Erick Nascimento, CEO da Huge Networks, analisa como ataques DDoS podem comprometer o acesso à informação e a confiança durante as eleições
À medida que o processo eleitoral se torna cada vez mais dependente de plataformas digitais, a disponibilidade da infraestrutura tecnológica passa a ser um fator essencial para a confiança pública. Ataques DDoS contra portais oficiais, veículos de imprensa e serviços críticos podem comprometer o acesso à informação, favorecer a desinformação e colocar em risco a percepção de integridade das eleições, alerta Erick Nascimento, CEO da Huge Networks.
A integridade das eleições ainda é muito associada às urnas eletrônicas. Essa leitura, no entanto, é insuficiente. Em um país cada vez mais digital, a democracia depende também da disponibilidade e da acessibilidade da infraestrutura que garante o acesso à informação pública. Em anos eleitorais, ataques de negação de serviço distribuídos (DDoS) são mais do que um problema técnico e representam risco à democracia plena.
Grande parte da jornada do eleitor ocorre no ambiente digital. Informações oficiais, serviços públicos, dados sobre candidatos e o acompanhamento da apuração dependem de plataformas online. Quando esses sistemas ficam indisponíveis ou são complexos demais para uso pela população, cria-se um vácuo de informação que tende a ser ocupado por desinformação.
Em contexto eleitoral, o objetivo de um ataque DDoS raramente é alterar resultados. O foco é a percepção de falha. A instabilidade de portais oficiais ou de veículos de imprensa reforça dúvidas sobre a capacidade institucional do órgão atacado. Esse efeito é ampliado quando o acesso digital já é desigual: para quem enfrenta barreiras de usabilidade, conectividade ou letramento digital, a indisponibilidade funciona como exclusão.
Ataques DDoS frequentemente operam como cortina de fumaça. Enquanto equipes técnicas e institucionais concentram esforços em restabelecer a disponibilidade de sistemas críticos, outras ações ganham espaço: campanhas de desinformação e tentativas de manipular o debate público podem explorar o momento de confusão para ganhos financeiros ou eleitorais. Se um portal oficial sai do ar, por exemplo, teorias conspiratórias podem ganhar terreno porque o cidadão não consegue verificar os dados na fonte.
A superfície de ataque vai além dos órgãos centrais. Veículos de mídia, plataformas de campanha, provedores regionais de internet e serviços de DNS são ativos estratégicos. Derrubar um portal local ou isolar uma região reduz o acesso à informação verificada exatamente quando ela é mais necessária.
As eleições recentes mostraram esses padrões que envolvem ataques mais volumosos, sofisticados e cuidadosamente cronometrados. Há ainda a popularização do “DDoS como serviço”, prática que amplia riscos na medida em que facilita a contratação desses ataques – sem grandes barreiras -, em áreas pouco reguladas da internet.
Em uma democracia digital, a integridade do processo eleitoral não depende só da segurança das urnas, mas da capacidade de toda a infraestrutura que sustenta o acesso à informação. Dados analisados pela Huge Networks indicam que os ataques DDoS também vêm se tornando mais concentrados e intensos em momentos críticos do calendário digital. Desde 2023, o quarto trimestre passou a concentrar mais da metade das ofensivas mitigadas pela empresa, com novembro e dezembro, meses com datas sazonais que mobilizam toda a sociedade, respondendo sozinhos por até 56% dos incidentes observados.
Esse padrão mostra que ataques de indisponibilidade parecem estar cada vez mais planejados para coincidir com períodos de maior sensibilidade pública. Por isso, em contextos de grande mobilização social – como são eleições -, garantir que portais institucionais, sistemas de apuração e veículos de imprensa permaneçam acessíveis é essencial para preservar a confiança pública no processo democrático.
Erick Nascimento é CEO da Huge Networks e possui formação em Engenharia Elétrica e trajetória internacional em telecomunicações pelo AFOL Milano, na Itália, onde teve contato com as melhores práticas europeias em redes e infraestrutura. Possui mais de 10 anos de experiência em infraestrutura crítica, com especialização em backbones IP de grande escala e domínio de arquiteturas como MPLS, Segment Routing (SR) e SRv6. LinkedIn.
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