Aquisição incorpora biometria comportamental e inteligência de dispositivos à estratégia global de segurança da Visa
A Visa anunciou nesta segunda-feira, 3 de agosto de 2026, a assinatura de um acordo definitivo para adquirir a BioCatch, empresa especializada em biometria comportamental e inteligência para prevenção de fraudes, por US$ 2,4 bilhões em dinheiro.
A operação envolve a compra da participação de fundos administrados pela empresa global de investimentos Permira e de outros acionistas da BioCatch. A conclusão ainda depende das autorizações regulatórias e das demais condições previstas no contrato. A expectativa oficial é de que o negócio seja finalizado até o fim do segundo trimestre fiscal de 2027 da Visa.
Com a aquisição, a Visa pretende ampliar sua atuação na detecção de ameaças antes que uma transação financeira chegue à etapa de pagamento. A tecnologia da BioCatch é utilizada para identificar apropriação de contas, golpes de engenharia social, abertura fraudulenta de contas, contas utilizadas como “laranjas” e outras modalidades de crimes financeiros.
“A BioCatch ajudará nossos clientes a impedir a fraude antes que ela chegue ao momento do pagamento”, afirmou Andrew Torre, presidente de Serviços de Valor Agregado da Visa, no anúncio da transação. Segundo o executivo, a inteligência artificial está permitindo que golpes e invasões de contas sejam executados em uma escala inédita.
Como funciona a tecnologia da BioCatch
Fundada em 2011, a BioCatch desenvolveu uma plataforma capaz de analisar milhares de sinais gerados durante a interação de uma pessoa com aplicativos e serviços bancários digitais.
Entre esses sinais estão a maneira como o usuário digita, movimenta o mouse, toca na tela, segura o dispositivo e navega pelos diferentes campos de uma aplicação. Informações sobre o dispositivo, a rede e a sessão também são utilizadas para identificar comportamentos incompatíveis com o histórico do cliente ou associados a padrões criminosos.
A tecnologia não depende apenas de uma verificação realizada no início da sessão. A análise ocorre continuamente, permitindo que a instituição financeira avalie se quem está utilizando a conta parece ser o cliente legítimo, um fraudador ou até mesmo uma pessoa que está sendo orientada por criminosos durante uma transação.
Atualmente, a BioCatch atende mais de 350 instituições financeiras em 21 países. De acordo com o anúncio, suas soluções protegem aproximadamente 760 milhões de usuários e 1,8 bilhão de dispositivos. Mais de 100 dos maiores bancos do mundo estão entre seus clientes.
A companhia informou em janeiro que encerrou 2025 com receita recorrente anual superior a US$ 185 milhões. Durante o ano, conquistou 90 novos clientes e passou a atender três dos quatro maiores bancos dos Estados Unidos em volume de ativos.
Valorização desde a entrada da Permira
A Permira realizou seu primeiro investimento na BioCatch em 2023 e adquiriu uma participação majoritária na companhia em 2024. Na ocasião, a empresa foi avaliada em US$ 1,3 bilhão.
Desde então, segundo informações reunidas pela Reuters, a receita e o lucro bruto da BioCatch cresceram aproximadamente três vezes. O valor de US$ 2,4 bilhões anunciado pela Visa demonstra a valorização da companhia durante esse período, embora a avaliação de 2024 e o valor atual da aquisição não representem necessariamente métricas financeiras idênticas.
Após a conclusão da operação, a BioCatch deverá integrar a divisão de Serviços de Valor Agregado da Visa. Gadi Mazor, CEO da empresa, afirmou que permanecerá no cargo e que a estrutura de liderança e de atendimento aos clientes será mantida.
Segundo Mazor, a combinação das empresas permitirá ampliar a aplicação da inteligência comportamental na rede global da Visa, que opera em mais de 200 países e territórios e mantém relacionamento com milhares de instituições financeiras.
Visa amplia portfólio de segurança e prevenção a fraudes
A aquisição faz parte de um movimento mais amplo da Visa para expandir seus serviços de segurança cibernética, identidade, inteligência artificial e prevenção a crimes financeiros.
A empresa afirma ter investido mais de US$ 13 bilhões em tecnologia e infraestrutura nos últimos cinco anos. Em dezembro de 2024, a Visa concluiu a aquisição da Featurespace, desenvolvedora de tecnologias de inteligência artificial para monitoramento de transações e identificação de fraudes em tempo real.
Mais recentemente, a companhia apresentou o Visa Vulnerability Agentic Harness, ferramenta de código aberto que utiliza agentes de inteligência artificial para identificar, classificar, corrigir e validar vulnerabilidades em sistemas.
A incorporação da BioCatch acrescenta uma camada voltada à compreensão do comportamento e da intenção do usuário. Dessa maneira, a Visa passa a reunir tecnologias capazes de acompanhar diferentes etapas do risco, desde a abertura de uma conta e o acesso ao banco digital até a movimentação dos recursos e a autorização do pagamento.
Disputa tecnológica no mercado global de pagamentos
A movimentação também ocorre em um ambiente de crescente disputa entre as grandes redes globais de pagamentos por tecnologias de prevenção a fraudes, inteligência de ameaças e identidade digital.
A Mastercard adquiriu a NuData Security em 2017. A empresa já utilizava biometria passiva e análise comportamental para identificar usuários legítimos e potenciais fraudadores durante interações online e em dispositivos móveis.
Em 2024, a Mastercard também anunciou a compra da empresa de inteligência de ameaças Recorded Future por US$ 2,65 bilhões. A operação ampliou sua capacidade de identificar ameaças cibernéticas antes, durante e depois das transações financeiras.
A compra da BioCatch mostra que a prevenção de fraudes está deixando de se concentrar exclusivamente na autorização de uma transação. O objetivo agora é identificar sinais de comprometimento, manipulação ou comportamento criminoso desde o início da jornada digital, antes que o dinheiro seja movimentado.
Esse modelo ganha importância diante da expansão dos golpes de engenharia social, da utilização de inteligência artificial por organizações criminosas e do avanço de agentes autônomos capazes de acessar serviços, realizar compras e iniciar pagamentos em nome de pessoas e empresas.
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