Inteligência artificial amplia a demanda por energia e transforma decisões sobre cloud e data centers em questões estratégicas
Por muitos anos, a decisão sobre onde hospedar sistemas e informações corporativas esteve concentrada principalmente nas áreas de tecnologia. Custo, desempenho, capacidade de processamento e disponibilidade figuravam entre os principais critérios considerados pelas empresas.
A expansão acelerada da Inteligência Artificial, no entanto, começa a mudar essa lógica. Data centers passam a ocupar uma posição estratégica que envolve não apenas infraestrutura tecnológica, mas também energia, legislação, segurança, soberania de dados e continuidade dos negócios.
Os números ajudam a dimensionar essa transformação. Segundo a Agência Internacional de Energia, a demanda mundial de eletricidade dos data centers cresceu 17% em 2025. No cenário-base da entidade, o consumo global deve praticamente dobrar até 2030, alcançando cerca de 945 TWh, impulsionado principalmente pela adoção da Inteligência Artificial e por outros serviços digitais.
O desafio não está apenas na quantidade de energia disponível. Como os data centers são grandes consumidores concentrados geograficamente, podem surgir gargalos locais de rede elétrica, conexão e capacidade de expansão.
A própria IEA aponta que equipamentos voltados à Inteligência Artificial elevam rapidamente a densidade energética das instalações e aumentam a pressão sobre componentes críticos, como transformadores, sistemas elétricos e infraestrutura de transmissão.

Para Waldo Gomes, diretor de marketing e relacionamento da NetSafe Corp, esse cenário exige que as empresas ampliem os critérios utilizados para decidir onde seus ambientes digitais serão instalados.
“Não basta mais perguntar qual data center tem capacidade ou qual cloud apresenta o melhor desempenho. A empresa precisa entender de onde vem a energia, quais são as alternativas em caso de indisponibilidade, em qual jurisdição os dados estarão, quem poderá acessá-los e como os ambientes estão segregados. Uma decisão de infraestrutura pode rapidamente se transformar em uma decisão de continuidade de negócio“, afirma Gomes.
Localização dos dados ganha peso regulatório
No Brasil, a relação entre localização, tratamento e circulação das informações também ganhou uma nova camada regulatória. O Regulamento de Transferência Internacional de Dados da Autoridade Nacional de Proteção de Dados estabelece que empresas precisam avaliar os mecanismos utilizados para enviar dados pessoais a outros países e assegurar nível adequado de proteção, independentemente do local em que essas informações estejam armazenadas.
A norma prevê ainda transparência sobre o país de destino, responsabilidades dos agentes envolvidos e medidas de segurança adotadas.
Isso significa que contratar um fornecedor global de cloud ou expandir uma operação para outro data center não elimina a responsabilidade da empresa sobre seus dados.
“Terceirizar infraestrutura não significa terceirizar risco. Antes de uma contratação, é preciso entender a arquitetura, os acessos administrativos, a dependência de terceiros, os mecanismos de continuidade e a capacidade de isolar um ambiente comprometido sem derrubar o restante da operação“, explica o executivo.
Data centers entram no debate sobre infraestrutura crítica
A preocupação também aparece no debate internacional sobre infraestrutura crítica. A agência europeia de cibersegurança ENISA classifica data centers e serviços de nuvem como parte da infraestrutura digital crítica e destaca que o caráter transfronteiriço desses serviços torna mais complexos temas como supervisão, compartilhamento de informações e resiliência.
A entidade também aponta riscos relacionados à soberania, propriedade dos dados e dependência de diferentes jurisdições.
Para as empresas, essa realidade amplia a análise de fornecedores. Além de preço e performance, entram na equação fatores como redundância energética, resiliência física e digital, localização dos dados, jurisdição aplicável, capacidade de recuperação, privilégios administrativos, segregação entre clientes e dependência de provedores ou regiões específicas.
Expansão dos data centers também chega à agenda ambiental
No Brasil, até o impacto físico dessa expansão começa a entrar na agenda pública. Em 2026, o Conselho Nacional do Meio Ambiente abriu discussão sobre a necessidade de diretrizes nacionais e salvaguardas socioambientais e climáticas específicas para o licenciamento de data centers.
Na avaliação de Gomes, o crescimento da Inteligênica Artificial deve tornar essas discussões cada vez mais frequentes dentro das empresas.
“Estamos entrando em uma fase em que arquitetura digital, energia, legislação e segurança precisam ser analisadas juntas. Para o board, a pergunta deixa de ser simplesmente onde vamos colocar os servidores e passa a ser quais dependências estamos criando para manter o negócio funcionando.”
Nesse novo cenário, o data center deixa de ser apenas o endereço físico da tecnologia. Torna-se parte da estratégia de resiliência da organização e, consequentemente, uma decisão que interessa tanto ao CIO e ao CISO quanto às áreas jurídica, financeira, de riscos e à própria alta administração.
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