 2 elevado a 384 possibilidades.
No incidente da eMudhra, as oito chaves privadas apresentavam valores inferiores a 256, permitindo sua recuperação por métodos computacionais convencionais.
A fragilidade não estava na matemática da criptografia de curvas elípticas, mas no processo utilizado para gerar e manipular as chaves.
HSMs da Utimaco e Entrust participaram da cerimônia
As chaves foram geradas durante uma cerimônia formal, conhecida como Key Generation Ceremony (KGC), com a utilização de módulos de segurança de hardware, os Hardware Security Modules (HSMs).
Esses equipamentos são utilizados por autoridades certificadoras, instituições financeiras e outras organizações para gerar, armazenar e utilizar chaves criptográficas em ambientes protegidos.
Um HSM permite executar operações criptográficas sem expor diretamente as chaves privadas ao ambiente externo. Também pode realizar operações de wrap/unwrap, utilizadas para proteger material criptográfico durante procedimentos controlados de exportação, transferência ou recuperação.
Segundo informações apresentadas pela eMudhra na investigação pública conduzida pela Mozilla, a cerimônia utilizou equipamentos dos fabricantes Entrust e Utimaco, com certificação FIPS 140-2 Nível 3.
Os HSMs da Entrust foram associados à série A, enquanto os equipamentos da Utimaco participaram da geração das séries B e C, nas quais foram identificadas as oito chaves ECC comprometidas.
A eMudhra informou que as chaves originais haviam sido geradas corretamente. Entretanto, durante uma operação de wrap/unwrap, um problema no script utilizado na cerimônia produziu um segundo conjunto de chaves mais fracas.
Segundo a explicação preliminar apresentada pela empresa, essas chaves acabaram sendo utilizadas na criação dos pedidos de assinatura de certificados (Certificate Signing Requests, ou CSRs), devido à semelhança entre os identificadores dos objetos criptográficos.
A associação dos equipamentos da Utimaco às chaves comprometidas não comprova defeito nos HSMs. A própria eMudhra afirmou, em sua avaliação preliminar, que os dispositivos não parecem ser a origem da falha.
A causa raiz definitiva continua sob investigação.
O caso também demonstra que a certificação FIPS 140-2 Nível 3, que estabelece requisitos de segurança para módulos criptográficos, não garante a ausência de erros nos scripts, procedimentos operacionais ou sistemas integrados aos equipamentos.
Falha permaneceu sem identificação por quase 18 meses
As chaves foram geradas em abril de 2025, mas o comprometimento somente foi identificado em 17 de outubro de 2026.
Segundo a eMudhra, a infraestrutura envolvida passou por auditorias independentes nesse intervalo.
A investigação levanta questões sobre os controles utilizados para validar as chaves geradas, a execução das cerimônias criptográficas e os mecanismos de auditoria.
Oito chaves vulneráveis integravam um conjunto maior de certificados intermediários produzidos na cerimônia. O problema identificado estava concentrado nas chaves ECC das séries B e C.
Revogação e bloqueios atingiram diferentes plataformas
A eMudhra revogou os oito certificados intermediários em 18 de outubro. A Sectigo, que havia assinado de forma cruzada alguns dos certificados afetados, também confirmou a conclusão das revogações correspondentes.

A resposta internacional envolveu diferentes mecanismos de proteção:
- Google Chrome: bloqueio das chaves públicas comprometidas por meio do CRLSet e anúncio de retirada de confiança da raiz emSign ECC Root CA – G3.
- Mozilla Firefox: bloqueio das intermediárias pela OneCRL e atualização do NSS para remover a raiz associada.
- Apple e Microsoft: adoção de medidas para bloquear as intermediárias comprometidas.
- Go: atualizações 1.27.3 e 1.26.10 para rejeitar cadeias de certificação que utilizem as oito chaves.
- Cloudflare: atualizações do WARP e cloudflared, além de medidas de proteção em serviços de CDN e Zero Trust.
O incidente também mobilizou mantenedores de repositórios de certificados utilizados por sistemas Linux, bibliotecas e aplicações que não dependem diretamente dos mecanismos de revogação dos navegadores.
Um registro de segurança do Debian classificou o problema como grave e informou que projetos como Ubuntu, Python certifi, Go e Homebrew já haviam disponibilizado correções. O Debian também iniciou medidas para atualizar seu pacote ca-certificates.
A distinção é importante: revogar um certificado intermediário não significa necessariamente que todas as aplicações deixarão de aceitá-lo. Sistemas que não consultam informações de revogação podem depender de atualizações específicas de seus repositórios de confiança.
O que acontece com os certificados da eMudhra?
A empresa informou que nenhum dos oito certificados intermediários comprometidos havia emitido certificados finais para sites ou organizações.
Entretanto, a decisão de retirar a confiança da raiz emSign ECC Root CA – G3 tem consequências mais amplas para certificados legítimos vinculados à mesma infraestrutura.
Na discussão pública da Mozilla, a eMudhra estimou inicialmente que aproximadamente 30 mil certificados precisariam ser migrados para cadeias alternativas, principalmente vinculadas à sua infraestrutura RSA.
Esse número corresponde à estimativa de migração apresentada pela empresa, e não à quantidade de certificados emitidos pelas oito intermediárias comprometidas.
Investigação continua e fabricantes de HSM podem esclarecer o incidente

A eMudhra afirma que a falha está relacionada ao processo de geração e manipulação das chaves. Até o momento, não foi demonstrado defeito nos HSMs utilizados.
O Crypto ID já solicitou esclarecimentos junto à Utimaco e à Entrust citados por varios veículos de impresa internacional sobre a participação dos equipamentos na cerimônia, os mecanismos de geração e validação das chaves e eventuais recomendações técnicas decorrentes do incidente.
A investigação também deverá esclarecer por que os controles operacionais e as auditorias não identificaram as chaves vulneráveis antes da publicação dos certificados.
O episódio demonstra que algoritmos criptográficos robustos e HSMs certificados dependem de procedimentos corretamente implementados e auditados. No caso da eMudhra, o P-384 permaneceu matematicamente seguro, mas as chaves geradas não ofereciam a proteção esperada.
Leia também: Go bloqueia oito chaves de certificação digital em atualização de emergência, publicado pelo Crypto ID em 20 de outubro de 2026.
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